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O Meu País

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Pronto, meu Alferes

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 O 1º Esquadrão de Instrução era composto por quatro pelotões de soldados instruendos do Curso de Sargentos Milicianos. A comandar cada um dos pelotões, um alferes recém-saído da Academia Militar. A comandar os pelotões, um capitão, de ar sério, pouco sorridente e de poucas palavras, pelo menos “naqueles dias” em que soldado instruendo ainda não era considerado um igual tão igual como os iguais na família da Cavalaria. A comandar o capitão que comandava o Esquadrão, outro capitão, este de ar ainda mais sério, menos sorridente e também menos falador. Comandava o Grupo de Instrução (dois esquadrões).
A preocupação maior do comandante de pelotão era que este formasse rapidamente, a horas, sem faltas, com aprumo, brio e decoro (militar, claro). A preocupação maior do capitão que comandava o Esquadrão, era que os pelotões formassem rapidamente, a horas, sem faltas, com aprumo, brio e decoro (militar, claro). A preocupação maior do capitão que comandava o Grupo de Instrução, era que todos formassem rapidamente, a horas… (enfim, o leitor, adivinha o resto).
O comandante de pelotão fazia a chamada pelo número de ordem de cada soldado instruendo. Cada soldado instruendo tinha de responder “pronto”, em sentido, com a arma alinhada do lado direito do corpo, como mandam as regras da ordem unida. No que respeita ao 2º pelotão – comandado pelo Alferes C.A. aqui identificado apenas pelas iniciais porque sim e porque convém que assim seja – o alferes continuava a chamada:
- 255 – Prosseguia o alferes.
- Pronto meu alferes – Respondeu um soldado instruendo.
- 255 – Repetiu o alferes, elevando a voz.
- Pronto, meu alferes, repetiu o mesmo soldado instruendo, elevando também a voz.
O alferes irritou-se, a perder por 2-0, começou a ser observado pelo capitão que mandava menos que o outro que mandava mais e que ainda não tinha chegado à parada – só tomava o lugar na formatura quando todos os pelotões dos dois Esquadrões estivessem formados para apresentação.
- 255, está a dormir ou quê? – Gritou o alferes (elevando muito mais a voz).
- Pronto meu alferes, disse pela terceira vez o soldado instruendo depois de ter levado uma cotovelada do camarada do lado, a chamá-lo à atenção para responder em sentido e não na posição de descansar, tal como estava.
- Ah! Agora ouvi – disse o alferes, voltando-se ligeiramente de esguelha para ver se o capitão que mandava menos que o outro que mandava mais tinha topado alguma coisa. Quando olhou de esguelha, o capitão olhava para ele, e não era de esguelha!
O alferes ficou vermelho, o capitão não disse nada…
…Pelo menos naquele momento!

António J. Branco, In, Figuras de Cera

Sampaio da Nóvoa: Um Físico das Palavras

Richard e Nóvoa.jpg

 Terminei a leitura do livro de memórias – Está a Brincar Senhor Feynmam? – de Richard Feynman, físico norte-americano vencedor de um prémio Nobel (da física, obviamente). Ao contrário de muitos livros de memórias em que a leitura se torna aborrecida (chata), insípida e egocentrista, a leitura deste livro permitiu-me conhecer uma pessoa brilhante, extremamente inteligente, quebrador de regras instituídas, que não se envaideceu com a fama nem com todos os sucessos alcançados: uma pessoa que apenas viveu do seu acumular de conhecimento, da sua simplicidade, da sua clareza de raciocínio e da sua luta na vontade férrea de vencer e chegar sempre mais longe e mais além.
Rechard Feynman, numa visita de trabalho ao Japão, perguntou a um colega (físico japonês), como é que o Japão, destroçado pela guerra (Richard Feynman fez parte da equipa que desenvolveu a Bomba Atómica), conseguiu sobreviver e reerguer-se em tão pouco tempo. A resposta do seu colega japonês foi muito simples: “Investimos no conhecimento e na educação e acreditamos que um povo só pode sobreviver e progredir, se for cada vez mais culto, se investir no seu enriquecimento cultural”. Assim, nesta simplicidade, sem vaidades nem fórmulas científicas complexamente trabalhadas: um povo vai mais além, se tiver conhecimento e cultura.
Não li, ainda (julgo que nem sequer foram escritos), os livros de memórias de Marcelo de Sousa nem de Sampaio da Nóvoa – ambos merecedores, certamente, dessa narrativa – mas, se um dia tais obras chegarem ao público leitor, confrontar-nos-emos com discursos bem distintos: de um lado (Marcelo de Sousa), a vaidade e o discurso engalanado, do outro (Sampaio da Nóvoa), a simplicidade e a clareza de raciocínio sem chavões meteóricos de conveniência. Ambos têm em comum o facto de serem professores e terem trabalhado na mesma instituição. Mas fizeram-no em percursos diferentes: Um (Marcelo de Sousa), vindo da “elite” de uma classe socialmente privilegiada, leccionando na Faculdade de Direito, ao mesmo tempo que recrutava seguidores na feira de vaidades das televisões, na presidência (falhada) de um partido político, na candidatura (falhada) à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, na ânsia planeada ao pormenor, de um dia chegar à Presidência da República – mesmo sendo um cata-vento de opiniões, nas palavras em tempos proferidas pelo chefe do seu próprio partido que agora, passado muito pouco tempo, desdiz e renega. O outro (Sampaio da Nóvoa), Reitor da Universidade de Lisboa, vindo da simplicidade e das gentes do povo anónimo, aprofundando conhecimento acumulado, sem muletas de partidos, nem de televisões (vaidosas), nem de candidaturas (falhadas), nem de favores aristocráticos ou burgueses, apresenta-se na sua vontade de mudança, baseado tão-só, na sua comunhão de ideias com a cultura do seu (nosso) povo.
Tal como Richard Feynman, o físico que aprendeu a falar português, que desfilou tocando “Frigideira” no carnaval do Rio (deu aulas no Brasil durante algum tempo), que tocou tambor (ritmos africanos), que recusou pagamentos pelas conferências, que quis pintar para ver como era a arte, que se divertiu fingindo de músico mas que, no fundo, foi um sábio, também na sua simplicidade, António Sampaio da Nóvoa, surge-nos como um Homem Novo, numa política Nova, num discurso Inédito virado para um Portugal de Cultura, de Mudança e de Esperança desinteressada, acreditando apenas na sua sabedoria, cultura e conhecimento – dai ao povo cultura e conhecimento e o povo se encarregará de engrandecer!
Sampaio da Nóvoa é um Físico das palavras simples, daquelas que, sem serem banais, são compreendidas por todos.
Pelo Nóvoa é Que Vamos!

António J. Barnco, In, Crónicas do Meu País

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