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O Meu País

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O Último Jantar

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Há cerca de dois mil anos, dizem-nos os escritos (que alguém escreveu), Jesus (que na altura ainda não era Cristo) promoveu uma reunião com os seus mais diretos seguidores (os Apóstolos) a que chamou a Última Ceia. Este encontro, para além de ter servido a sua função primeira (saciar a fome) parece ter servido também como forma de despedida física deste mundo uma vez que O Mestre (Jesus) iria ser entregue aos Romanos a troco de um pagamento de trinta dinheiros pela denúncia – Não consigo, por desconhecimento do câmbio de então, calcular a importância em termos de moeda actual, mas acredito que não deve ter sido uma importância muito significativa porque sendo Jesus, à época, uma figura pública, a dificuldade de identificação pelos seus inimigos não seria assim tão grande para que fosse prometida (e paga) uma quantia por aí além…

A Última Ceia foi, portanto, um momento muito importante (sagrado?) e significativo na despedida do Mestre na qual, para além de ter havido reunião, houve também alimentação e anúncio de traição.


Mais recentemente – na verdade apenas há alguns dias – um grupo de Websummits (etnia de nível económico superior) promoveu uma reunião ajantarada (a que chamaram mesmo jantar) para confraternização e troca de ideias luminosas entre todos os iluminados. A reunião (sentido formal) ou jantar (sentido informal) decorreu na Igreja de Santa Engrácia, também conhecida por Panteão Nacional – espaço museológico onde um País sepulta os seus heróis (pessoas que se distinguiram na defesa e divulgação dos bens pátrios).


O culto dos (e o respeito pelos) mortos é uma tradição desde que o homem é homem, mesmo quando ainda era macaco (ou pelo menos metade macaco). Na verdade, os lugares de sepultamento são vestígios arqueológicos (ruínas) disseminados por todo o país, provando que, quem por cá andou noutros tempos, independentemente da era, já respeitava quem morria, atribuindo ao acto (inumação ou sepultamento) um alto teor de dignidade. E isto não tem nada a ver com religião, crenças e afins, apenas dignidade e respeito por quem já não sendo vivo, pode continuar presente na memória dos que (ainda) o são – Aqueles que partiram não são apenas os que não ficaram!


É verdade que no Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia (um dos três que temos em Portugal) não é unânime que estejam apenas sepultados heróis ou portugueses que se distinguiram pela divulgação e engrandecimento do país – se um futebolista e uma fadista são de concordância duvidosa um Sidónio Pais é, com certeza, ainda mais! A questão é, portanto, de respeito e dignidade por aqueles que não tendo pedido para ali repousarem, ali repousam por vontade dos que eram (ou são) vivos à data da sua morte – e isto também não tem nada a ver com religião, inferno, céu ou purgatório, só e tão-só, dignidade.


Jantar num Cemitério, num Jazigo, numa Anta, num Dólmen ou num Panteão, aparte a sua envolvência física, arquitectónica ou fundação, não é apenas de mau gosto, macabro ou mórbido, é desrespeitador da dignidade daqueles que já não podem queixar-se – a Dignidade é praticada pelos vivos!


Culpar os Websummits, o legislador, o ministro, o secretário de estado, o director-geral (tanto os que são como os que já foram) é o que de mais fácil podemos fazer para tranquilizar a consciência colectiva mas, aquilo que verdadeiramente interessa e importa levar à prática é que à semelhança da Última Ceia declarada por Jesus, prestes a ser vendido por trinta dinheiros, este tenha sido o Último Jantar, ainda que vendido por cem vezes mais!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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