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O Meu País

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A Fernando Salgueiro Maia (Os Heróis Não Morrem Eternamente)

Salgueiro_Maia.jpg

Muitas são as histórias que se podem contar acerca dos homens que em permanência vão influenciando a transformação do mundo.

Muitas são também as histórias que se podem contar acerca de mundos que foram transformados por homens que não se deixaram dominar; por homens insatisfeitos e inquietos que nunca se acomodaram ao estado inerte das coisas estagnadas. Alguns desses homens, pelos seus feitos, foram considerados heróis, mas outros há, que pela sua integridade de carácter e generosidade latente, se recusaram permanentemente a sê-lo. Estão neste caso, os anti-heróis, os revolucionários puros; “aqueles que por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando”, pensando sempre mais nos outros do que neles próprios.

Um desses Homens, pela sua Integridade de Carácter, Coragem, Honestidade, Brio e Frontalidade foi, sem dúvida alguma, Fernando Salgueiro Maia.

Salgueiro Maia foi um Homem que viveu e influenciou a história real dos homens reais. Depois do seu feito e como "compensação" pelo não alinhamento político, foi “deportado” para a Ilha de São Miguel. O feito maior fora a ousadia em ter enfrentado na “Capital do Império”, a máquina de guerra que podia ter interrompido a marcha gloriosa do golpe de estado que viria a ser transformado em Revolução do povo.

Humilde, verdadeiro e sempre fiel quanto aos princípios que o levaram a revoltar-se, recusou-se a de tal tirar dividendos, deixando-nos um legado de coragem e de integridade, só próprias dos grandes homens: daqueles que não morrerão eternamente.

Quarenta e Dois anos depois do Amanhecer em Liberdade, recordo o Homem que, prematuramente, foi vencido pela vida (pela morte) e não teve tempo de assistir ao reconhecimento dos seus actos, aqueles que apenas a história julgará com justiça, no seu lento julgamento de sentença justa.

Imortalizado em estátua no “Centro do Mundo”, Salgueiro Maia pertencerá sempre ao grupo daqueles que, fazendo o que um dia tinha de ser feito, se recusaram a ser heróis tirando partido da ousadia e da coragem.

Fazer justiça aos que, cumprindo a liberdade largamente a ultrapassaram, esforçando-se pela incansável e destemida dignificação do género humano, homem e indivíduo; Ser livre de pensar e de fazer, é uma tarefa só própria dos eleitos.

Não sou capaz - nem com palavras faladas nem em letras alinhadas - de prestar a merecida a homenagem ao mais puro dos Imortais da “Alvorada em Abril”.

Escrevo apenas como sei e mostro como sinto...

O resto... O resto é apenas constituído por recordações vadias e longínquas, penduradas em franjas frágeis de agulhas de pinheiros em pinheirais sombrios, que a memória do tempo sem alma se encarregará de apagar...

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Obviamente, Demito-me!

Bater com a porta.jpg

A demissão do General Carlos Jerónimo, face a desentendimentos com o Ministro da Defesa Nacional fez-me viajar pelo meu passado (e também algum presente) militar.

Quando em Mil Novecentos e Setenta e Sete, entrei na Escola Prática de Cavalaria para assentar praça (como voluntário), numa das primeiras palestras, o Comandante de Esquadrão (ou o Comandante de Pelotão, que se me perdoe a lacuna de memória) disse, claramente, algo como isto: “A política fica fora dos muros do quartel, aqui não há partidos políticos”. E toda a instrução decorreu sem sombra de política.

E uma parte da minha vida militar decorreu sem sombra de política…

…Uma parte porque, a partir do início da década de noventa, a política começou a dar entrada nos quartéis: não pela Porta de Armas, não pelo “portão norte” (ou o saudoso Portão Chaimite na EPC, em Santarém) e nem sequer pela “Porta do Cavalo”, aquela porta sem localização definida que serve para entrar e sair disfarçadamente (às escondidas) sem que ninguém se aperceba mas que todos sabem.

A política entrou pela Porta Grande (quiçá a maior de todas): pelos estados-maiores dos ramos.

Na verdade, a partir do momento em que os Chefes militares passaram a ser nomeados por opção política, deixaram de exercer (na prática) um cargo de exclusividade militar, para exercerem um cargo em part-time político de natureza militar. Ao tempo, chamou-se ao “mentor espiritual” de tal alteração legislativa, o Cabo Nogueira (era ministro da Defesa Nacional, Fernando Nogueira). Por esses dias, o General Loureiro dos Santos (Chefe do Estado-Maior do Exército) bateu com a porta, não estava para aturar um “cabo” que queria brincar com a tropa. Mas o “nosso cabo”, com a complacência e apoio (sinónimos?) do então Primeiro-ministro, Professor Aníbal Cavaco Silva (sim, aquele que foi elogiado pelo actual Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas no momento da despedida de PR), conseguiu o seu grande feito e meteu (como um qualquer João Soldado) a tropa dentro de um saco (João Soldado meteu o diabo). Mesmo com a discordância do então Presidente da República, Dr. Mário Soares, que não quis (ou não conseguiu) impor a sua vontade soberana enquanto comandante supremo das Forças Armadas.

E a partir daqui a história é conhecida (embora até aqui também fosse): Os Chefes militares sucedem-se em subserviência política sempre à espera que um termine para outro iniciar. Calados (caladinhos que nem ratos, como diz o povo) enquanto detentores do poder (pelo menos de algum poder), deixam que a família militar se degrade num contínuo movimento de “cada vez pior”, culpando aqueles (os políticos) perante quem se baixaram e curvaram até baterem com o nariz no chão. O afastamento gradual das carreiras de referência (Juízes e Professores), os cortes nos vencimentos, a aplicação da CES (Contribuição Extraordinária de Solidariedade) para os militares reformados (uma dupla penalização que não souberam ou não quiserem contrariar), a degradação do sistema de saúde, a ingerência no IASFA (Instituto de Acção Social das Forças Armadas) e, mais recentemente, a “proibição” pelo novo EMFAR (Estatuto dos Militares das Forças Armadas) do uso e porte de arma, são alguns exemplos. Chegaram até a ser acusados de actuarem com ilegalidade na aplicação do último sistema remuneratório. Algum (dos chefes militares) deu “um murro na mesa”? Não! Algum se demitiu perante tal acusação? Não!

Trocou-se a dignificação de carreira por promoções (para um efectivo de pouco mais de vinte mil militares temos o dobro ou o triplo dos generais que tínhamos durante a guerra colonial) e perdeu-se o respeito da sociedade civil.

Retomando o inico do escrito: Nada, absolutamente nada, coisa alguma, do que é dito pelo subdirector do Colégio Militar na sua entrevista, configura discriminação pela instituição relativamente à orientação sexual dos alunos. O que é dito (e até com muito cuidado), é que os alunos (os outros) se afastam daqueles que têm uma orientação sexual diferente (os homossexuais) e pronto. Mais nada. E isto é tão verdade como a água correr de montante para jusante. E não se altera por decreto nem com o politicamente correcto. Quem esteve mal foi o ministro que devia de imediato ter-se (ele sim) demitido. Mas…

…Mas a culpa não é dos ministros da defesa, nem do governo em funções, nem dos partidos políticos e nem sequer da Assembleia da República, a culpa é toda, inteirinha, completa, dos próprios militares, que tão servilmente se foram deixando enxovalhar.

A tropa (o Exército, pelo menos) tem neste momento a grande oportunidade de sair de dentro do saco em que foi metido, basta que para isso a recusa em tomar posse, por parte dos generais que vierem a ser convidados para tal pelo MDN, não seja apenas uma ideia peregrina!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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