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O Meu País

O Meu País

O Major Murmansk

Um outro professor carismático que completava o Corpo Docente do Instituto, era o inconfundível Major Pereira, que também não escapou à sanha cruel das alcunhas a rigor, atribuídas pelos seus dedicados e afectivos alunos. Leccionava a cadeira de História e Geografia Militar e o seu método de ensino era bastante peculiar mas sentia-se que tinha conhecimento, que é como quem diz, sabia o que dizia e o que ensinava. Atribuíram-lhe a alcunha de Murmansk.

Contava-se, entre conversas de bar e de corredor, que tal “albarda” foi mandada publicar porque um dia, numa qualquer aula, se lembrou o Major Pereira de pendurar um mapa na parede e ter falado sobre Murmansk, que é como toda a gente sabe e se não sabe fica agora a saber o que o narrador transcreve de seguida:

- Major Pereira: Um Porto de mar no noroeste da Rússia, no mar de Barents, com uma população de cerca de quinhentos mil indivíduos. É a maior cidade no Árctico, o porto de pesca mais importante da Rússia e a base das unidades navais e dos quebra-gelos que mantêm a passagem do Noroeste aberta.

Foi mais ou menos isto que deve ter dito na altura, já que não há gravações da aula e esta informação, embora sendo de rigor, foi copiada na altura destes escritos de uma enciclopédia universal, que afinal é para isso mesmo que tais existem, e assim se fica a saber sem que dúvidas haja, o que é que tal Murmansk era.

Mas porque os alunos da altura nunca tinham ouvido falar de tal ou se tinham simularam ignorância, estranharam de tal maneira aquele porto de mar, aquele Murmansk, que logo decidiram atribuir o seu nome como alcunha do Major, em sua honra e assim lhe prestando homenagem.

E foi tão bem aplicado, “Em verdade vos digo”, porque ainda hoje o conserva.

A Cadeira de História e Geografia Militar não tinha livro, nem aconselhado nem determinado. Baseava-se apenas em apontamentos fornecidos pelo professor, que se resumiam a fotocópias dos seus meios auxiliares de instrução como se diz na tropa: simples  transparentes (acetatos) escritas à mão em linhas a tinta preta, grossas, enviesadas, tortas e sobrepostas. Mas era o que havia e tinha de ser aproveitado.

Ao fim das duas primeiras semanas, invariavelmente de Curso para Curso, fazia-se o primeiro teste de avaliação de conhecimentos. Nesta Cadeira, ao contrário das demais, não havia propriamente testes intercalares - as habituais frequências - e o exame final, em Julho, mas sim, mini testes de dez minutos no fim de cada aula, e sempre em resposta a uma questão sobre os ensinamentos que tinham sido debitados nessa aula. Mantinha-se, é bom de entender, a figura do exame final em Julho. A maior dificuldade em responder aos mini testes, nem sequer era à pergunta em si, mas sim, adivinhar para que lado é que o professor estava virado na altura da correcção, sendo frequente um aluno ter tido uma boa nota na pergunta da aula anterior e depois noutra do mesmo estilo, ter precisamente o contrário. Nada era linear, muito menos favas contadas ou notas garantidas. Mas todos os processos têm as suas falhas e mais tarde ou mais cedo, um aluno atento e de mediana perspicácia, aperceber-se-ia do truque necessário para fazer funcionar mais eficientemente a avaliação. Um dos processos mais eficazes consistia em transcrever uma ou outra frase dita pelo professor durante a aula e juntar-lhe em jeito de tempero, uma citação de pessoa importante ou gente famosa. Camões funcionava sempre e Salazar era por si só garantia de sucesso. Deste, para quem conhecesse e se lembrasse da frase, “Sei muito bem o que quero e para onde vou”, e a soubesse enquadrar no texto, tinha não só garantida uma boa nota como também o respeito do Major professor. Respondida a pergunta numa aula, esperava-se pela correcção na aula seguinte e, quando ainda inexperientes na matéria, era com ansiedade que se aguardavam os resultados para constatar se a mensagem tinha ou não sido entendida.

Quando na aula seguinte, as folhas da pergunta da primeira aula começaram a ser distribuídas, logo os primeiros sinais de desânimo se fizeram notar. Cinco e dez eram as notas mais populares, e se é sabido que a nota dez já chega, cinco é bem pouco. Mas recordemos um dos casos, aquele que melhor divulgação mereceu.

O Carlos H. e o Manuel F. Estavam na mesma fila de secretárias, um a seguir ao outro. Na altura da entrega das folhas do primeiro mini teste, riam-se como os outros, da desgraça alheia, quando os camaradas diziam cinco ou dez, conforme a nota de cada um. Ora, quando o Carlos H. Recebeu a folha da sua pergunta, vendo a nota inscrita e comparando-a com os valores que já tinha ouvido relativamente a outros, ficou eufórico, pleno de satisfação, e vendo tal alegria não contida, de imediato lhe perguntou o outro.

- Manuel F: Pá, quanto é que tiveste?

- Carlos H: Quinze, e tu?

- Manuel F: Trinta.

- Carlos H: TRINTA?! Porra, isso é impossível!

- Manuel F: É pá, é o que está aqui!

E dali para a frente foi todo um universo de notas estranhas, porque havia desde zero até sessenta, e o mistério só se desvendou no fim da aula quando o Major Murmansk disse:

- Major Pereira: Isso são notas em percentagem, meus senhores!

Os papéis que o Major Pereira entregava como apontamentos, disponibilizados em acetatos para os alunos fotocopiarem a cinco escudos cada um, tiveram essencialmente três fins bem diferentes, qual telenovela brasileira, campeã de audiências e olhos de água. Assim, depois do exame e no final do ano lectivo, cada aluno fazia a limpeza dos aposentos à sua maneira: ou vendia as fotocópias em bloco já organizado e encadernado aos alunos do novo primeiro ano, o que resolvia logo ali um problema importante de quem comprava porque ia precisar, e um problema importante de quem vendia porque se livrava da papelada - opção mais utilizada -; ou os despejava no lixo – opção menos comum. Insólito foi o caso de um aluno que, pacientemente, carregou o pacote de fotocópias até à Estação de Comboios de Santa Apolónia, em Lisboa, e o ofereceu de prenda ao homem das castanhas.

Em plena época de “Quentes e boas, sempre a assar”, a dois passos do Arquivo Histórico Militar, compravam-se castanhas à dúzia, embrulhadas em papel Murmansk, com brinde de história militar.

Consta-se, no entanto, que as vendia ao mesmo preço de outras embrulhadas em simples papel de jornal.

 

António J. Branco, In, Figuras de Cera

A Sala de Operações

A localização típica do gabinete do Comandante é, por excelência, ao centro de um longo corredor, onde se anda para lá e para cá e de cá para lá, a queimar tempo que às vezes faz falta para outras coisas, e à espera que aqueles que chegaram primeiro, despachem as “toneladas” de papéis que levaram lá para isso mesmo, para que o Comandante visse, lê-se, e rubricasse o despacho da sua sapiência.

À entrada do gabinete fica o Ordenança, “modernamente agora” chamado secretária, pessoa, bem entendido, mas na altura dos factos era ainda à moda antiga, de botas pretas de meio cano com atacadores cruzados, calças verdes e camisa verde de manga comprida, com gravata, também verde. Contrariamente aos actuais modernismos, em que um qualquer aparelho telefónico da era digital sinaliza tudo e mais alguma coisa, quem telefona, de que rede vem, o número e hora da chamada, naqueles tempos, tinha o Soldado Ordenança de perguntar, “Quem fala”, ir em passo de corrida ver se o Comandante estava ou não, e depois voltar para transmitir a informação à pessoa que estava do outro lado do fio.

No que diz respeito á organização interna de qualuer unidade militar, à semelhança do corredor de comando, também não variava muito: uma Secção de Pessoal, uma Secção de Operações, uma Secção de Justiça, um Gabinete de Estudos, enfim, uma estrutura perfeitamente hermética e consistente, que justificava a designação interdisciplinar que era atribuída à Instituição.

Mas naquele dia o Comandante não estava e por mais que o Ordenança tentasse ser credível, quem estava do outro lado fazia que não acreditava e ia massacrando os tímpanos do soldado que já não sabia o que mais havia de dizer para ser deixado em paz e sossego. Mas tem a certeza que o senhor Comandante não está, Tenho sim senhor, É melhor verificar, porque o assunto é muito importante. Humilde, este ia cheio de boa vontade verificar de novo, ainda assim o Comandante não se tivesse escondido debaixo da secretária, dentro do armário, ou saltado pela janela, Não senhor, não está mesmo, repetia a medo, Então faça-me um favor, passe esta chamada para a Secção de Pessoal, Pois, mas aí também já não está ninguém, é que já são quase seis horas e as secções fecham às cinco e meia, Ouça lá, eu tenho de falar com alguém, isto é um assunto importantíssimo, passe para a secretaria. E o Ordenança, utilizou todo o seu saber para, sem perder a chamada do exterior, ligar para a secretaria-geral à procura de alguém à altura de atender quem telefonava, Na secretaria só está o Soldado da Ordem de Serviço, quer falar com ele, Quero é falar com o chefe da secretaria, tem de ser Oficial, ou pelo menos um Sargento, Mas não senhor, não está mais ninguém.

- Ó Homem - gritava já em desespero -, procure-me alguém do Gabinete de Estudos.

- O senhor desculpe, mas aqui neste quartel não há Gabinete de Estudos.

- É pá, alguém que mande, passe-me à Sala de Operações.

- Olhe que isso deve ser é engano, o senhor se calhar enganou-se na chamada.

- Não me enganei nada, não fala do Forte de São Gabriel?

- É sim senhor!

- Pois então é aí mesmo, vá, procure-me lá alguém da Sala de Operações.

- É que deve ser mesmo engano, nós aqui no Forte de São Gabriel não temos sala de operações, só temos um posto de socorros!

E o Soldado Ordenança ouviu um telefone a ser desligado com violência, ainda hoje sem saber porquê, ele que tão prestável tinha sido.

 

António J. Branco, In, Figuras de Cera

Eu (Não Religioso) Me Confesso

Sou nascido, criado (ainda não abatido), crescido e amadurecido em território continental português, onde “é de lei” domingar com roupa lavada e ir à missa antes ou depois de almoço.


Sou filho de pais casados pela igreja (não vi mas acredito), baptizado em pia baptismal (sim, guardaram-me aquela coisa branca com que me vestiram) e já fui muitas vezes à missa.


Durante a instrução primária, tinha de inventar pecados para contar ao padre Abreu naqueles dias em que ele se deslocava à escola para confessar as criancinhas (as criancinhas não têm pecados, mas nós tínhamos).


Participei, em anos que já lá vão (alguém algum dia teve apenas dezoito anos?), em muitos encontros e iniciativas paroquianas, sobretudo porque o padre da paróquia (João Avelino) sabia “dar a volta” à juventude da aldeia (naqueles dias eu era jovem e vivia numa aldeia, juro!).


Fui a Fátima (mais que muitas vezes), não propriamente rezar mas acompanhar familiares que rezavam. Dessas muitas vezes, duas foram a pé e fiquei com dores nas pernas e nos pés e nos braços, mas a alma tranquilizou-se na paz do dever cumprido.


Estudei num colégio interno, numa comunidade da ordem de São João Baptista de La Salle onde era obrigatório ir à missa ao domingo de manhã (pois, ficava lá ao fim de semana a expiar as culpas do corpo) e engolir sem mastigar a hóstia sagrada que sobrava da caixa, que o grupo de assalto não conseguia comer durante a visita clandestina à sacristia (a rapaziada dizia que sabia bem mas nunca provei. Provei o vinho e era bom, os padres são bons enófilos - não tem nada a ver com os padres "dófilos").


Casei pela igreja (padre João Avelino, tinha de ser) e os meus filhos foram pabtizados também em pia baptismal (para me vingar, guardei-lhes também aquela coisa branca com que foram vestidos).


Continuei a ir à missa mas num processo de "alzheimerização" acelerado que me foi fazendo esquecer que algum dia me havia lembrado do que significava aquele acto (até que deixei de ir, pronto).


Gosto de entrar em igrejas, basílicas, catedrais e afins, sobretudo para apreciar a arte, o estilo, a frescura e o silêncio (quando está pouca gente, claro) que se respira entre aquelas paredes.

Fui e sou amigo de alguns padres (muito poucos, mas sou), pela sua parte humana, completamente dissociada da componente religiosa.

Não matei ninguém (não matarás), nem roubei (só outros ladrões), nem menti (aquelas mentiras pequeninas e piedosas não contam) nem isto nem aquilo excepto comer muito quando gosto e tenho fome (Gula). Quanto aos outros pecados mortais, faço-me esquecido da lista (a tal conveniente "alzheimerização" em estado galopante).


Julgo, portanto, reunir todas as condições para ser um bom cristão católico, apostólico e romano.


Mas não sou. Se calhar nunca fui. Talvez nunca tivesse querido ser.


Já não vou à missa (já tinha dito isto?), já não consigo ouvir a lenga-lenga dos padres (excepto aqueles dois de quem sou amigo e que são generosos a pagar uns copos), nem ver as reportagens do centro comercial de Fátima (agora nem de avião lá me apanham), nem a conversa da treta do cardeal patriarca nem os fingidores da generosidade nem os vendedores de milagres a dez por cento dos rendimentos, nem os fundamentalistas do islão nem os “arábicos”, os hindús, os jihadistas, os istos e os aquilos que tenham a ver com religião. (Ponto).


Gosto do Papa Francisco (ou pelo menos daquilo que ele representa relativamente à igreja católica tradicional).


A religião tem sido, desde que o homem e a mulher começaram a reproduzir-se, a maior fonte de discórdia e de conflitos, de guerras, de mortes, de perseguições, de condenações e de martírios.


Talvez acredite em Deus (num Deus).


Mas não acredito na religião (em nenhuma delas).


Não sei como seria (ou teria sido) se não houvesse religião. Há quem diga que, não temendo o poder divino, o homem (e a mulher, claro) teria ainda um comportamento mais agressivo e destruidor. Não conseguimos fazer esta comparação porque sempre vivemos debaixo deste temor e medo do poder divino e do seu consequente castigo (ou prémio).


Mas é tempo de tentar.

António J. Branco

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