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O Meu País

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Um Olho nas Luvas e Outro...no Feno!

Luva-Raspa-7CM.jpgAs luvas eram de pele castanha e tinham o interior forrado com espesso pelo, do género lã para as mais baratas e pura lã para as mais caras, as verdadeiras (hoje dir-se-ia genuínas). A grande dificuldade era comprá-las (hoje em dia, adquiri-las), não só devido ao problema do preço, como também ao facto de terem de vir de Espanha, dizia-se. O Guarda Florestal nunca fora a Espanha, isso era coisa para os ricos!
Mas queria mesmo umas luvas daquelas ou melhor, precisava de um bom par de luvas para proteger o frio que as madrugadas ao alvorecer lhe mirravam nas mãos os dedos contra a pele.
Só mesmo em Espanha…
Numa manhã de sol já meio levantado, parou-lhe aos pés uma carroça puxada por dois machos, com um burro à arreata. Sentado na boleia, com as rédeas nas mãos, um Cigano disse, “Bom-dia mê guarda”, “Bom-dia”, disse a Guarda (florestal). “O mê guarda é que me podia ajudar com um bocadinho de feno pós animais que já na comem nadinha há mais de três dias”, “Eu não sou o dono da herdade”, disse o guarda, “Atão mas basta fechar os olhos e eu num estantinho vou ali à cêfa, é coisa pôca”. “Se é só isso vá lá, não quero que os animais lhe morram com a carroça às costas”. O cigano atou as rédeas a um sobreiro marreco, tirou as grossas luvas e, de foice em punho, dirigiu-se à aveia que quase galgava o caminho de terra batida.
Três molhos depois, quando o guarda disse, “Não abuse que a aveia não é para ceifar ainda”, o cigano endireitou as costas e com um sorriso esticado pelo bigode amarelecido pelo fumo do tabaco disse, “Pronto mê guarda, já tá, vou já carregar”. Molhos de aveia em cima da carroça onde também se amontoavam os haveres próprios de quem anda de terra em terra, o cigano subiu para a boleia, enfiou de novo as luvas e, aprontou-se para dizer “arre macho”.
“Quanto é que quer pelas luvas”, perguntou o guarda-florestal, invejando as mãos quentes do cigano, “Ah mê guarda, na são pa vender, atão na vê que se na fossem elas na conseguia guiar a carroça” ao que o guarda, sem lhe dar mais tempo disse, “Você não costuma ir a Espanha”, “Atão na vou mê guarda, ainda na semana passada lá tive”, “Deixo-lhe ceifar mais um molho de aveia de se me trouxer umas luvas dessas de Espanha”, “Ah o mê o guarda é um santo, pá semana já lhas trago”. E foi ceifar mais dois molhos de aveia, “Mê guarda é um por cada luva”, e voltou a sorrir, com a maior inocência do mundo. “Até pá semana mê guarda”, “Não se esqueça, disse o guarda”.
Quatro ou cinco semanas depois, num outro caminho da herdade…
Numa manhã de sol já meio levantado, parou aos pés do guarda-florestal uma carroça puxada por dois machos, com um burro à arreata. Sentado na boleia, com as rédeas nas mãos, um Cigano disse, “Bom-dia mê guarda”, “Bom-dia”, disse a Guarda, “O mê guarda nã me deixa apanhar ali um molhinho de feno pós bichinhos que tão com tanta fome”, o guarda, aproximando-se mais da carroça para se certificar que o cigano era o mesmo que lhe prometera trazer as luvas de Espanha disse, “Só pode apanhar o feno depois de me trazer as luvas que prometeu”, “Atão mas eu prometi alguma coisa ao mê guarda”, “Já não se lembra do par de luvas que lhe encomendei em troca de mais um molho de aveia”, “Oh mê guarda como é que eu havia de lembrar se é a primêra vez que passo aqui”, “A primeira!”, disse o guarda espantado com a ousadia do cigano, “Atão pois é, o mê guarda na vê que eu tamém na tenho nada nas mãos, olhe os meus dedos, mirradinhos de frio, oh mê guarda deixe lá apanhar só um molhinho de feno, prá semana passo em Espanha e trago-lhe umas luvas novinhas”…

 

António J. Branco, In, Figuras de Cera

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