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O Meu País

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A Cor Negra do Sangue

hc130.pngJuro. Acordei triste: não porque o novo dia em cada dia que nasce não fosse propício a sorrir ao sol de Julho numa carícia terna de afago leve mas sentido; não porque à minha volta o céu ainda azul, descoberto de andorinhas de partida, não me deixasse contemplar na hora de ouro à beira-mar, o esconder de um sol que (dizem) nasce todos os dias para todos.

Como Português e Como Militar. Acordei triste e com amargura na voz, com névoa no olhar, com desalinho de cabelos, entrelaço de dedos, arrepio de pele e, pior, muito pior que tudo isso, com a alma fria, desalentada, desesperançada, desalinhada das coisas boas que a vida tinha (diziam) ainda para dar.

Servir as Forças Armadas. Confrontado com o baço olhar, com um rosto sem néctar nem timbre na voz, com dedos esguios, pele de inverno chuvoso e alma sem espírito activo, desenhei no espelho as únicas palavras que, naquele momento, consegui escrever: “Canteiro agreste”.

Guardar e Fazer Guardar. O que em tempos foi um jardim plantado de céu azul, enfeitado com areias de sol colorido e espuma branca de beijos entrelaçados com leite de amêndoa doce e salgada.

A Constituição e as Leis da República. O que em tempos foi um campo de cravos vermelhos, cujos trajes de enfeitar são agora capas de medo escuro, cobertas de silêncio atroz.

Juro. Vi Este País como uma planície de esguios pinhais, onde os lenhadores de então deram vida e sorte à partida de navios destemidos e de naus aventureiras e de caravelas bolinadas, cujas velas arreadas são agora o desnorte de um sul estridente sem estrela polar.

Defender a Minha Pátria. Este “Canteiro Agreste” onde os vadios da desesperança e os parasitas dos sentimentos e os profetas do restelo são velhos desdentados em sorrisos embruxados de maldições disfarçadas por rigores suspeitados em tridentes luciféricos.

E Estar Sempre Pronto a Lutar. Como um lamento de ansiedade ou um pedido de socorro: um grito de “Alerta Está” de Sentinela tardia com sentimento de frustração esmurrada contra o vento da anunciação desventurada.

Pela Sua Liberdade e Independência. Só vi no espelho uma cor baça e brilhante desmaiada de Negra morte. Queria ter visto o verde-alga, o verde-pinho, o verde-erva, o verde-verde, o verde-esperança.

Mesmo Com o Sacrifício da Própria Vida. Só vi a cor Negra da desventura, a cor turva da desesperança, a Cor Negra do Sangue.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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