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O Meu País

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O Último Jantar

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Há cerca de dois mil anos, dizem-nos os escritos (que alguém escreveu), Jesus (que na altura ainda não era Cristo) promoveu uma reunião com os seus mais diretos seguidores (os Apóstolos) a que chamou a Última Ceia. Este encontro, para além de ter servido a sua função primeira (saciar a fome) parece ter servido também como forma de despedida física deste mundo uma vez que O Mestre (Jesus) iria ser entregue aos Romanos a troco de um pagamento de trinta dinheiros pela denúncia – Não consigo, por desconhecimento do câmbio de então, calcular a importância em termos de moeda actual, mas acredito que não deve ter sido uma importância muito significativa porque sendo Jesus, à época, uma figura pública, a dificuldade de identificação pelos seus inimigos não seria assim tão grande para que fosse prometida (e paga) uma quantia por aí além…

A Última Ceia foi, portanto, um momento muito importante (sagrado?) e significativo na despedida do Mestre na qual, para além de ter havido reunião, houve também alimentação e anúncio de traição.


Mais recentemente – na verdade apenas há alguns dias – um grupo de Websummits (etnia de nível económico superior) promoveu uma reunião ajantarada (a que chamaram mesmo jantar) para confraternização e troca de ideias luminosas entre todos os iluminados. A reunião (sentido formal) ou jantar (sentido informal) decorreu na Igreja de Santa Engrácia, também conhecida por Panteão Nacional – espaço museológico onde um País sepulta os seus heróis (pessoas que se distinguiram na defesa e divulgação dos bens pátrios).


O culto dos (e o respeito pelos) mortos é uma tradição desde que o homem é homem, mesmo quando ainda era macaco (ou pelo menos metade macaco). Na verdade, os lugares de sepultamento são vestígios arqueológicos (ruínas) disseminados por todo o país, provando que, quem por cá andou noutros tempos, independentemente da era, já respeitava quem morria, atribuindo ao acto (inumação ou sepultamento) um alto teor de dignidade. E isto não tem nada a ver com religião, crenças e afins, apenas dignidade e respeito por quem já não sendo vivo, pode continuar presente na memória dos que (ainda) o são – Aqueles que partiram não são apenas os que não ficaram!


É verdade que no Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia (um dos três que temos em Portugal) não é unânime que estejam apenas sepultados heróis ou portugueses que se distinguiram pela divulgação e engrandecimento do país – se um futebolista e uma fadista são de concordância duvidosa um Sidónio Pais é, com certeza, ainda mais! A questão é, portanto, de respeito e dignidade por aqueles que não tendo pedido para ali repousarem, ali repousam por vontade dos que eram (ou são) vivos à data da sua morte – e isto também não tem nada a ver com religião, inferno, céu ou purgatório, só e tão-só, dignidade.


Jantar num Cemitério, num Jazigo, numa Anta, num Dólmen ou num Panteão, aparte a sua envolvência física, arquitectónica ou fundação, não é apenas de mau gosto, macabro ou mórbido, é desrespeitador da dignidade daqueles que já não podem queixar-se – a Dignidade é praticada pelos vivos!


Culpar os Websummits, o legislador, o ministro, o secretário de estado, o director-geral (tanto os que são como os que já foram) é o que de mais fácil podemos fazer para tranquilizar a consciência colectiva mas, aquilo que verdadeiramente interessa e importa levar à prática é que à semelhança da Última Ceia declarada por Jesus, prestes a ser vendido por trinta dinheiros, este tenha sido o Último Jantar, ainda que vendido por cem vezes mais!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

A Cor Negra do Verde

Pinhal.jpgEsmeralda acordou triste, não porque o novo dia em cada dia que nasce não fosse propício ao sorrir do sol de Outono numa carícia terna de afago leve e sentido dos nossos Heróis do Mar!

Não porque à sua volta o céu ainda azul, tingido em andorinhas de partida, não a deixasse contemplar naquela hora dourada, o esconder de um sol que (dizem) nasce para todos, todos os dias deste milenar Nobre Povo!
Acordou triste, com um sorriso amargo, com amargura na voz, porque tinha névoa no olhar, desalinho de cabelos, entrelaço de dedos, arrepio de pele e, pior, muito pior que tudo isso, com a alma fria, desalentada, desesperançada, desalinhada das coisas boas que a vida ainda tinha (diziam) para lhe dar naquela que fora em tempos a sua Nação Valente!
Confrontada com o baço olhar e sorriso sem néctar, sem timbre na voz, com medos esguios em pele de inverno de arrepio colorido de cinza negra E Imortal!
Esmeralda desenhou no espelho as únicas palavras que, naquele momento, conseguiu lembrar-se: “O Verde-Ousado” da alma que, “Ó povo castigado”, Levantai Hoje de Novo!
Em tempos este jardim plantado, coberto de céu azul e de areias de sol dourado, por água-mar de espuma branca e amêndoa doce salgada era agora a reminiscência d’O Esplendor de Portugal!
Em tempos, este campo de cravos vermelhos, cujas cores de esperançar eram capas de medo escuro, cobertas de silêncio entre as Brumas da Memória!
Em tempos, neste prado de esguios pinhais, os marinheiros de então eram agora madeireiros em ensaio de lenhadores de Ó Pátria Sente-se a Voz!
Em tempos, fora partida de navios destemidos e de naus aventureiras e de caravelas bolinadas, cujas velas arreadas são agora o desnorte de um sul estridente, sem qualquer Ursa Maior nem sequer Estrela Polar Dos Teus Egrégios Avós!
Era apenas a saudade daquele “Verde-Ousado” onde os vadios da desesperança e os parasitas dos sentimentos e os profetas do restelo eram velhos desdentados em sorrisos embruxados de maldições disfarçadas por rigores suspeitados em tridentes luciféricos Que Hão-de Guiar-te à Vitória?
Era tão-só a lembrança do “Verde-Ousado”, onde as Primaveras de Marcela se esfumavam em sorrisos de beijos engalanados e abraços de entreter em gritos de choro Às Armas!
Uma planície de cores mortas em vozes de embrutecer nas lágrimas da desesperança da tragédia experimentada na desalma do poder Pela Terra e Pelo Mar!
Esmeralda suspirou pela impotência que sentiu no reflexo de sonhar Às Armas!
Esse suspiro de ansiedade num lamento de socorro, foi então um grito incómodo, um renascer desaparecido, um sentimento de frustração e um murro dado no vento da desventurada anunciação de Pela Pátria Lutar!
Esmeralda enfrentou o espelho e viu…
Viu apenas a cor brilhante naquele negro sem vida.
Queria ter visto o verde-alga, o verde-pinho, o verde-erva, o verde-verde, o verde-esperança e talvez o Verde-Esmeralda que a fizessem em correria, Contra os Canhões Marchar, Marchar!…
Mas só viu o “Verde-Ousado” de um tempo desesperançado em madrugada desmanhecida!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Andam Lobos Por Aí

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Cientificamente o cão descende do lobo; melhor, o cão evoluiu geneticamente a partir do lobo - e da loba, claro - numa multiplicidade de raças que dápara satisfazer todos os gostos do homem (e da mulher), conforme o feitio de cada um e a personalidade de cada qual.

Andam lobos à  solta!

Por outro lado, o homem, dizem os livros, descende do macaco; não tendo sido criado geneticamente, mas evoluído a partir dele, ficando com as costas mais direitas, menos cabeludo e cada vez mais alto.

Andam lobos na Campo!

Vivendo o lobo em alcateia e caçando em conjunto por razões de sobrevivência, os seus derivados genéticos, embora mantendo o mesmo instinto na sua essência, cedo se habituaram ao estilo de vida dos humanos, preferindo a comodidade e conforto da sua companhia à  insegurança alimentar e instabilidade fÍsica daqueles que lhes deram origem: uma coisa É ser lobo a outra É vestir-lhe a pele.

Andam lobos no Rebanho!

Vivendo os homens em sociedade (imaginada?), cedo tamém se habituaram à  dedicação e fidelidade dos cães, tanto de miniaturas em forma de brinquedo como de gigantes em forma de lobos à  moda antiga: uma coisa é ser homem a outra é perceber a sua essência.

Andam lobos na cidade!

Quanto aos macacos, gorilas, chimpanzés e similares, continuam a viver na selva, como castigo por não terem sabido evoluir ou, no mí­nimo, como penitência pela curvatura da coluna vertebral que teimaram em manter. Não querendo misturas nem com os lobos nem com os cães, aproximam-se por vezes dos homens numa atitude de complacência pelo estado a que estes chegaram quando decidiram separar-se da genética e comum origem: uma coisa é ser macaco a outra é fazer macaquices.

Andam lobos pelas serras!

Tanto os lobos como os cães marcam e delimitam o seu território através de fluidos corporais  -  urinam no chão ou sobre objectos que demarcam os seus domínios. Já quanto aos macacos estas fronteiras (as dos macacos, não as dos lobos) são definidas através de gritos fortes, estridentes e dominadores; e nisto parecem-se um bocadinho com aqueles que se desviaram a raça original.

Andam lobos na polí­tica!

Os humanos, para se distinguirem e diferenciarem o seu território, fizeram tudo de maneira diferente: pregaram marcos no chão, desenharam riscos nos mapas, construí­ram muros, dividiram rios, seccionaram ilhas e até inventaram deuses para lhes servir de patronos. Tudo ao contrário dos outros animais: sem mijar e sem gritar, mas com muita hipocrisia à  mistura.

Andam lobos nas igrejas!

Olhando para trás mesmo sem ver a origem, fácil é, pois, a conclusão: Os lobos continuam tal como sempre foram, os macacos tal e qual e os cães conforme o trato e o meio em que vivem. Quanto aos humanos, os tais que desalinharam dos sÍmios por evolução (?!), continuam, condescendentes, a deixar...

...Que Andem Lobos Por Aí­!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Cartas de Guerra - Emoções Entardecidas!

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Foi com emoção que assisti à  abertura do espólio de guerra cedido por uma Mãe, à  Liga dos Amigos do Arquivo Histórico Militar. O espólio  - "acervo históico" - pertence ao filho, alferes miliciano, caído em combate na célebre operação Nó Górdio, levada a cabo em 1 de Julho de 1970, por oito mil homens do Exército, Força Aérea e Marinha (além de Grupos Especiais), contra as bases do planalto dos Macondes, em Moçambique, onde se encontravam disseminados cerca de 2500 guerrilheiros, sob o comando de Samora Machel.

Êxito para uns, principalmente para o seu mentor (General Kaúlza de Arriaga), e total fracasso para outros, porque, passado pouco tempo, a Frelimo voltaria a recuperar o domí­nio sobre grande parte do territóio, esta operação ficou para a história e memória de todos aqueles que, de algum modo, dramaticamente ajudaram a compor  o "Cancioneiro do Niassa" (De quantos sacrifÍ­cios senhores que em mim mandam, é feita  a vida de um soldado).

Espólio composto por um quadro com fotografia a preto e branco do Alferes C. e crachá da especialidade Comandos - 1ª Companhia de Comandos "Escorpiões" -  e respectivos galões; um álbum de fotografis; vários  troféus conquistados na prática da actividade desportiva (Vela) e, sobretudo, o conjunto das cartas (envelopes) por abrir, enviadas e recebidas pela mãe, com o carimbo "Destinatário falecido", no verso, constituem a memória temporal de alguém que, palavras suas, "Dentro de pouco tempo vou morrer e  este é o melhor destino para as coisas do meu filho".

Dói!

Dói  pensar,  ver e  sentir, sobretudo olhar para as cartas por abrir, remetidas à  Mãe - devido ao desfasamento no tempo e ao facto terem sido escritas  várias cartas mesmo sem obtenção de resposta das anteriores (o motivo já o sabemos).

"Nó Górdio" pode ser lido e apreciado na sua versão literária como  "Nó Cego",  de Carlos Vale Ferraz e consultado como ensaio histórico na obra "Moçambique, 1970. Operação Nó Górdio", de Carlos Matos Gomes (o mesmo autor sem pseudónimo).

A Guerra Colonial, para além de um pesado passado, é uma amarga lembrança impossível de esquecer e uma espessa sombra que pairará no sempre eterno da nossa história e da nossa memória colectiva. Não há "branqueamento" possí­vel que explique as acções de um Estado Novo, que nunca percebeu que estava a cair de velho.

A Recolha de espóliso de guerra é um projecto aliciante, que visa reunir situações vividas e emoções sentidas, daqueles que partiam e se despediam no Cais da Rocha Conde de Óbitos, ficando separados por um mar que muitas vezes não os haveria de voltar a juntar. É um projecto de  recolha documental, oriundo de quem, com maior proximidade, viveu e sentiu o amargo sabor das lágrimas derramadas, das saudades amargadas, dos sonhos desesperançado e das cartas por (re)abrir - Como Olinda, a mãe do Alferes C.

A história não se faz só com o empenho de alguns e com a interpretaçãoo dos "Sábios", a História faz-se com o contributo de todos e com o estudo dos pedaços que ainda faltam (e sempre faltarão).

O Espólio do Alferes C. está em boas mãos, irá ser tratado e guardado de acordo com a dignidade e importância que merece. As cartas, passados mais de trinta anos, irão um dia  ser abertas: São Cartas de Guerra!

Mas causa dor de alma e calafrios.

E dói, continua a doer, mas faz parte da Nossa História.

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Memorial a José Afonso

Zeca.jpg

Saudades pelo adeus precoce.
Do Homem – Músico, cantor e poeta – que mandou vir mais cinco;
Que mandou trazer outro amigo;
Que tinha um menino de oiro, de oiro fino;
Que para além de sonhar com a liberdade ao Mundo a vontade.
Saudades da triste partida.
Daquele que cantava as baladas, que pegava na guitarra e entoava as palavras;
Que encantaram gerações e fizeram tremer os mentores de um regime apodrecido
de indecência e de injustiça e de dignidade subtraída:
Um Rouxinol do Choupal, que deixou nascidas, sementes de sempre eterno!
Admiração pelo olhar ao longe.
No horizonte do céu cinzento (sob o astro mudo), com acordes repetidos
Em memórias plenas de história…
…E em história repleta de memórias.
Como franjas rendadas da inquieta perseverança que semeou
Na frieza da verdade inquieta,
Percorrida no país que ajudou a renascer,
Passeando a esperança acontecida daqueles que, desesperançados,
Morreram de desalento perdido numa Terra sem arco-íris:
Numa terra de silêncio, lavrada e cultivada do medo que venceu.
Trinados de saudade.
Por Aquele que se escondeu na simplicidade de ser gente;
Na hombridade dos que não se deixaram tombar vencidos nem jazer em fossos de noite abafada…
…Apesar dos que comeram tudo não deixaram nada.
Mesmo tendo vivido apenas treze anos rodeado de cravos vermelhos.
Anos de febre a arder.
No confronto de ideias não cimentadas e cremadas:
Em branqueamentos de inverdades que os movimentos cíclicos da história impõem.
Em que os homens de má vontade nos querem fazer crer…
…Que as memórias das guitarras são Grândolas sem terra de fraternidade!
Emoção de voz tremida.
No receio e na saudade dos que subindo pelas veredas,
Das nuvens avermelhadas de pôr-do-sol, se tiveram que esgueirar
Por entre os raios de fogo que, mergulhados em águas azuis do mar salgado, um dia se fez português.
Daqueles que - como tu, - por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando!
Uivos de vento assobiando as palavras,
Que cantaste em tempo de escuridão por entre os vampiros da noite calada;
Por entre os mandadores de um povo adormecido à sombra do que não foi,
De um povo adormecido sobre as glórias do passado...
Foi tão perto o adeus precoce.
Para a terra D’Além deixando na memória das gerações multiplicadas,
Um legado de rimas e de palavras, entoadas entre os salgueiros dos riachos
Que nos enchem a vida de trinados sinuosos,
Erguidos ao céu por cantares de rouxinóis e de toutinegras reais, porque…
…Aqueles que partiram, nem sempre são os que não ficaram.

António J. Branco, In, Heróis do Meu País

 

 

Deuses...Para que vos Quero?!

deuses.pngDizem-me que existem Deuses.
Já na escola primária (entretanto promovida a 1º ciclo) me diziam que existiam Deuses. Mas havia uns que eram falsos, o “nosso” não, o nosso era verdadeiro, “criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis” (não sei se ainda é assim que se diz).
Quando o Padre (o Sr. Prior, bem entendido) da Paróquia (naquela altura era só Igreja) visitava a escola a professora (não digo o nome dela porque era má e batia com uma régua) mandava-nos para a confissão e tínhamos de ir tirar ninhos de pardais para pecar muito e confessar ainda mais. Quando era no inverno não havia ninhos e aí as coisas ficavam mais complicadas porque nas aldeias nunca se usou muito o passatempo de partir vidros das janelas.
Nunca simpatizei muito com os Deuses que eram falsos, porque sendo Deuses tinham de ser autênticos e isso de assumir uma santidade suprema sem cumprir as obrigações, parecia-me mal. Mas a senhora professora (naqueles tempos ainda não havia stôras) diziam que os Deuses falsos eram apenas adorados por povos pouco evoluídos e a prova disso é que nós tínhamos um Deus dos bons, o senhor prior (respeitinho) dizia até que era o melhor de todos, mais ainda, era único!
O problema é que a população aumentou muito e os Deuses desistiram (vá lá saber-se porquê) da profissão. E hoje já não podemos contar com a distribuição de tarefas que tinham os Egípcios, os Gregos e os Romanos, que atribuíam uma divindade a cada área de trabalho, vejam só que até os bêbados (entretanto promovidos a alcoólicos ou na dependência do álcool) tinham um Deus só para eles (Baco e Dionísio, por exemplo).
Aqui na Lusitânia também havia deuses falsos que para eles (nós como Portugueses ainda não existíamos, claro) eram verdadeiros. Dizem que Endovélico (gosto do nome deste Deus) era um dos melhores e mais sábios – curiosidade: No Alandroal (Alentejo) há um templo de Endovélico.
Uma das consequências do desaparecimento dos deuses falsos foi o aparecimento do Diabo, (também chamado Belzebu e Lúcifer) e a partir daqui iniciou-se uma guerra que não se sabe como irá acabar porque, se dizem (é o que ouço dizer) que os Deuses verdadeiros têm muito poder então porque Diabo (expressão dramática) é que o Diabo (o anti Deus) não é extinto?
As igrejas (instituições) enriqueceram a coberto de um Deus (verdadeiro) que condenava a avareza, a luxúria, o luxo e os bens materiais, os seus representantes (os senhores priores) envaideceram-se com vestes de fino tecido em nome de um Jesus que andou barbado, roto, sujo e descalço.
Os Papas, em nome da Cristandade, mandaram matar e esfolar outros povos para impor o Deus verdadeiro e expurgá-los da mania de adorarem aqueles que eram falsos. Fizeram-no ao abrigo do 5º mandamento da lei que defendiam, escrita por Moisés (que era gago, mas conseguiu enganar o Faraó Ramsés II) que teve de partir as tábuas (eram pedras de lousa) ao descer do Monte Sinai quando foi confrontado com um Boi de adoração que os hebreus tinham fundido com anéis e outras joias (e este, sendo Boi, era mesmo falso, seguramente).
O meu grande problema é que, muitos anos depois de ter ido tirar ninhos para fazer pecados e contar ao senhor prior, estou cada vez mais descrente na crença do Deus verdadeiro e cada vez mais crente na descrença dos falsos Deuses, ou seja: Se é para haver Deuses, então que se deem ao respeito e se façam respeitar, e não deixem que aqueles que em nome de Tais usam da palavra, se empanturrem de luzidia comida farta, de luxuriosas vestes e brilhantes joias e que nadem em piscinas de dinheiro como um qualquer pato Patinhas que tratava os sobrinhos abaixo de cão, Patocôncio incluído.
Deuses, afinal para que vos quero?

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Fernando Salgueiro Maia: Só a História Lhe Fará Justiça

Salgueiro_Maia.jpg

Muitas são as histórias que se podem contar acerca dos homens que em permanência vão influenciando a transformação do mundo.
Muitas são também as histórias que se podem contar acerca de mundos que foram transformados por homens que não se deixaram dominar; por homens insatisfeitos e inquietos que nunca se acomodaram ao estado inerte das coisas estagnadas. Alguns desses homens, pelos seus feitos, foram considerados heróis, mas outros há, que pela sua integridade de carácter e generosidade, se recusaram permanentemente a sê-lo. Estão neste caso, os anti-heróis, os revolucionários puros, “aqueles que por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando”, pensando sempre mais nos outros do que neles próprios.
Um desses Homens, pela sua Integridade de Carácter, Coragem, Honestidade, Brio e Frontalidade foi, sem dúvida alguma, Fernando Salgueiro Maia.
Salgueiro Maia foi um Homem que viveu e influenciou a história real dos homens reais, tendo sido “deportado” para uma das ilhas dos Açores pela sua ousadia em ter enfrentado na “Capital do Império”, a máquina de guerra que podia ter interrompido a marcha gloriosa do golpe de estado que viria a ser transformado em Revolução do povo.
Humilde, verdadeiro e sempre fiel quanto aos princípios que o levaram a revoltar-se na saudosa madrugada de abril, recusou-se a tirar partido do seu feito, deixando-nos um legado de coragem e de integridade, só próprias dos grandes homens, daqueles que – repito-o – não morrerão eternamente.
Hoje recorda-se o Homem que, prematuramente, foi vencido pela vida – pela morte – e não teve tempo de assistir ao reconhecimento dos seus feitos: aqueles que apenas a história julgará com justiça, no seu lento julgamento de sentença justa.
Imortalizado em estátua no “Centro do Mundo”, Salgueiro Maia pertencerá sempre ao grupo daqueles que, fazendo o que tinha de ser feito, se recusaram a ser heróis tirando partido da ousadia e da coragem.
Fazer justiça aos que, cumprindo a liberdade largamente a ultrapassaram, esforçando-se pela incansável e destemida dignificação do género humano, homem e indivíduo, Ser livre de pensar e de fazer, é uma tarefa só própria dos eleitos.
Não sou capaz - nem com palavras faladas nem em letras alinhadas - de prestar a merecida a homenagem ao mais puro dos Imortais da “Alvorada em Abril”.
Escrevo apenas como sei e mostro como sinto...
O resto... O resto é apenas constituído por recordações vadias e longínquas, penduradas em franjas frágeis de agulhas de pinheiros em pinheirais sombrios, que a memória do tempo sem alma se encarregará de apagar...

António J. branco, In, Crónicas do Meu País

Crimes de Lesa Pátria

MinhaPatriaLP.jpgO conceito de traição pode ser definido de diversas maneiras: rompimento de um acordo que beneficie uma terceira parte não envolvida directamente ou indirectamente, ruptura de uma decisão tomada de comum acordo, revelação de segredos entre pessoas ou entre organizações, por exemplo. Ou seja, a traição é simplesmente o acto de trair, de enganar deliberadamente, de estuprar ideias e/ou ideais, sem que seja necessária a definição do acto em termos científicos para que todos entendam o significado.

Já o conceito de Pátria parece-me de definição (e clareza) mais complexa. Sabemos o que é, mas é provável que nem todos o consigam definir em palavras de bom (e eficaz) entendimento. “Roubando” uma definição de um antigo professor, defino-a, simplesmente, como Terra de Antepassados. E estas duas palavras dizem tudo: a origem, a evolução, o comportamento, a história, a memória e a génese (ADN?) de um povo.

Mas, lembrando Camões – "Dizei-lhe que também dos Portugueses/Alguns traidores houve algumas vezes” – e embora o termo seja indelicado, rude, agreste, agressivo, violento e politicamente incorrecto, o conceito de traição pode e deve ser utilizado sempre que alguém, algum de nós, se sinta enganado por acordo estabelecido entre as partes, pela revelação de um segredo que “entregámos” por custódia ou, tão-só, porque no nosso íntimo fomos traídos. E este sentimento de desânimo e de desilusão não se explica, vive-se e sente-se, simplesmente.

Politicamente, a História (a nossa, que é a que mais nos interesse e diz respeito) está cheia (repleta mesmo) de traições: desde o assassinato de Viriato, até ao exemplo mais conhecido de Miguel de Vasconcelos (atirado pela janela na restauração da independência), passando pela traição colectiva de mandar um corpo de tropas (Corpo Expedicionário Português) para a Primeira Guerra Mundial, sem a devida preparação nem equipamento adequado.
Trai-se por acção e por omissão: por acção, fazendo; por omissão, deixando por fazer. Nenhuma das formas é mais ligeira ou mais desculpável do que a outra, sendo as duas condenáveis por igual.

D. Miguel traiu D. Pedro IV (acção), Dona Carlota Joaquina traiu Dom João VI (acção), O Cardeal Dom Henrique traiu Portugal ao não reconhecer o Prior do Crato como legítimo herdeiro da Coroa (omissão). El-Rei Dom Carlos foi assassinado à traição (acção). São quatro exemplos que dão razão a Camões: “Alguns traidores houve algumas vezes” sem que isso queira dizer que somos um povo de traidores (somos mais um povo de aduladores).

Diz-se, também (dizem os entendidos), que a Carta Constitucional legada por Dom Pedro IV, foi a melhor lei fundamental que Portugal já teve até hoje. Saudosismo, amor primeiro, ou reminiscências de um passado romântico que repousa há cerca de duzentos anos nos pergaminhos dos arquivos? E se Dom Pedro IV tivesse prometido uma constituição (ainda que na forma de carta) e não a tivesse outorgado? (traição por omissão). E se aqueles que juraram a Constituição da República não cumprirem o juramento? (traição por omissão). Para trair, portanto, não é preciso praticar o acto, basta nada fazer para que o acto seja praticado: o ladrão que fica à porta, é tão culpado como o que vai à horta!

Portugal tem pouco mais de cem anos de República e quase oitocentos anos de monarquia, mas não é uma questão de Monarquia ou de República, de esquerda ou de direita, do partido “A” ou do partido “B”, é uma questão de honra e de princípio, é uma questão de ética, de valores morais, de dignidade e de hombridade: a dignidade não se compra, um homem não se vende!

Falar em actuação pelo “superior interesse nacional”, praticando actos por omissão (como os que foram praticados), permitindo que a nossa “Magna Carta” (ou uma das suas sucessoras) não fosse mais do que um legado sem valor “de jure”, parece-me um acto de completa e vã gratuitidade: um acto que a só a inexistência da figura do Guardião pode tornar explicável.

O Guardião que não existiu nos últimos anos.

O Guardião que parece voltar a existir.

Um País sem Guardião é um castelo sem Castelão!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Esta Nau Catrineta

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Fundado por Dom Afonso Henriques em meados do século XII, Portugal é um dos poucos, pouquíssimos países (também Nação), com mais de duzentos e cinquenta anos de história. Filho “rebelde”, guerreiro, empreendedor, destemido, Dom Afonso Henriques, O Conquistador, mostrou desde o início uma estratégica eficaz com vista, não só ao alargamento do território, como também ao derrube de barreiras dogmáticas que limitavam (e limitaram) a sua acção enquanto rei, administrador e político. Uma das suas maiores guerras foi a resistência ao poder papal, que viria a ganhar (perdendo dinheiro) em Mil Cento e Setenta Nove, “comprando” a Bula Manifestis Probatum, ao Papa Alexandre III, que reconhecia Portugal como reino independente, mais de cinquenta anos depois de Dom Afonso ter dado os primeiros passos nesse sentido com a vitória na Batalha de São Mamede, em Mil Cento e Vinte e Oito.
Começámos bem, muito bem; com a Nau, esta Nau, a vencer milhas, desbravando territórios e chegando onde nunca antes alguém chegara.
Orgulhemo-nos, pois, da nossa história, mas guardemos também a sua memória na qual, para além de fracos reis, “Alguns traidores houve algumas vezes” (Camões).
Mais de oitocentos anos após o sonho do Rei Fundador, Portugal está de novo à procura da sua independência, lutando não só contra os “primos” da actualidade (os reis de Leão e Castela de então) como também contra o poder dogmático de um “papa” que se permite (sendo-lhe permitido) validar bulas probatuns de duvidosos manifestis.
Ah! Mas Portugal já passou por isto noutras eras – A Nau já foi saqueada em outras andanças. Pois já. E já enforcou “Távoras”, eliminou “Condes de Andeiros”, defenestrou “Vasconcelos” e “Migueís”, expulsou reis usurpadores e outros tais – “Que os muitos por ser poucos não temamos”.
A Nau, que até há bem pouco tempo navegava em mar alto e sem capitão de navio esteve (opinião pessoal minha), tal como a Catrineta, abandonada, à deriva e com a tripulação a morrer de fome, onde uma grande parte dos “marinheiros” sobreviveram alimentando-se uns dos outros: os que caíram no chão (inertes e impotentes) “comidos” pelos não mortos, mas também pouco vivos.
Premiaram-se os “Vasconcelos”, branquearam-se os “maus reis”, apagou-se a memória e tentou (tentaram alguns) reescrever-se a história, como se todos fossemos imbecis, desmemoriados, incapazes, imberbes e inúteis.
Sem Rei, nem “Roque”, nem Timoneiro (ainda que um dos “grandes”, em tempos como tal se tenha afirmado), os Putos (sem parecerem bandos de pardais), oriundos de “Jotas” e outras tais, brincaram ao ajoelha aqui e dobra ali, perante os papas de agora e as papisas de um presente que se julgava extinto em termos de brio, dignidade e hombridade.
Tendo o tempo rodado alguns graus na direção certa e no sentido conveniente, vêm de novo os putos traquinas, de calções pelos joelhos e agrafados em suspensórios à cintura, oriundos de malfeitorias nefastas, pregar sermões ao vento (que aos peixes não conseguem fazer-se ouvir), anunciando a boa nova de velha maneira de pensar, fazendo crer que o povo, mais do que asno e burro, é também jumento apardalado em dia de chuvisco intenso que ao fim de tanto chover acaba mesmo por molhar.
Chamem-me, pois, tudo o que quiserem (“Serei tudo o que disserem”): miserável, pobretanas, invejoso. Mas estúpido, burro, asno, imberbe e inútil (“Poeta castrado”), NÃO!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Os Pais da Democracia

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De entre as várias fontes disponíveis para ler e interpretar a história, há uma que é inquestionavelmente superior e vantajosa relativamente às restantes: trata-se da história de memória viva – aquela que é contada pelos que nela tomaram parte, quer do lado dos que fizeram acontecer, quer do lado dos que assistiram aos acontecimentos.
Das outras fontes – textos, achados arqueológicos, crónicas, relatos, monumentos, gravuras, pinturas, esculturas – sabemo-lo, cada historiador faz a sua leitura segundo aquilo que lhe parece ter sido, adaptado às suas convicções: ou porque os autores não foram suficientemente explícitos nas suas narrativas ou porque, tendo-o sido, há sempre alguém ou alguma coisa que o contraria de modo a podermos (o historiador poder) atribuir-lhe a nossa (do historiador) interpretação.
Quanto à história de memória viva, aquela que é contada e vivida por quem nela tomou parte, as leituras e interpretações só diferem se, em vez de história sem memória, se fizer uso da memória sem história. Simplificando (ou tentando simplificar), a história e a memória são indissociáveis (inseparáveis) e têm de coexistir em permanência: não podemos recordar-nos apenas do que nos convém nem esquecer o que nos desagrada.
Concretizando o escrito:
Há cerca de quarenta e três anos, deu-se um Golpe de Estado (forças do estado que se voltam contra ele) em Portugal, que o povo transformou em Revolução (adesão maciça da população, acompanhada de transformações profundas) no próprio dia dos acontecimentos. Conhecido oficialmente como Movimento das Forças Armadas (MFA), ficou para a História como a Revolução dos Cravos, mas percebemos perfeitamente uma ou outra designação. Este golpe de estado (ou Revolução), terminou (fez terminar) com quarenta e oito anos de vivência em regime ditatorial – o núcleo político manda, os outros obedecem e o povo não tem voz. Pacífico entender isto, julgo!
Quem fez o Golpe de Estado foram os militares (os detentores da força), não foram os políticos (refugiados ou não) nem os simpatizantes da democracia, nem os descontentes com a “Primavera Marcelista” (que nunca passou de Inverno disfarçado de Outono) nem as alas liberais da ANP (Ação Nacional Popular, “partido” único) e, muito menos, os “cronistas do reino”.
A luta dos políticos – Mário Soares, em concreto – foi importante? Foi, e muito! Mas, mesmo tendo em conta a justeza e reconhecimento desta luta: o que sofreram, as condenações a que foram sujeitos, a perseguição, a supressão da liberdade, o roubar da esperança, isso não chega (porque não é factual) para reconhecer a um ou outro o título de “Pai da Democracia”, como recentemente “ouvimos” chamar ao Dr. Mário Soares nos dias em que decorreu a sua homenagem (justa) e cerimónias fúnebres (merecidas).
Claro que, também não é de justiça (é, aliás, uma tremenda injustiça) o tipo de acusações levianas, absurdas e mentecaptas (a maior parte das vezes em modalidade de “copiar e colar”) que, principalmente nas redes sociais (o reino dos “heróis” escondidos) foram feitas ao Dr. Mário Soares. Mas, por este caminho nem me meto mais, tal a alarvidade das inverdades que, sem memória, se enterram em lodaçais sem História. Hoje, é tão fácil falar em liberdade…
O Dr. Mário Soares “marchou contra os canhões”? Sim! Mas quem os ergueu para devolver a esperança e liberdade de pensamento ao povo, entregando-lhe aquilo que é seu por direito intrínseco, foram os militares. E a partir de mil novecentos e oitenta e dois, muitos deles (quiçá a maioria) caiu no esquecimento enfrentando não a merecida glória pelos feitos que fizeram e pelo que arriscaram, mas a perseguição silenciosa da instituição militar que nunca lhes perdoou a ousadia de um dia terem ousado.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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