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O Meu País

O Meu País

Os Pais da Democracia

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De entre as várias fontes disponíveis para ler e interpretar a história, há uma que é inquestionavelmente superior e vantajosa relativamente às restantes: trata-se da história de memória viva – aquela que é contada pelos que nela tomaram parte, quer do lado dos que fizeram acontecer, quer do lado dos que assistiram aos acontecimentos.
Das outras fontes – textos, achados arqueológicos, crónicas, relatos, monumentos, gravuras, pinturas, esculturas – sabemo-lo, cada historiador faz a sua leitura segundo aquilo que lhe parece ter sido, adaptado às suas convicções: ou porque os autores não foram suficientemente explícitos nas suas narrativas ou porque, tendo-o sido, há sempre alguém ou alguma coisa que o contraria de modo a podermos (o historiador poder) atribuir-lhe a nossa (do historiador) interpretação.
Quanto à história de memória viva, aquela que é contada e vivida por quem nela tomou parte, as leituras e interpretações só diferem se, em vez de história sem memória, se fizer uso da memória sem história. Simplificando (ou tentando simplificar), a história e a memória são indissociáveis (inseparáveis) e têm de coexistir em permanência: não podemos recordar-nos apenas do que nos convém nem esquecer o que nos desagrada.
Concretizando o escrito:
Há cerca de quarenta e três anos, deu-se um Golpe de Estado (forças do estado que se voltam contra ele) em Portugal, que o povo transformou em Revolução (adesão maciça da população, acompanhada de transformações profundas) no próprio dia dos acontecimentos. Conhecido oficialmente como Movimento das Forças Armadas (MFA), ficou para a História como a Revolução dos Cravos, mas percebemos perfeitamente uma ou outra designação. Este golpe de estado (ou Revolução), terminou (fez terminar) com quarenta e oito anos de vivência em regime ditatorial – o núcleo político manda, os outros obedecem e o povo não tem voz. Pacífico entender isto, julgo!
Quem fez o Golpe de Estado foram os militares (os detentores da força), não foram os políticos (refugiados ou não) nem os simpatizantes da democracia, nem os descontentes com a “Primavera Marcelista” (que nunca passou de Inverno disfarçado de Outono) nem as alas liberais da ANP (Ação Nacional Popular, “partido” único) e, muito menos, os “cronistas do reino”.
A luta dos políticos – Mário Soares, em concreto – foi importante? Foi, e muito! Mas, mesmo tendo em conta a justeza e reconhecimento desta luta: o que sofreram, as condenações a que foram sujeitos, a perseguição, a supressão da liberdade, o roubar da esperança, isso não chega (porque não é factual) para reconhecer a um ou outro o título de “Pai da Democracia”, como recentemente “ouvimos” chamar ao Dr. Mário Soares nos dias em que decorreu a sua homenagem (justa) e cerimónias fúnebres (merecidas).
Claro que, também não é de justiça (é, aliás, uma tremenda injustiça) o tipo de acusações levianas, absurdas e mentecaptas (a maior parte das vezes em modalidade de “copiar e colar”) que, principalmente nas redes sociais (o reino dos “heróis” escondidos) foram feitas ao Dr. Mário Soares. Mas, por este caminho nem me meto mais, tal a alarvidade das inverdades que, sem memória, se enterram em lodaçais sem História. Hoje, é tão fácil falar em liberdade…
O Dr. Mário Soares “marchou contra os canhões”? Sim! Mas quem os ergueu para devolver a esperança e liberdade de pensamento ao povo, entregando-lhe aquilo que é seu por direito intrínseco, foram os militares. E a partir de mil novecentos e oitenta e dois, muitos deles (quiçá a maioria) caiu no esquecimento enfrentando não a merecida glória pelos feitos que fizeram e pelo que arriscaram, mas a perseguição silenciosa da instituição militar que nunca lhes perdoou a ousadia de um dia terem ousado.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Fátima: Os Milhões e os Vendilhões

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 “Estando próxima a Páscoa dos Judeus, Jesus subiu a Jerusalém.
E achou no Templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e também os cambistas ali sentados; e tendo feito um azorrague de cordas, lançou-os todos fora do Templo, bem como as ovelhas e os bois; e espalhou o dinheiro dos cambistas, e virou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam as pombas: «Tirai daqui estas coisas; não façais da casa do meu Pai casa de negócio»”. Jo 2, 13-25.


Segundo consta nos livros da sabedoria, Cristo manifestou o seu descontentamento perante o comércio desenfreado que se praticava no Templo, em Jerusalém, expulsando da casa do Pai (dele) os que faziam daquele espaço, lugar desenfreado de comércio e de lucro. Actuou como um bom filho protegendo o património da família quanto ao seu bom nome. Que mais tarde viria a engrandecer e a expandir-se mundo fora e mais além (o património e a família).


Em Fátima, reza a lenda que não chega a ser história, aconteceu aquilo que é suposto ter sido visto e presenciado e constado por quem (diz que) viu. Há teorias, explicações, argumentos, contradições, mas sobretudo há Fé, aquela coisa que faz acreditar, crendo, e faz crer, acreditando. Acredita quem quer e crê quem lhe aprouver.


Com a fé das pessoas não se brinca (nem deviam produzir-se escritos de opinião!).


Mas podem e devem produzir-se escritos sobre sucessos comerciais, empresas empreendedoras em vias de expansão e com garantia de sucesso. Fátima é uma dessas empresas. Não apenas a Fátima santuário, mas a Fátima circundante, que se estende para além dos muros da Cova da Iria e que se ergue por entre o diversificado negócio da venda de produtos “santos” e de santos produtos: cafetaria, restauração, hotelaria e afins.


Talvez mais cinquenta por cento, terá sido em meia (ou uma) dúzia de anos, quanto subiram as receitas do Templo que é Santuário e deste que é Negócio. Não vi as contas, mas acredito na estimativa. Do mesmo modo que não vi o “milagre” e durante muitos e muitos anos tentei acreditar nele, mesmo comprando, quando me deslocava ao local, as santas peças e as maquinetas de espreitar e as velas de queimar e os lenços de acenar, sabendo que de santas, tais peças nada tinham.


Tal como não vi a expulsão dos vendilhões do Templo, feita pelo próprio mentor(?!) da igreja católica, apostólica, romana! Mas acredito que sim, embora haja alguns escritos que põem em causa esta acção, devido principalmente aos soldados que rodeavam os pórticos exteriores que não teriam permitido a Jesus causar tal distúrbio. Mas se o fez, fez muito bem: Bois,  pombos e ovelhas, mesmo sendo estas no feminino, não são para vender em tais lugares, quanto mais não seja, porque se uns são bois, têm cornos e transportam moscas, outras transportam carrapatos, sendo muitas delas ranhosas e os restantes fazem “corrupt, corrupt”, que é coisa impensável de se dizer, ouvir e praticar (pelo menos em Portugal onde tal termo não se aplica).


Mas o negócio continua, em franca expansão segundo consta, e onde já ninguém parece lembrar-se dos ensinamentos e das acções do seu mentor espiritual.


De Jesus, que tendo protegido a casa do Pai, se esqueceu de cuidar do espaço da Mãe, mesmo sendo apenas mãe biológica.


É um quase paradoxo: expandir a fé à custa dos ensinamentos de um Sábio (como foi Jesus), obtendo daí todos os milhões, contradizendo aquilo que ele ensinou e praticou até ao momento em que os judeus (malvados tais), o entregaram aos romanos maus, chefiados por um governador com a mania das mãos limpas.


Talvez seja (ainda) muito mais do que um paradoxo e se situe lado a lado com a alienação das multidões e das mentes e dos espíritos.


Mas sobre os espíritos e as mentes, prefiro o lema da Cavalaria: “mens agitat molem”.
Ainda na Cavalaria, “Ao galope ao galope ao galope…À Caaarga!”. Isto é, porrada neles.

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País 
Nos vendilhões.

Alegoria do Homem (e da Mulher)

Evolução humana.pngDiferente da maioria dos outros animais, que quando nascem, levantam-se e andam, o homem (e a mulher também), ao nascer, apenas sabe chorar e mamar. Vai crescendo, chorando e mamando; umas vezes chora menos e mama mais, e noutras, mama menos e chora mais. É tão-só uma questão de mama que se quer que não seque e outra de choro fingido para dar nas vistas. Claro que há exceções, mas essas, diz a lenda, só confirmam a regra.
O animal (homem) vai crescendo, aprende a andar sem cair, a falar sem chorar e a comer sem mamar. Ainda não sabe (nem quer) trabalhar nem o tempo verbal em que tal verbo de deve conjugar, mas sabe e sente que o corpo vai mudando e que a mama se vai reduzindo a tão pouca quantidade que não há choro que faça jorrar mais leite.
Mas vai aprendendo (o homem aprende se quiser) a tornar-se autónomo, a andar sozinho, a afastar-se da berma da estrada (da valeta) sem caminhar em direção ao eixo da via. De vez em quando, cai, mas, com ajuda ou com esforço próprio levanta-se e ei-lo de novo, sorridente, irado, desgostoso, pessimista ou otimista, a subir (e a descer) pela escada da vida. E continua a aprender, a ter de aprender sempre coisas novas para conseguir ultrapassar problemas velhos: quem lhe pegava ao colo para que não chorasse já não pode com ele (ou não quer aturar-lhe as manhas) e quem lhe enchia o estômago de leite ultrapasteurizado e homogeneizado, por uma razão ou por outra, encontrou outra utilidade para a nascente, muito mais divertida do que ser chupada e mordida ao mesmo tempo.
Nem bebé chorão (e mamão), nem criança imberbe, nem adolescente gaseificado com borbulhas, o animal é agora quase grande (por enquanto só fisicamente), mas quer continuar a crescer (mentalmente) e a afirmar-se perante os outros animais como ele: um clã, uma gruta, um mundo próprio…
Nasceu, chorou, mamou e cresceu: quase sempre por esta ordem mas não em absoluto porque há animais que mamam antes de chorar, choram antes de nascer e nascem (renascem) depois de crescer. Estes últimos são os “eleitos”, aqueles que têm as capacidades inatas de se auto reorganizar, de se reprogramar qualquer que seja o “sistema operativo” e de se reinventar, caso tenha sido desenvolvido com bug.
Mais tarde, já em decrescimento físico, dobrado, marreco, coxo ou com nariz junto ao chão, sente-se cada vez mais sábio e cada vez menos útil, incapaz de produzir, porque ninguém quer saber de teóricos que não fazem trabalhos práticos: o que aprendeu ao longo da vida, só serve para o seu próprio mundo, quase sempre povoado de recordações e de memórias vadias que se esgueiram por entre as veredas da sua própria penumbra.
Morre (morreu?) e todo o seu conhecimento viajou com ele: ou para o céu do Deus pai, ou para o céu dos anjinhos ou ainda (quem sabe?) para o céu dos passarinhos, caso tenha aprendido a voar e a pousar de galho em galho.
Recomeça o ciclo (é dinâmico, como sabemos). Nasce outro animal: chora, mama, cresce e aprende, algumas vezes à sua custa, outras à custa dos outros. Não quer (não quis) saber do morto nem dos erros que este cometeu, nem das quedas que caiu (muito menos dos esforço que fez para se levantar) nem tão pouco dos sonhos que esqueceu enquanto viveu sobrevivendo.
Quer fazer tudo sozinho (sem ajuda de ninguém), incluindo chorar e mamar!Diferente da maioria dos outros animais, que quando nascem, levantam-se e andam, o homem (e a mulher também), ao nascer, apenas sabe chorar e mamar. Vai crescendo, chorando e mamando; umas vezes chora menos e mama mais, e noutras, mama menos e chora mais. É tão-só uma questão de mama que se quer que não seque e outra de choro fingido para dar nas vistas. Claro que há exceções, mas essas, diz a lenda, só confirmam a regra.
O animal (homem) vai crescendo, aprende a andar sem cair, a falar sem chorar e a comer sem mamar. Ainda não sabe (nem quer) trabalhar nem o tempo verbal em que tal verbo de deve conjugar, mas sabe e sente que o corpo vai mudando e que a mama se vai reduzindo a tão pouca quantidade que não há choro que faça jorrar mais leite.
Mas vai aprendendo (o homem aprende se quiser) a tornar-se autónomo, a andar sozinho, a afastar-se da berma da estrada (da valeta) sem caminhar em direção ao eixo da via. De vez em quando, cai, mas, com ajuda ou com esforço próprio levanta-se e ei-lo de novo, sorridente, irado, desgostoso, pessimista ou otimista, a subir (e a descer) pela escada da vida. E continua a aprender, a ter de aprender sempre coisas novas para conseguir ultrapassar problemas velhos: quem lhe pegava ao colo para que não chorasse já não pode com ele (ou não quer aturar-lhe as manhas) e quem lhe enchia o estômago de leite ultrapasteurizado e homogeneizado, por uma razão ou por outra, encontrou outra utilidade para a nascente, muito mais divertida do que ser chupada e mordida ao mesmo tempo.
Nem bebé chorão (e mamão), nem criança imberbe, nem adolescente gaseificado com borbulhas, o animal é agora quase grande (por enquanto só fisicamente), mas quer continuar a crescer (mentalmente) e a afirmar-se perante os outros animais como ele: um clã, uma gruta, um mundo próprio…
Nasceu, chorou, mamou e cresceu: quase sempre por esta ordem mas não em absoluto porque há animais que mamam antes de chorar, choram antes de nascer e nascem (renascem) depois de crescer. Estes últimos são os “eleitos”, aqueles que têm as capacidades inatas de se auto reorganizar, de se reprogramar qualquer que seja o “sistema operativo” e de se reinventar, caso tenha sido desenvolvido com bug.
Mais tarde, já em decrescimento físico, dobrado, marreco, coxo ou com nariz junto ao chão, sente-se cada vez mais sábio e cada vez menos útil, incapaz de produzir, porque ninguém quer saber de teóricos que não fazem trabalhos práticos: o que aprendeu ao longo da vida, só serve para o seu próprio mundo, quase sempre povoado de recordações e de memórias vadias que se esgueiram por entre as veredas da sua própria penumbra.
Morre (morreu?) e todo o seu conhecimento viajou com ele: ou para o céu do Deus pai, ou para o céu dos anjinhos ou ainda (quem sabe?) para o céu dos passarinhos, caso tenha aprendido a voar e a pousar de galho em galho.
Recomeça o ciclo (é dinâmico, como sabemos). Nasce outro animal: chora, mama, cresce e aprende, algumas vezes à sua custa, outras à custa dos outros. Não quer (não quis) saber do morto nem dos erros que este cometeu, nem das quedas que caiu (muito menos dos esforço que fez para se levantar) nem tão pouco dos sonhos que esqueceu enquanto viveu sobrevivendo.
Quer fazer tudo sozinho (sem ajuda de ninguém), incluindo chorar e mamar!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Um Formador em Construção

Pedagogia.jpg

Comecei a gatinhar pelas técnicas e métodos pedagógicos há cerca de vinte anos: Numa primeira fase entre os espaços encaixilhados do meio militar – chamava-se (e chama-se) instrução militar –, mais tarde, numa segunda fase, já em ambiente civil, na modalidade de formação profissional e, numa terceira fase, libertado das amarras que me “atavam ao leme”, em regime de ensino e educação, a jovens que pretendiam obter a habilitação académica equivalente ao nono e décimo segundo ano.
Deste percurso com mais de vinte anos, percorrido entre o marcar passo na parada, o interior das quatro paredes de uma sala de formação e o mesmo espaço em regime de ensino – curiosa esta distinção entre formação e ensino e/ou, entre aluno e formando – cicatrizaram-se-me marcas que, nem amargamente nem docemente pretendo ou quero apagar.
Fui aprendendo a ensinar afastado das teorias das Ciências da Educação (hoje já conheço algumas), não porque as menosprezasse mas, simplesmente, porque as não conhecia, socorrendo-me da minha experiência de viva, não só das vivências do meu próprio percurso académico – é verdade, também eu, um dia, estive sentado nos bancos da escola a fazer bonequinhos enquanto os professores debitavam sabedoria – como também dos professores que aprendi a respeitar pela competência com que exerciam “a sua cruz”. Lembro-me dos que, ao tempo, considerava maus mas, com muito mais facilidade e satisfação, me lembro daqueles cujo carisma e perfil, punham “em sentido” uma turma inteira, transmitindo a sua mensagem com a leveza de quem, pisando algodão ou flocos de neve, avança no seu caminho sem que as marcas fiquem vincadas: para se caminhar com segurança, não é preciso bater com os pés no chão.
Foi assim que me tornei num “stôr”: eu, que nunca verdadeiramente fui bom aluno, ainda transpirando os salpicos da disciplina militar, encontrei-me frente a frente com um “novo inimigo”, os jovens de cabelos multicolores, com pírcingues em todo o lado e mais algum, de calças descaídas pelas nádegas e linguajando um dialecto que só ao fim de algum tempo consegui assimilar com êxito. E foi tão fácil trabalhar com esta gente, foi tão fácil “tê-los na mão” – há sempre excepções de casos “perdidos” que querem mesmo perder-se – afinal, para os cachopos, putos, miúdos, chavalos ou como se prefira designar este universo, apenas basta ser humano e tratá-los como tal.
Mais tarde, por razões que conheço mas que não importa aqui “rezar”, “perdi” os jovens e fiquei, quase em exclusividade, com os adultos da Formação Pedagógica Inicial de Formadores: um Formador que “veio do mato”, estava (estou) agora, a ensinar os outros a aprenderem a ensinar.
Mas neste patamar as coisas complicam-se, o sistema nervoso baralha-se, o cérebro (já um bocadinho lento) preguiça, as ideias nem sempre saem fluidas e escorreitas, entortando e ziguezagueando o discurso para áreas mais escorregadias que a as areias movediças dos filmes de terror de grau menos três. E nem sempre as coisas correm bem…
Pensei em desistir desta área de formação? Sim, pensei…
…Mas ao fim de cinco minutos, “despensei” e dispensei o que antes tinha pensado e voltei de novo ao “local do crime”: uma, duas, três vezes e outras tantas mais umas quantas.
Formar pessoas, qualquer que seja o escalão etário em que se incluam, é, ao mesmo tempo, um risco e um privilégio: o primeiro, pelo inesperado de cada situação que não conseguimos prever, o segundo, pelo sorriso de satisfação com que muitas vezes somos brindados.
A actividade do Formador é, afinal, viajar pelo espaço da pedagogia, tendo como ponto de partida a sua experiência e como ponto de chegada a transmissão e receptividade do seu conhecimento.
O resto é, apenas, Um Formador em Construção!

António J. Branco, In, Toque de Campaínha

Um Olho nas Luvas e Outro...no Feno!

Luva-Raspa-7CM.jpgAs luvas eram de pele castanha e tinham o interior forrado com espesso pelo, do género lã para as mais baratas e pura lã para as mais caras, as verdadeiras (hoje dir-se-ia genuínas). A grande dificuldade era comprá-las (hoje em dia, adquiri-las), não só devido ao problema do preço, como também ao facto de terem de vir de Espanha, dizia-se. O Guarda Florestal nunca fora a Espanha, isso era coisa para os ricos!
Mas queria mesmo umas luvas daquelas ou melhor, precisava de um bom par de luvas para proteger o frio que as madrugadas ao alvorecer lhe mirravam nas mãos os dedos contra a pele.
Só mesmo em Espanha…
Numa manhã de sol já meio levantado, parou-lhe aos pés uma carroça puxada por dois machos, com um burro à arreata. Sentado na boleia, com as rédeas nas mãos, um Cigano disse, “Bom-dia mê guarda”, “Bom-dia”, disse a Guarda (florestal). “O mê guarda é que me podia ajudar com um bocadinho de feno pós animais que já na comem nadinha há mais de três dias”, “Eu não sou o dono da herdade”, disse o guarda, “Atão mas basta fechar os olhos e eu num estantinho vou ali à cêfa, é coisa pôca”. “Se é só isso vá lá, não quero que os animais lhe morram com a carroça às costas”. O cigano atou as rédeas a um sobreiro marreco, tirou as grossas luvas e, de foice em punho, dirigiu-se à aveia que quase galgava o caminho de terra batida.
Três molhos depois, quando o guarda disse, “Não abuse que a aveia não é para ceifar ainda”, o cigano endireitou as costas e com um sorriso esticado pelo bigode amarelecido pelo fumo do tabaco disse, “Pronto mê guarda, já tá, vou já carregar”. Molhos de aveia em cima da carroça onde também se amontoavam os haveres próprios de quem anda de terra em terra, o cigano subiu para a boleia, enfiou de novo as luvas e, aprontou-se para dizer “arre macho”.
“Quanto é que quer pelas luvas”, perguntou o guarda-florestal, invejando as mãos quentes do cigano, “Ah mê guarda, na são pa vender, atão na vê que se na fossem elas na conseguia guiar a carroça” ao que o guarda, sem lhe dar mais tempo disse, “Você não costuma ir a Espanha”, “Atão na vou mê guarda, ainda na semana passada lá tive”, “Deixo-lhe ceifar mais um molho de aveia de se me trouxer umas luvas dessas de Espanha”, “Ah o mê o guarda é um santo, pá semana já lhas trago”. E foi ceifar mais dois molhos de aveia, “Mê guarda é um por cada luva”, e voltou a sorrir, com a maior inocência do mundo. “Até pá semana mê guarda”, “Não se esqueça, disse o guarda”.
Quatro ou cinco semanas depois, num outro caminho da herdade…
Numa manhã de sol já meio levantado, parou aos pés do guarda-florestal uma carroça puxada por dois machos, com um burro à arreata. Sentado na boleia, com as rédeas nas mãos, um Cigano disse, “Bom-dia mê guarda”, “Bom-dia”, disse a Guarda, “O mê guarda nã me deixa apanhar ali um molhinho de feno pós bichinhos que tão com tanta fome”, o guarda, aproximando-se mais da carroça para se certificar que o cigano era o mesmo que lhe prometera trazer as luvas de Espanha disse, “Só pode apanhar o feno depois de me trazer as luvas que prometeu”, “Atão mas eu prometi alguma coisa ao mê guarda”, “Já não se lembra do par de luvas que lhe encomendei em troca de mais um molho de aveia”, “Oh mê guarda como é que eu havia de lembrar se é a primêra vez que passo aqui”, “A primeira!”, disse o guarda espantado com a ousadia do cigano, “Atão pois é, o mê guarda na vê que eu tamém na tenho nada nas mãos, olhe os meus dedos, mirradinhos de frio, oh mê guarda deixe lá apanhar só um molhinho de feno, prá semana passo em Espanha e trago-lhe umas luvas novinhas”…

 

António J. Branco, In, Figuras de Cera

A Cor Negra do Sangue

hc130.pngJuro. Acordei triste: não porque o novo dia em cada dia que nasce não fosse propício a sorrir ao sol de Julho numa carícia terna de afago leve mas sentido; não porque à minha volta o céu ainda azul, descoberto de andorinhas de partida, não me deixasse contemplar na hora de ouro à beira-mar, o esconder de um sol que (dizem) nasce todos os dias para todos.

Como Português e Como Militar. Acordei triste e com amargura na voz, com névoa no olhar, com desalinho de cabelos, entrelaço de dedos, arrepio de pele e, pior, muito pior que tudo isso, com a alma fria, desalentada, desesperançada, desalinhada das coisas boas que a vida tinha (diziam) ainda para dar.

Servir as Forças Armadas. Confrontado com o baço olhar, com um rosto sem néctar nem timbre na voz, com dedos esguios, pele de inverno chuvoso e alma sem espírito activo, desenhei no espelho as únicas palavras que, naquele momento, consegui escrever: “Canteiro agreste”.

Guardar e Fazer Guardar. O que em tempos foi um jardim plantado de céu azul, enfeitado com areias de sol colorido e espuma branca de beijos entrelaçados com leite de amêndoa doce e salgada.

A Constituição e as Leis da República. O que em tempos foi um campo de cravos vermelhos, cujos trajes de enfeitar são agora capas de medo escuro, cobertas de silêncio atroz.

Juro. Vi Este País como uma planície de esguios pinhais, onde os lenhadores de então deram vida e sorte à partida de navios destemidos e de naus aventureiras e de caravelas bolinadas, cujas velas arreadas são agora o desnorte de um sul estridente sem estrela polar.

Defender a Minha Pátria. Este “Canteiro Agreste” onde os vadios da desesperança e os parasitas dos sentimentos e os profetas do restelo são velhos desdentados em sorrisos embruxados de maldições disfarçadas por rigores suspeitados em tridentes luciféricos.

E Estar Sempre Pronto a Lutar. Como um lamento de ansiedade ou um pedido de socorro: um grito de “Alerta Está” de Sentinela tardia com sentimento de frustração esmurrada contra o vento da anunciação desventurada.

Pela Sua Liberdade e Independência. Só vi no espelho uma cor baça e brilhante desmaiada de Negra morte. Queria ter visto o verde-alga, o verde-pinho, o verde-erva, o verde-verde, o verde-esperança.

Mesmo Com o Sacrifício da Própria Vida. Só vi a cor Negra da desventura, a cor turva da desesperança, a Cor Negra do Sangue.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

...No Hay Dinero!

La Salle.jpgCorreu pelo Colégio a ideia de aproveitar da melhor maneira o enquadramento com o Rio Tejo, na prática de exercício físico em variante terrestre e aquática: descida até ao Tejo, que ficava a cerca de um quilómetro de distância, indo pelos montes abaixo – variante terrestre – para a prática da canoagem naquele espaço onde as águas eram quase paradas – variante aquática.
O assunto não era de modo algum pacífico nem de fácil aceitação, mas colhia as boas graças de muitos alunos e de muitos encarregados de educação e discutia-se com frequência, quer entre alunos, quer entre a Irmandade, quer ainda entre estes e os pais dos alunos, havendo em qualquer dos lados, quem apoiasse e quem contestasse (como em todas as questões, onde há sempre opiniões que não convergem).
Num dia em que já todos os rapazes do serviço (*)  tinham acabado as suas obrigações da hora de almoço, estando a tomar a sua própria refeição na divisão anexa ao refeitório dos Irmãos, que estavam por sua vez já naquela fase das sobremesas e do prazer de saborear o repasto – é sabido que os frades comem que nem uns abades – ouviu-se acalorada discussão, à qual prestaram a máxima atenção.
- Se hacen media docena de canoas y los chicos practican ejercicio.
- Per, y las aguas? Es peligroso.
- Compram-se Bóias!
- Y después se vuelcan las canoas, es muy peligroso.
- Desde que haja bóias para todos, não há perigo nenhum!
- Y los remos? No creo que sea buena idea.
- Pero es bueno como ejercicio.
E assim iam continuando a discussão com algumas misturas de linguagem, pois os Irmãos  Portugueses falavam  Português correcto, e os Irmãos Espanhóis, quanto mais nervosos e irritados ficavam, menos se esforçavam por bem falar em português; no fundo, entendiam-se nas falas mas não chegavam a acordo quanto ao tema até que, repentinamente, se ouviu uma voz forte e determinada que pôs fim à discussão:
- No hay dinero.
Disse o Irmão Borges, do alto da sua imponência e enorme barriga (de frade, claro).
E pronto, nada mais se ouviu, silêncio total e de canoagem acabou a discussão. Passados uns instantes, à saída – saíam pela sala onde os rapazes do serviço comiam – ainda um dos frades portugueses se encostava ao Irmão Borges, a dizer:
- Mas ó Irmão Borges, isto até nem fica muito caro, é só...
- No hay dinero, caramba, será necesario repetirlo de nuevo?
E nunca mais no Colégio se ouviu de falar de exercício em variante terrestre e aquática. Restou a prática em variante terrestre, também saudável e sem custos acrescidos.

António J. Branco, In, Figuras de Cera

(*) Grupo reduzido de alunos que acumulavam os estudos com o serviço de refeitórios e cozinha como forma de pagamento da sua mensalidade.

 

Um Estilo Manuelino...

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No último quartel do século XV, foi aclamado como Rei de Portugal, Dom Manuel I, O Venturoso, também conhecido pelo Afortunado e O Bem-Aventurado. Em poucas palavras: Dom Manuel I teve muita sorte (Ventura e/ou Fortuna) e soube trabalhar muito bem.
No primeiro quartel do século XXI, foi eleito Presidente da República o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que não tem cognome porque aos presidentes não se lhes atribui tal “apêndice”. Em poucas palavras: o Professor Marcelo fez pela vida (e pela sorte) e soube trabalhar muito bem.
Regista-se um empate.
Por má sorte (ou má fortuna) Dom João II, O Príncipe Perfeito, não teve descendência que garantisse a sucessão do Reino de Portugal.
Cerca de Quinhentos anos mais tarde, o Professor Marcelo, não teve, verdadeiramente, candidatos “com força suficiente bastante” para lhe fazer frente numa eleição ganha antes de começar: Estava garantida ou, como se diz na gíria popular, estava “no papo”.
Outro empate.
El-Rei Dom João II – um verdadeiro estadista, quiçá o melhor até hoje – ao querer limitar o poder da nobreza teve de agir com astúcia, coragem e valentia no interior da sua própria corte, na qual, ele mesmo deu fim à vida do Duque de Viseu, seu cunhado (irmão de Dom Manuel I) que contra si conspirava. Após a morte (aos dezoito anos e de contornos esbatidos) do Infante Afonso, seu sucessor, Dom João II tentou que o reino fosse entregue ao filho bastardo (Jorge de Lencastre) sem que para tal tivesse tido sucesso. Diz-se que nesta desventura o seu cunhado Manuel (o que viria a ser O Venturoso) manobrou na sombra (bastidores) os bastantes (todos e suficientes) cordelinhos e pauzinhos da sua Ventura. Dom João II sabia da astúcia do cunhado (e primo) mas como este nunca o afrontou nem menosprezou, acabou por, já moribundo (ou quase) e contrariado, entregar-lhe o poder.
Quinhentos anos mais tarde, contrariando a vontade (não a explícita mas a implícita) do presidente do seu partido, o Professor Marcelo candidatou-se à eleição para a Presidência da República, um trabalho iniciado cerca de dez anos antes, como “cronista do reino” na arte de bem comentar aquilo que os outros faziam (ou deixavam por fazer). Político ágil, astuto, inteligente, simpático e batalhador, não desistiu dos seus intentos ainda que tivesse sido apelidado de cata-vento de opiniões pelo presidente do seu partido (aquele que o aceitou não o querendo para tal).
Outro empate com Dom Manuel I: Ambos, na sua perseverança e agilidade astuciosamente paciente, souberam, passo a passo, construir o caminho da Ventura: um em direcção à Coroa de El-Rei, o outro em direcção à cadeira de Belém.
Dom Manuel I, ainda que tendo sido aclamado rei pela via indirecta, reinou vinte e seis anos e foi um bom Rei. Para além da sabedoria com que geriu os descobrimentos, deixou-nos o conhecidíssimo estilo Manuelino. Fica na história do lado dos bons, daqueles que Fizeram.
O Professor Marcelo (ao contrário de Dom Manuel) foi eleito pela via directa e, se a história se cumprir, presidirá por dez anos. Ao contrário do seu antecessor, esperemos que não fique na história do lado dos maus.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Andam Lobos Por Aí

Lobo e Cordeiro.jpgCientificamente o cão descende do lobo; melhor, o cão evoluiu geneticamente a partir do lobo – e da loba, claro – numa multiplicidade de raças que dá para satisfazer todos os gostos do homem (e da mulher), conforme o feitio de cada um e a personalidade de cada qual. Andam lobos à solta!
Por outro lado, o homem, dizem os livros, descende do macaco; não tendo sido criado geneticamente mas evoluído a partir do dito cujo, ficando com as costas mais direitas, menos cabeludo e cada vez mais alto. Andam lobos na cidade!
Vivendo o lobo em alcateia e caçando em conjunto por razões de sobrevivência, os seus derivados genéticos, embora mantendo o mesmo instinto na sua essência, cedo se habituaram ao estilo de vida dos humanos, preferindo a comodidade e conforto da sua companhia à insegurança alimentar e instabilidade física daqueles que lhes deram origem: uma coisa é ser lobo a outra é vestir-lhe a pele. Andam lobos no Rebanho!
Vivendo os homens em sociedade (imaginada?), cedo também se habituaram à dedicação e fidelidade dos cães, tanto de miniaturas em forma de brinquedo como de gigantes em forma de lobos à moda antiga: uma coisa é ser homem a outra é perceber a sua essência. Andam lobos no Caldas!
Quanto aos macacos, gorilas, chimpanzés e associados, continuam a viver na selva, como castigo por não terem sabido evoluir ou, no mínimo, como penitência pela curvatura da coluna vertebral que teimaram em manter. Não querendo misturas nem com os lobos nem com os cães, aproximam-se por vezes dos homens numa atitude de complacência pelo estado a que estes chegaram quando decidiram “desagrafar-se” da genética e comum origem: uma coisa é ser macaco a outra é fazer macaquices. Andam lobos na Lapa!
Tanto os lobos como os cães marcam e delimitam o seu território através de fluidos corporais – urinam no chão ou sobre objectos que demarcam os seus domínios. Já quanto aos macacos estas fronteiras (as dos macacos, não as dos lobos) são definidas através de gritos fortes, dominantes, estridentes e dominadores; e nisto parecem-se um bocadinho com aqueles que abandonaram a raça. Andam lobos na Assembleia!
Os humanos, para se distinguirem e diferenciarem o seu território, fizeram tudo de maneira diferente: pregaram marcos no chão, desenharam riscos nos mapas, construíram muros, dividiram rios, seccionaram ilhas e até inventaram deuses para lhes servir de patrono; enfim, tudo ao contrário dos outros animais, sem mijar e sem gritar mas com muita merda à mistura. Andam lobos de Mitra!
Olhando para trás mesmo sem ver a origem, fácil é, pois, a conclusão: Os lobos continuam tal como sempre foram, os macacos tal e qual e os cães conforme o trato e o meio em que vivem. Quanto aos humanos, os tais que desalinharam dos símios por evolução (?!), continuam, condescendentes, a deixar…que Andem Lobos Por Aí!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Ciclo da Vida

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Diferente da maioria dos outros animais, que quando nascem, levantam-se e andam, o homem (e a mulher também), ao nascer, apenas sabe chorar e mamar. Vai crescendo, chorando e mamando; umas vezes chora menos e mama mais, e noutras, mama menos e chora mais. É tão-só uma questão de mama que se quer que não seque e outra de choro fingido para dar nas vistas. Claro que há exceções, mas essas, diz a lenda, só confirmam a regra.
O animal (homem) vai crescendo, aprende a andar sem cair, a falar sem chorar e a comer sem mamar. Ainda não sabe (nem quer) trabalhar nem o tempo verbal em que tal verbo de deve conjugar, mas sabe e sente que o corpo vai mudando e que a mama se vai reduzindo a tão pouca quantidade que não há choro que faça jorrar mais leite.
Mas vai aprendendo (o homem aprende quando quer) a tornar-se autónomo, a andar sozinho, a afastar-se da berma da estrada (da valeta) sem caminhar em direção ao eixo da via. De vez em quando cai, mas, com ajuda ou com esforço próprio levanta-se e ei-lo de novo, sorridente, irado, desgostoso, pessimista ou optimista, a subir (e a descer) pela escada da vida. E continua a aprender, a ter de aprender sempre coisas novas para conseguir ultrapassar problemas velhos: quem lhe pegava ao colo para que não chorasse já não pode com ele (ou não quer aturar-lhe as manhas) e quem lhe enchia o estômago de leite ultrapasteurizado e homogeneizado, por uma razão ou por outra, encontrou outra utilidade para a nascente, muito mais divertida do que ser chupada e mordida ao mesmo tempo.
Nem bebé chorão (e mamão), nem criança imberbe, nem adolescente gaseificado com borbulhas, o animal é agora quase grande (por enquanto só fisicamente), mas quer continuar a crescer (mentalmente) e a afirmar-se perante os outros animais como ele: ser integrado um clã, viver numa gruta e ter um mundo próprio…
Nasceu, chorou, mamou e cresceu: quase sempre por esta ordem mas não em absoluto porque há animais que mamam antes de chorar, choram antes de nascer e nascem (renascem) depois de crescer. Estes últimos são os “eleitos”, aqueles que têm as capacidades inatas de se auto reorganizar, de se reprogramar qualquer que seja o “sistema operativo” e de se reinventar, caso tenha sido desenvolvido com defeito físico – um Bug, dirão alguns!
Mais tarde, já em decrescimento físico, dobrado, marreco, coxo ou com nariz junto ao chão, sente-se cada vez mais sábio e cada vez menos útil, incapaz de produzir, porque ninguém quer saber de teóricos que não fazem trabalhos práticos: o que aprendeu ao longo da vida, só serve para o seu próprio mundo, quase sempre povoado de recordações e de memórias vadias que se esgueiram por entre as veredas da sua própria penumbra.
Morre (morreu?) e todo o seu conhecimento viajou com ele: ou para o céu do Deus pai, ou para o céu dos anjinhos ou ainda (quem sabe?) para o céu dos passarinhos, caso tenha aprendido a voar e a pousar de galho em galho.
Recomeça o ciclo (é dinâmico, como sabemos). Nasce outro animal: chora, mama, cresce e aprende, algumas vezes à sua custa, outras à custa dos outros. Não quer (não quis) saber do morto nem dos erros que este cometeu, nem das quedas que caiu (muito menos dos esforço que fez para se levantar) nem tão pouco dos sonhos que esqueceu enquanto viveu sobrevivendo.
E quer fazer tudo de novo, provando que é único e diferente (sem ajuda de ninguém), incluindo chorar e mamar!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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