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O Meu País

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A Cor Negra do Verde

Pinhal.jpgEsmeralda acordou triste, não porque o novo dia em cada dia que nasce não fosse propício ao sorrir do sol de Outono numa carícia terna de afago leve e sentido dos nossos Heróis do Mar!

Não porque à sua volta o céu ainda azul, tingido em andorinhas de partida, não a deixasse contemplar naquela hora dourada, o esconder de um sol que (dizem) nasce para todos, todos os dias deste milenar Nobre Povo!
Acordou triste, com um sorriso amargo, com amargura na voz, porque tinha névoa no olhar, desalinho de cabelos, entrelaço de dedos, arrepio de pele e, pior, muito pior que tudo isso, com a alma fria, desalentada, desesperançada, desalinhada das coisas boas que a vida ainda tinha (diziam) para lhe dar naquela que fora em tempos a sua Nação Valente!
Confrontada com o baço olhar e sorriso sem néctar, sem timbre na voz, com medos esguios em pele de inverno de arrepio colorido de cinza negra E Imortal!
Esmeralda desenhou no espelho as únicas palavras que, naquele momento, conseguiu lembrar-se: “O Verde-Ousado” da alma que, “Ó povo castigado”, Levantai Hoje de Novo!
Em tempos este jardim plantado, coberto de céu azul e de areias de sol dourado, por água-mar de espuma branca e amêndoa doce salgada era agora a reminiscência d’O Esplendor de Portugal!
Em tempos, este campo de cravos vermelhos, cujas cores de esperançar eram capas de medo escuro, cobertas de silêncio entre as Brumas da Memória!
Em tempos, neste prado de esguios pinhais, os marinheiros de então eram agora madeireiros em ensaio de lenhadores de Ó Pátria Sente-se a Voz!
Em tempos, fora partida de navios destemidos e de naus aventureiras e de caravelas bolinadas, cujas velas arreadas são agora o desnorte de um sul estridente, sem qualquer Ursa Maior nem sequer Estrela Polar Dos Teus Egrégios Avós!
Era apenas a saudade daquele “Verde-Ousado” onde os vadios da desesperança e os parasitas dos sentimentos e os profetas do restelo eram velhos desdentados em sorrisos embruxados de maldições disfarçadas por rigores suspeitados em tridentes luciféricos Que Hão-de Guiar-te à Vitória?
Era tão-só a lembrança do “Verde-Ousado”, onde as Primaveras de Marcela se esfumavam em sorrisos de beijos engalanados e abraços de entreter em gritos de choro Às Armas!
Uma planície de cores mortas em vozes de embrutecer nas lágrimas da desesperança da tragédia experimentada na desalma do poder Pela Terra e Pelo Mar!
Esmeralda suspirou pela impotência que sentiu no reflexo de sonhar Às Armas!
Esse suspiro de ansiedade num lamento de socorro, foi então um grito incómodo, um renascer desaparecido, um sentimento de frustração e um murro dado no vento da desventurada anunciação de Pela Pátria Lutar!
Esmeralda enfrentou o espelho e viu…
Viu apenas a cor brilhante naquele negro sem vida.
Queria ter visto o verde-alga, o verde-pinho, o verde-erva, o verde-verde, o verde-esperança e talvez o Verde-Esmeralda que a fizessem em correria, Contra os Canhões Marchar, Marchar!…
Mas só viu o “Verde-Ousado” de um tempo desesperançado em madrugada desmanhecida!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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