Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Meu País

O Meu País

A Cor Negra do Verde

Pinhal.jpgEsmeralda acordou triste, não porque o novo dia em cada dia que nasce não fosse propício ao sorrir do sol de Outono numa carícia terna de afago leve e sentido dos nossos Heróis do Mar!

Não porque à sua volta o céu ainda azul, tingido em andorinhas de partida, não a deixasse contemplar naquela hora dourada, o esconder de um sol que (dizem) nasce para todos, todos os dias deste milenar Nobre Povo!
Acordou triste, com um sorriso amargo, com amargura na voz, porque tinha névoa no olhar, desalinho de cabelos, entrelaço de dedos, arrepio de pele e, pior, muito pior que tudo isso, com a alma fria, desalentada, desesperançada, desalinhada das coisas boas que a vida ainda tinha (diziam) para lhe dar naquela que fora em tempos a sua Nação Valente!
Confrontada com o baço olhar e sorriso sem néctar, sem timbre na voz, com medos esguios em pele de inverno de arrepio colorido de cinza negra E Imortal!
Esmeralda desenhou no espelho as únicas palavras que, naquele momento, conseguiu lembrar-se: “O Verde-Ousado” da alma que, “Ó povo castigado”, Levantai Hoje de Novo!
Em tempos este jardim plantado, coberto de céu azul e de areias de sol dourado, por água-mar de espuma branca e amêndoa doce salgada era agora a reminiscência d’O Esplendor de Portugal!
Em tempos, este campo de cravos vermelhos, cujas cores de esperançar eram capas de medo escuro, cobertas de silêncio entre as Brumas da Memória!
Em tempos, neste prado de esguios pinhais, os marinheiros de então eram agora madeireiros em ensaio de lenhadores de Ó Pátria Sente-se a Voz!
Em tempos, fora partida de navios destemidos e de naus aventureiras e de caravelas bolinadas, cujas velas arreadas são agora o desnorte de um sul estridente, sem qualquer Ursa Maior nem sequer Estrela Polar Dos Teus Egrégios Avós!
Era apenas a saudade daquele “Verde-Ousado” onde os vadios da desesperança e os parasitas dos sentimentos e os profetas do restelo eram velhos desdentados em sorrisos embruxados de maldições disfarçadas por rigores suspeitados em tridentes luciféricos Que Hão-de Guiar-te à Vitória?
Era tão-só a lembrança do “Verde-Ousado”, onde as Primaveras de Marcela se esfumavam em sorrisos de beijos engalanados e abraços de entreter em gritos de choro Às Armas!
Uma planície de cores mortas em vozes de embrutecer nas lágrimas da desesperança da tragédia experimentada na desalma do poder Pela Terra e Pelo Mar!
Esmeralda suspirou pela impotência que sentiu no reflexo de sonhar Às Armas!
Esse suspiro de ansiedade num lamento de socorro, foi então um grito incómodo, um renascer desaparecido, um sentimento de frustração e um murro dado no vento da desventurada anunciação de Pela Pátria Lutar!
Esmeralda enfrentou o espelho e viu…
Viu apenas a cor brilhante naquele negro sem vida.
Queria ter visto o verde-alga, o verde-pinho, o verde-erva, o verde-verde, o verde-esperança e talvez o Verde-Esmeralda que a fizessem em correria, Contra os Canhões Marchar, Marchar!…
Mas só viu o “Verde-Ousado” de um tempo desesperançado em madrugada desmanhecida!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Andam Lobos Por Aí

cuentos-infantiles-y-lobos.jpg

Cientificamente o cão descende do lobo; melhor, o cão evoluiu geneticamente a partir do lobo - e da loba, claro - numa multiplicidade de raças que dápara satisfazer todos os gostos do homem (e da mulher), conforme o feitio de cada um e a personalidade de cada qual.

Andam lobos à  solta!

Por outro lado, o homem, dizem os livros, descende do macaco; não tendo sido criado geneticamente, mas evoluído a partir dele, ficando com as costas mais direitas, menos cabeludo e cada vez mais alto.

Andam lobos na Campo!

Vivendo o lobo em alcateia e caçando em conjunto por razões de sobrevivência, os seus derivados genéticos, embora mantendo o mesmo instinto na sua essência, cedo se habituaram ao estilo de vida dos humanos, preferindo a comodidade e conforto da sua companhia à  insegurança alimentar e instabilidade fÍsica daqueles que lhes deram origem: uma coisa É ser lobo a outra É vestir-lhe a pele.

Andam lobos no Rebanho!

Vivendo os homens em sociedade (imaginada?), cedo tamém se habituaram à  dedicação e fidelidade dos cães, tanto de miniaturas em forma de brinquedo como de gigantes em forma de lobos à  moda antiga: uma coisa é ser homem a outra é perceber a sua essência.

Andam lobos na cidade!

Quanto aos macacos, gorilas, chimpanzés e similares, continuam a viver na selva, como castigo por não terem sabido evoluir ou, no mí­nimo, como penitência pela curvatura da coluna vertebral que teimaram em manter. Não querendo misturas nem com os lobos nem com os cães, aproximam-se por vezes dos homens numa atitude de complacência pelo estado a que estes chegaram quando decidiram separar-se da genética e comum origem: uma coisa é ser macaco a outra é fazer macaquices.

Andam lobos pelas serras!

Tanto os lobos como os cães marcam e delimitam o seu território através de fluidos corporais  -  urinam no chão ou sobre objectos que demarcam os seus domínios. Já quanto aos macacos estas fronteiras (as dos macacos, não as dos lobos) são definidas através de gritos fortes, estridentes e dominadores; e nisto parecem-se um bocadinho com aqueles que se desviaram a raça original.

Andam lobos na polí­tica!

Os humanos, para se distinguirem e diferenciarem o seu território, fizeram tudo de maneira diferente: pregaram marcos no chão, desenharam riscos nos mapas, construí­ram muros, dividiram rios, seccionaram ilhas e até inventaram deuses para lhes servir de patronos. Tudo ao contrário dos outros animais: sem mijar e sem gritar, mas com muita hipocrisia à  mistura.

Andam lobos nas igrejas!

Olhando para trás mesmo sem ver a origem, fácil é, pois, a conclusão: Os lobos continuam tal como sempre foram, os macacos tal e qual e os cães conforme o trato e o meio em que vivem. Quanto aos humanos, os tais que desalinharam dos sÍmios por evolução (?!), continuam, condescendentes, a deixar...

...Que Andem Lobos Por Aí­!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D