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O Meu País

O Meu País

O Prior do Rato

Em Vinte e Cinco de Agosto de Mil Quinhentos e Oitenta, Dom António Prior do Crato (cognome pelo qual viria a ser conhecido), após a derrota na batalha de Alcântara contra as forças do Duque de Alba (ao serviço de Filipe II de Espanha, pretendente ao trono português) foi obrigado a fazer meia volta e a marchar em frente (há quem lhe chame retirar e outros fugir). Depois de tal feito, o candidato ao trono estaria longe de imaginar que, na mesma Lisboa mas um bocadinho mais ao lado, quatrocentos e trinta e cinco anos depois, um outro António, oriundo das grandezas do império em tempos de valentia, iria enfrentar um desafio batalhado tão difícil e quiçá ingrato como aquele que o bastardo do Infante Dom Luís, rasgadas as vestes do priorado, ousara aceitar em defesa do trono reclamado.

Portugal já não é um reino mas governa-se como tal (sem rei nem roque).

Naqueles dias (carta de São Belento aos Cretínios), após a morte do Cardeal Dom Henrique e tiradas as sortes para escolher quem de direito à reinação, a Portugal, alugadas as influências por Filipe II aos grandes que podiam (alguns chamam-lhe subornos), com ouro vindo das américas (diz-se), pouco restava como hipótese vitoriosa de um bastardo colocar a coroa no seu (no do Crato, não do leitor) crânio – embora tivesse sido aclamado rei em Santarém.

Fugiu porque um estrangeiro – o mais afastado da linha sucessória – conseguiu, por moedas e por espadas, aquilo que Dom António não conseguiu por honra e por bravura – O Meu País sofre de tais maleitas desde que o mundo é mundo: Aos grandes tudo se pode, aos pequenos tudo se coiso (com um efe).

E actualmente agora, no Rato, em Lisboa, no ano da graça do senhor de Dois Mil e Quinze, outro Dom António, não tão bravamente como o Prior nem tão beligerante como tal, reclama também o trono, ou pelo menos o comandamento das tropas: não o do rei que em Belém não reina mas o da reinação que em São Bento faz reinar.

Sem ouro das américas, mas de riquezas acofradas na plenitude imaginativa de Dona Luísa de Albuquerque, o reino que já não é mas que se comporta como tal, comprado pelos tesouros de quem tem, assiste de novo à luta de interesses pela tutela do rectângulo, qual disputa senatorial de impolutos e doutos sabedores de decisões sábias e tamanhas.

De um lado, Pedro VI, O Esquecido (ou, O de Má Memória) apadrinhado pelo rei Fictício; do outro lado, O Prior do Rato, apadrinhado por Dom César I, O Ílhavo, originário de uma das nove ilhas do arquipélago para onde fugiu O do Crato depois da derrota de Alcântara, tentando a partir daí nova ofensiva tal como Dom Pedro IV, O Rei Soldado, e o seu lugar-tenente, o Duque da Ilha com mesmo nome para ferirem batalha vencedora contra Miguel Usurpador, o primeiro dos Vasconcelos (Miguéis) antecipados por Camões num dos seus cânticos, “Dizei-lhe também que dos Portugueses, Alguns Traidores houve algumas vezes”.

Conseguirá Dom António das Índias, O Goês, oitavo Prior do Rato, vencer as tropas de el-rei Fictício, comandadas por um duque de má memória, sem ter de fugir para a Ilha Terceira (que é a segunda em tamanho logo depois da primeira) para tentar depois a reconquista?

 

 

O Magnetismo dos Culpados

Acerca do que li sobre Bases de Dados (às vezes leio coisas), lembro-me de três das suas principais características: Confidencialidade, integridade e disponibilidade. Isto é, trocando por miúdos (sem serem criancinhas):

  • Os dados devem ser confidenciais só sendo acedidos por quem está autorizado e tem necessidade de os consultar;
  • Os dados devem manter a sua integridade, não sendo corrompidos ou deteriorados;
  • Os dados devem estar permanentemente disponíveis para consulta e edição.

Por muito que me esforce não consigo encontrar nenhuma característica que atribua aos dados propriedades magnéticas como o tal sinal que, supostamente, seria emitido quando um abelhudo qualquer acedesse à Base de Dados dos contribuintes considerados Pessoa Muito Importante (os ingleses, ao que parece, dizem “Véri Impórtant Parsan”), da tal lista que não existia nem existe mas foi testada (é talvez uma questão de espiritualidade ou de culto, a gente não viu o deus nosso senhor mas de vez em quando, em momentos de à rasca, pedimos-lhe ajuda)

Ou seja, a Base de Dados deve ser confidencial, íntegra e disponível para todos os utilizadores independentemente de deverem pouco às Finanças (como eu), de deverem muito (como alguns) ou de não deverem nada como Dom Pedro VI, O Esquecido (também conhecido como O de Má Memória).

A não ser que os dados sendo guardados em discos magnéticos – não sei qual o suporte utilizado pelos servidores da DGCI – estes fiquem de tal modo influenciados pelos campos de forças que, atraindo e afastando bits de um lado para o outro, choquem entre si e… (confusão do narrador), voltemos à ideia principal.

Vejamos então se percebi: A tal lista (pacote, conjunto, universo) que não existia nem nunca seria mandada existir pelo Núncio Apostólico (não é esse Núncio, é outro? Mas são ambos os dois castos e inocentes, ou não?) da Base de Dados da DGCI, quando consultada por uma pessoa que nem estava autorizada para tal nem tinha necessidade de saber (o tal abelhudo), emitia um sinal magnético como alerta “em contra” o atrevido. Portanto, amarrava o animal ali ao teclado até vir o técnico de informática (o verdadeiro culpado de tamanha maldade) desmagnetizá-lo das teclas e dar-lhe um ralhete à moda antiga por andar a bisbilhotar os pecados dos impolutos que nunca foram tentados por Evas de Adão nem trincaram Maçãs no Paraíso (ou será ao contrário?)

Nada de sinais acústicos (bip, bip) nem visuais (pisca-pisca) e muito menos mensagens de alerta (SMS ou correio eletrónico), naquela lista que nunca foi da Base de Dados que é.

Ali, quando alguém tenta meter o bedelho onde não é chamado, a BD, pimba, agrafa-o magneticamente.

Tecnologias modernas…

 

 

 

 

O Boi Falante

Durante os anos lectivos de 1970 a 1974 (sim, sou do século XX), estudei num colégio interno pertencente à irmandade de São João Baptista (na altura ainda era mesmo Bapetista) de La Salle, também conhecido como Salesianos.

Ao contrário da maioria dos frades irmãos (eram frades que vestiam batina preta com colarinho branco rachado ao meio mas chamavam-se irmãos) que eram também professores, o irmão (deles e de nós, os alunos) director não dava aulas. Ou se dava, não me lembro, e faça de conta que não dava mesmo.

Mas falava…

…Falava que se fartava!

E quanto mais falava mais nós (e alguns irmãos, dele e nossos) bocejávamos e rezávamos (pois é, naqueles dias éramos obrigados a rezar) para que a conversa (uma quase homilia em jeito de sermão de Santo António aos peixes) terminasse de uma vez opor todas porque, invariavelmente quase sempre, o irmão director decidia falar ou antes do almoço ou um bocadinho antes do fim das aulas: escolhia uma sala e pronto, lá entrava sorrateiro, curvado para frente em estilo de pregador andante e o irmão que estava a dar aulas calava-se, cedia-lhe a secretária e a cadeira (os irmãos naqueles dias eram muito fraternos) e lá vinha discurso sobre a arte de bem estudar e aprender em qualquer livro.

Falava um misto de castelhano com português mas nunca perguntava se a gente percebia tudo o que ele dizia, até porque se perguntasse, nós, para além das rezas, tínhamos de ir de seguida à confissão. Se não percebíamos o que irmão dizia, não era porque ele falasse mal e despercebidamente mas simplesmente porque a conversa não interessava: O irmão director só era amigo quando passava no corredor e dizia “Bom-dia”, se dissesse mais qualquer coisa estava tudo estragado e, ou havia correctivo posterior do tribunal constitucional da comunidade – o irmão director de turma – ou chegávamos atrasados às aulas e lá vinha cruz a vermelho no livro do professor que também era irmão mas não perdoava faltas – naqueles dias marcavam-se faltas aos alunos que faltavam; coisa esquisita, não é?

Nunca percebi para que é que servia um irmão director que só falava quando devia estar calado, pelo menos aquele (depois vieram outros que sabiam falar às multidões) que, não dando aulas (combinámos que não dava mesmo, certo?) cada vez que falava, enterrava-se no pântano afundando-se nas areias movediças da apreciação moral dos confrades (os confrades eram os alunos).

Já naqueles dias, os confrades esperavam do director palavras sábias sem serem desensaibidas, fosse lá em que língua fosse. A um director (ou chefe, ou presidente) exige-se-lhe, não que saiba falar muitas línguas, mas que conheça a língua que nós falamos.

Aquele não conhecia!

Chamávamos-lhe o Boi Falante…não sei se ele sabia!

Um Aluno Vencedor

Um dos meus ex-alunos ganhou um prémio de desempenho.

Entrou porta adentro da sala de aula no ano lectivo de 2010/2011, para frequentar o curso de Instalador e Reparador de Computadores, cujo aproveitamento final lhe daria acesso à equivalência escolar do 9º ano e certificação profissional de nível dois, reconhecida na União Europeia. Tinha, na altura, dezoito anos mas, por razões mais do que diversificadas, ainda nem sequer completara o ensino básico.

Porquê, senhor Gonçalo?

Muitas razões “stôr”, muitos problemas familiares e também alguns de saúde. Se não foi esta a resposta à minha pergunta nos seus termos aqui transcritos, foi muito parecida e o resultado, como a propriedade comutativa, não se altera.

Tinha – provavelmente ainda terá – uma personalidade forte, por vezes quase dominadora na sua ânsia de mostrar conhecimento, de não passar por ignorante, de saber sempre mais e de estar actualizado em permanência. Muitas vezes negociámos opinião sem que nenhum de nós ficasse a perder nos seus fundamentos.

Pouco dado a relações cordiais e espontâneas, enclausurou-se num reduzido grupo de colegas, no qual, com alguma frequência, fazia finca-pé de atitudes numa perspectiva de menino mimado que afinal não era. Tinha apenas carência afectiva e necessidade de ser o centro das atenções.

Ao mesmo tempo que fazia questão em ser dos melhores, cometia o “pecado” da assiduidade e pontualidade, escudando-se em maleitas de constante surgimento, num mundo de turbulência vivido entre a guerrilha de progenitores desavindos e a necessidade de apoiar o núcleo familiar que não o abandonara.

Já em estágio – última componente do curso – pedi-lhe que viesse participar no dia da escola, em tempo extra, numa apresentação no âmbito do curso. Não sem alguma vaidade associada actuou como um profissional e falou de segurança informática, com o à vontade que o conhecimento do seu nível lhe conferiu. Convenceu a audiência, não só pelo entusiasmo colocado na exposição como também pela segurança de quem, em menos de dois anos, adquirira a confiança que ao início lhe parecia faltar.

Pela interacção que ainda mantemos parece-me, hoje, um homem feito. Certamente ferido pelas reminiscências físicas do passado mas confiante e pronto para enfrentar as feras do futuro.

Quanto ao prémio que agora ganhou, vale o que vale e nada mais do que isso, a verdadeira recompensa, o verdadeiro prémio que conquistou, está na postura de homem e no sucesso de quem, chegado com atraso à sala de aula, soube olhar em frente, caminhando em sentido oposto ao passado.

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