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O Meu País

O Meu País

Um Olho nas Luvas e Outro...no Feno!

Luva-Raspa-7CM.jpgAs luvas eram de pele castanha e tinham o interior forrado com espesso pelo, do género lã para as mais baratas e pura lã para as mais caras, as verdadeiras (hoje dir-se-ia genuínas). A grande dificuldade era comprá-las (hoje em dia, adquiri-las), não só devido ao problema do preço, como também ao facto de terem de vir de Espanha, dizia-se. O Guarda Florestal nunca fora a Espanha, isso era coisa para os ricos!
Mas queria mesmo umas luvas daquelas ou melhor, precisava de um bom par de luvas para proteger o frio que as madrugadas ao alvorecer lhe mirravam nas mãos os dedos contra a pele.
Só mesmo em Espanha…
Numa manhã de sol já meio levantado, parou-lhe aos pés uma carroça puxada por dois machos, com um burro à arreata. Sentado na boleia, com as rédeas nas mãos, um Cigano disse, “Bom-dia mê guarda”, “Bom-dia”, disse a Guarda (florestal). “O mê guarda é que me podia ajudar com um bocadinho de feno pós animais que já na comem nadinha há mais de três dias”, “Eu não sou o dono da herdade”, disse o guarda, “Atão mas basta fechar os olhos e eu num estantinho vou ali à cêfa, é coisa pôca”. “Se é só isso vá lá, não quero que os animais lhe morram com a carroça às costas”. O cigano atou as rédeas a um sobreiro marreco, tirou as grossas luvas e, de foice em punho, dirigiu-se à aveia que quase galgava o caminho de terra batida.
Três molhos depois, quando o guarda disse, “Não abuse que a aveia não é para ceifar ainda”, o cigano endireitou as costas e com um sorriso esticado pelo bigode amarelecido pelo fumo do tabaco disse, “Pronto mê guarda, já tá, vou já carregar”. Molhos de aveia em cima da carroça onde também se amontoavam os haveres próprios de quem anda de terra em terra, o cigano subiu para a boleia, enfiou de novo as luvas e, aprontou-se para dizer “arre macho”.
“Quanto é que quer pelas luvas”, perguntou o guarda-florestal, invejando as mãos quentes do cigano, “Ah mê guarda, na são pa vender, atão na vê que se na fossem elas na conseguia guiar a carroça” ao que o guarda, sem lhe dar mais tempo disse, “Você não costuma ir a Espanha”, “Atão na vou mê guarda, ainda na semana passada lá tive”, “Deixo-lhe ceifar mais um molho de aveia de se me trouxer umas luvas dessas de Espanha”, “Ah o mê o guarda é um santo, pá semana já lhas trago”. E foi ceifar mais dois molhos de aveia, “Mê guarda é um por cada luva”, e voltou a sorrir, com a maior inocência do mundo. “Até pá semana mê guarda”, “Não se esqueça, disse o guarda”.
Quatro ou cinco semanas depois, num outro caminho da herdade…
Numa manhã de sol já meio levantado, parou aos pés do guarda-florestal uma carroça puxada por dois machos, com um burro à arreata. Sentado na boleia, com as rédeas nas mãos, um Cigano disse, “Bom-dia mê guarda”, “Bom-dia”, disse a Guarda, “O mê guarda nã me deixa apanhar ali um molhinho de feno pós bichinhos que tão com tanta fome”, o guarda, aproximando-se mais da carroça para se certificar que o cigano era o mesmo que lhe prometera trazer as luvas de Espanha disse, “Só pode apanhar o feno depois de me trazer as luvas que prometeu”, “Atão mas eu prometi alguma coisa ao mê guarda”, “Já não se lembra do par de luvas que lhe encomendei em troca de mais um molho de aveia”, “Oh mê guarda como é que eu havia de lembrar se é a primêra vez que passo aqui”, “A primeira!”, disse o guarda espantado com a ousadia do cigano, “Atão pois é, o mê guarda na vê que eu tamém na tenho nada nas mãos, olhe os meus dedos, mirradinhos de frio, oh mê guarda deixe lá apanhar só um molhinho de feno, prá semana passo em Espanha e trago-lhe umas luvas novinhas”…

 

António J. Branco, In, Figuras de Cera

A Cor Negra do Sangue

hc130.pngJuro. Acordei triste: não porque o novo dia em cada dia que nasce não fosse propício a sorrir ao sol de Julho numa carícia terna de afago leve mas sentido; não porque à minha volta o céu ainda azul, descoberto de andorinhas de partida, não me deixasse contemplar na hora de ouro à beira-mar, o esconder de um sol que (dizem) nasce todos os dias para todos.

Como Português e Como Militar. Acordei triste e com amargura na voz, com névoa no olhar, com desalinho de cabelos, entrelaço de dedos, arrepio de pele e, pior, muito pior que tudo isso, com a alma fria, desalentada, desesperançada, desalinhada das coisas boas que a vida tinha (diziam) ainda para dar.

Servir as Forças Armadas. Confrontado com o baço olhar, com um rosto sem néctar nem timbre na voz, com dedos esguios, pele de inverno chuvoso e alma sem espírito activo, desenhei no espelho as únicas palavras que, naquele momento, consegui escrever: “Canteiro agreste”.

Guardar e Fazer Guardar. O que em tempos foi um jardim plantado de céu azul, enfeitado com areias de sol colorido e espuma branca de beijos entrelaçados com leite de amêndoa doce e salgada.

A Constituição e as Leis da República. O que em tempos foi um campo de cravos vermelhos, cujos trajes de enfeitar são agora capas de medo escuro, cobertas de silêncio atroz.

Juro. Vi Este País como uma planície de esguios pinhais, onde os lenhadores de então deram vida e sorte à partida de navios destemidos e de naus aventureiras e de caravelas bolinadas, cujas velas arreadas são agora o desnorte de um sul estridente sem estrela polar.

Defender a Minha Pátria. Este “Canteiro Agreste” onde os vadios da desesperança e os parasitas dos sentimentos e os profetas do restelo são velhos desdentados em sorrisos embruxados de maldições disfarçadas por rigores suspeitados em tridentes luciféricos.

E Estar Sempre Pronto a Lutar. Como um lamento de ansiedade ou um pedido de socorro: um grito de “Alerta Está” de Sentinela tardia com sentimento de frustração esmurrada contra o vento da anunciação desventurada.

Pela Sua Liberdade e Independência. Só vi no espelho uma cor baça e brilhante desmaiada de Negra morte. Queria ter visto o verde-alga, o verde-pinho, o verde-erva, o verde-verde, o verde-esperança.

Mesmo Com o Sacrifício da Própria Vida. Só vi a cor Negra da desventura, a cor turva da desesperança, a Cor Negra do Sangue.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

...No Hay Dinero!

La Salle.jpgCorreu pelo Colégio a ideia de aproveitar da melhor maneira o enquadramento com o Rio Tejo, na prática de exercício físico em variante terrestre e aquática: descida até ao Tejo, que ficava a cerca de um quilómetro de distância, indo pelos montes abaixo – variante terrestre – para a prática da canoagem naquele espaço onde as águas eram quase paradas – variante aquática.
O assunto não era de modo algum pacífico nem de fácil aceitação, mas colhia as boas graças de muitos alunos e de muitos encarregados de educação e discutia-se com frequência, quer entre alunos, quer entre a Irmandade, quer ainda entre estes e os pais dos alunos, havendo em qualquer dos lados, quem apoiasse e quem contestasse (como em todas as questões, onde há sempre opiniões que não convergem).
Num dia em que já todos os rapazes do serviço (*)  tinham acabado as suas obrigações da hora de almoço, estando a tomar a sua própria refeição na divisão anexa ao refeitório dos Irmãos, que estavam por sua vez já naquela fase das sobremesas e do prazer de saborear o repasto – é sabido que os frades comem que nem uns abades – ouviu-se acalorada discussão, à qual prestaram a máxima atenção.
- Se hacen media docena de canoas y los chicos practican ejercicio.
- Per, y las aguas? Es peligroso.
- Compram-se Bóias!
- Y después se vuelcan las canoas, es muy peligroso.
- Desde que haja bóias para todos, não há perigo nenhum!
- Y los remos? No creo que sea buena idea.
- Pero es bueno como ejercicio.
E assim iam continuando a discussão com algumas misturas de linguagem, pois os Irmãos  Portugueses falavam  Português correcto, e os Irmãos Espanhóis, quanto mais nervosos e irritados ficavam, menos se esforçavam por bem falar em português; no fundo, entendiam-se nas falas mas não chegavam a acordo quanto ao tema até que, repentinamente, se ouviu uma voz forte e determinada que pôs fim à discussão:
- No hay dinero.
Disse o Irmão Borges, do alto da sua imponência e enorme barriga (de frade, claro).
E pronto, nada mais se ouviu, silêncio total e de canoagem acabou a discussão. Passados uns instantes, à saída – saíam pela sala onde os rapazes do serviço comiam – ainda um dos frades portugueses se encostava ao Irmão Borges, a dizer:
- Mas ó Irmão Borges, isto até nem fica muito caro, é só...
- No hay dinero, caramba, será necesario repetirlo de nuevo?
E nunca mais no Colégio se ouviu de falar de exercício em variante terrestre e aquática. Restou a prática em variante terrestre, também saudável e sem custos acrescidos.

António J. Branco, In, Figuras de Cera

(*) Grupo reduzido de alunos que acumulavam os estudos com o serviço de refeitórios e cozinha como forma de pagamento da sua mensalidade.

 

Um Estilo Manuelino...

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No último quartel do século XV, foi aclamado como Rei de Portugal, Dom Manuel I, O Venturoso, também conhecido pelo Afortunado e O Bem-Aventurado. Em poucas palavras: Dom Manuel I teve muita sorte (Ventura e/ou Fortuna) e soube trabalhar muito bem.
No primeiro quartel do século XXI, foi eleito Presidente da República o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que não tem cognome porque aos presidentes não se lhes atribui tal “apêndice”. Em poucas palavras: o Professor Marcelo fez pela vida (e pela sorte) e soube trabalhar muito bem.
Regista-se um empate.
Por má sorte (ou má fortuna) Dom João II, O Príncipe Perfeito, não teve descendência que garantisse a sucessão do Reino de Portugal.
Cerca de Quinhentos anos mais tarde, o Professor Marcelo, não teve, verdadeiramente, candidatos “com força suficiente bastante” para lhe fazer frente numa eleição ganha antes de começar: Estava garantida ou, como se diz na gíria popular, estava “no papo”.
Outro empate.
El-Rei Dom João II – um verdadeiro estadista, quiçá o melhor até hoje – ao querer limitar o poder da nobreza teve de agir com astúcia, coragem e valentia no interior da sua própria corte, na qual, ele mesmo deu fim à vida do Duque de Viseu, seu cunhado (irmão de Dom Manuel I) que contra si conspirava. Após a morte (aos dezoito anos e de contornos esbatidos) do Infante Afonso, seu sucessor, Dom João II tentou que o reino fosse entregue ao filho bastardo (Jorge de Lencastre) sem que para tal tivesse tido sucesso. Diz-se que nesta desventura o seu cunhado Manuel (o que viria a ser O Venturoso) manobrou na sombra (bastidores) os bastantes (todos e suficientes) cordelinhos e pauzinhos da sua Ventura. Dom João II sabia da astúcia do cunhado (e primo) mas como este nunca o afrontou nem menosprezou, acabou por, já moribundo (ou quase) e contrariado, entregar-lhe o poder.
Quinhentos anos mais tarde, contrariando a vontade (não a explícita mas a implícita) do presidente do seu partido, o Professor Marcelo candidatou-se à eleição para a Presidência da República, um trabalho iniciado cerca de dez anos antes, como “cronista do reino” na arte de bem comentar aquilo que os outros faziam (ou deixavam por fazer). Político ágil, astuto, inteligente, simpático e batalhador, não desistiu dos seus intentos ainda que tivesse sido apelidado de cata-vento de opiniões pelo presidente do seu partido (aquele que o aceitou não o querendo para tal).
Outro empate com Dom Manuel I: Ambos, na sua perseverança e agilidade astuciosamente paciente, souberam, passo a passo, construir o caminho da Ventura: um em direcção à Coroa de El-Rei, o outro em direcção à cadeira de Belém.
Dom Manuel I, ainda que tendo sido aclamado rei pela via indirecta, reinou vinte e seis anos e foi um bom Rei. Para além da sabedoria com que geriu os descobrimentos, deixou-nos o conhecidíssimo estilo Manuelino. Fica na história do lado dos bons, daqueles que Fizeram.
O Professor Marcelo (ao contrário de Dom Manuel) foi eleito pela via directa e, se a história se cumprir, presidirá por dez anos. Ao contrário do seu antecessor, esperemos que não fique na história do lado dos maus.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Andam Lobos Por Aí

Lobo e Cordeiro.jpgCientificamente o cão descende do lobo; melhor, o cão evoluiu geneticamente a partir do lobo – e da loba, claro – numa multiplicidade de raças que dá para satisfazer todos os gostos do homem (e da mulher), conforme o feitio de cada um e a personalidade de cada qual. Andam lobos à solta!
Por outro lado, o homem, dizem os livros, descende do macaco; não tendo sido criado geneticamente mas evoluído a partir do dito cujo, ficando com as costas mais direitas, menos cabeludo e cada vez mais alto. Andam lobos na cidade!
Vivendo o lobo em alcateia e caçando em conjunto por razões de sobrevivência, os seus derivados genéticos, embora mantendo o mesmo instinto na sua essência, cedo se habituaram ao estilo de vida dos humanos, preferindo a comodidade e conforto da sua companhia à insegurança alimentar e instabilidade física daqueles que lhes deram origem: uma coisa é ser lobo a outra é vestir-lhe a pele. Andam lobos no Rebanho!
Vivendo os homens em sociedade (imaginada?), cedo também se habituaram à dedicação e fidelidade dos cães, tanto de miniaturas em forma de brinquedo como de gigantes em forma de lobos à moda antiga: uma coisa é ser homem a outra é perceber a sua essência. Andam lobos no Caldas!
Quanto aos macacos, gorilas, chimpanzés e associados, continuam a viver na selva, como castigo por não terem sabido evoluir ou, no mínimo, como penitência pela curvatura da coluna vertebral que teimaram em manter. Não querendo misturas nem com os lobos nem com os cães, aproximam-se por vezes dos homens numa atitude de complacência pelo estado a que estes chegaram quando decidiram “desagrafar-se” da genética e comum origem: uma coisa é ser macaco a outra é fazer macaquices. Andam lobos na Lapa!
Tanto os lobos como os cães marcam e delimitam o seu território através de fluidos corporais – urinam no chão ou sobre objectos que demarcam os seus domínios. Já quanto aos macacos estas fronteiras (as dos macacos, não as dos lobos) são definidas através de gritos fortes, dominantes, estridentes e dominadores; e nisto parecem-se um bocadinho com aqueles que abandonaram a raça. Andam lobos na Assembleia!
Os humanos, para se distinguirem e diferenciarem o seu território, fizeram tudo de maneira diferente: pregaram marcos no chão, desenharam riscos nos mapas, construíram muros, dividiram rios, seccionaram ilhas e até inventaram deuses para lhes servir de patrono; enfim, tudo ao contrário dos outros animais, sem mijar e sem gritar mas com muita merda à mistura. Andam lobos de Mitra!
Olhando para trás mesmo sem ver a origem, fácil é, pois, a conclusão: Os lobos continuam tal como sempre foram, os macacos tal e qual e os cães conforme o trato e o meio em que vivem. Quanto aos humanos, os tais que desalinharam dos símios por evolução (?!), continuam, condescendentes, a deixar…que Andem Lobos Por Aí!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Ciclo da Vida

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Diferente da maioria dos outros animais, que quando nascem, levantam-se e andam, o homem (e a mulher também), ao nascer, apenas sabe chorar e mamar. Vai crescendo, chorando e mamando; umas vezes chora menos e mama mais, e noutras, mama menos e chora mais. É tão-só uma questão de mama que se quer que não seque e outra de choro fingido para dar nas vistas. Claro que há exceções, mas essas, diz a lenda, só confirmam a regra.
O animal (homem) vai crescendo, aprende a andar sem cair, a falar sem chorar e a comer sem mamar. Ainda não sabe (nem quer) trabalhar nem o tempo verbal em que tal verbo de deve conjugar, mas sabe e sente que o corpo vai mudando e que a mama se vai reduzindo a tão pouca quantidade que não há choro que faça jorrar mais leite.
Mas vai aprendendo (o homem aprende quando quer) a tornar-se autónomo, a andar sozinho, a afastar-se da berma da estrada (da valeta) sem caminhar em direção ao eixo da via. De vez em quando cai, mas, com ajuda ou com esforço próprio levanta-se e ei-lo de novo, sorridente, irado, desgostoso, pessimista ou optimista, a subir (e a descer) pela escada da vida. E continua a aprender, a ter de aprender sempre coisas novas para conseguir ultrapassar problemas velhos: quem lhe pegava ao colo para que não chorasse já não pode com ele (ou não quer aturar-lhe as manhas) e quem lhe enchia o estômago de leite ultrapasteurizado e homogeneizado, por uma razão ou por outra, encontrou outra utilidade para a nascente, muito mais divertida do que ser chupada e mordida ao mesmo tempo.
Nem bebé chorão (e mamão), nem criança imberbe, nem adolescente gaseificado com borbulhas, o animal é agora quase grande (por enquanto só fisicamente), mas quer continuar a crescer (mentalmente) e a afirmar-se perante os outros animais como ele: ser integrado um clã, viver numa gruta e ter um mundo próprio…
Nasceu, chorou, mamou e cresceu: quase sempre por esta ordem mas não em absoluto porque há animais que mamam antes de chorar, choram antes de nascer e nascem (renascem) depois de crescer. Estes últimos são os “eleitos”, aqueles que têm as capacidades inatas de se auto reorganizar, de se reprogramar qualquer que seja o “sistema operativo” e de se reinventar, caso tenha sido desenvolvido com defeito físico – um Bug, dirão alguns!
Mais tarde, já em decrescimento físico, dobrado, marreco, coxo ou com nariz junto ao chão, sente-se cada vez mais sábio e cada vez menos útil, incapaz de produzir, porque ninguém quer saber de teóricos que não fazem trabalhos práticos: o que aprendeu ao longo da vida, só serve para o seu próprio mundo, quase sempre povoado de recordações e de memórias vadias que se esgueiram por entre as veredas da sua própria penumbra.
Morre (morreu?) e todo o seu conhecimento viajou com ele: ou para o céu do Deus pai, ou para o céu dos anjinhos ou ainda (quem sabe?) para o céu dos passarinhos, caso tenha aprendido a voar e a pousar de galho em galho.
Recomeça o ciclo (é dinâmico, como sabemos). Nasce outro animal: chora, mama, cresce e aprende, algumas vezes à sua custa, outras à custa dos outros. Não quer (não quis) saber do morto nem dos erros que este cometeu, nem das quedas que caiu (muito menos dos esforço que fez para se levantar) nem tão pouco dos sonhos que esqueceu enquanto viveu sobrevivendo.
E quer fazer tudo de novo, provando que é único e diferente (sem ajuda de ninguém), incluindo chorar e mamar!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

A Fernando Salgueiro Maia (Os Heróis Não Morrem Eternamente)

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Muitas são as histórias que se podem contar acerca dos homens que em permanência vão influenciando a transformação do mundo.

Muitas são também as histórias que se podem contar acerca de mundos que foram transformados por homens que não se deixaram dominar; por homens insatisfeitos e inquietos que nunca se acomodaram ao estado inerte das coisas estagnadas. Alguns desses homens, pelos seus feitos, foram considerados heróis, mas outros há, que pela sua integridade de carácter e generosidade latente, se recusaram permanentemente a sê-lo. Estão neste caso, os anti-heróis, os revolucionários puros; “aqueles que por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando”, pensando sempre mais nos outros do que neles próprios.

Um desses Homens, pela sua Integridade de Carácter, Coragem, Honestidade, Brio e Frontalidade foi, sem dúvida alguma, Fernando Salgueiro Maia.

Salgueiro Maia foi um Homem que viveu e influenciou a história real dos homens reais. Depois do seu feito e como "compensação" pelo não alinhamento político, foi “deportado” para a Ilha de São Miguel. O feito maior fora a ousadia em ter enfrentado na “Capital do Império”, a máquina de guerra que podia ter interrompido a marcha gloriosa do golpe de estado que viria a ser transformado em Revolução do povo.

Humilde, verdadeiro e sempre fiel quanto aos princípios que o levaram a revoltar-se, recusou-se a de tal tirar dividendos, deixando-nos um legado de coragem e de integridade, só próprias dos grandes homens: daqueles que não morrerão eternamente.

Quarenta e Dois anos depois do Amanhecer em Liberdade, recordo o Homem que, prematuramente, foi vencido pela vida (pela morte) e não teve tempo de assistir ao reconhecimento dos seus actos, aqueles que apenas a história julgará com justiça, no seu lento julgamento de sentença justa.

Imortalizado em estátua no “Centro do Mundo”, Salgueiro Maia pertencerá sempre ao grupo daqueles que, fazendo o que um dia tinha de ser feito, se recusaram a ser heróis tirando partido da ousadia e da coragem.

Fazer justiça aos que, cumprindo a liberdade largamente a ultrapassaram, esforçando-se pela incansável e destemida dignificação do género humano, homem e indivíduo; Ser livre de pensar e de fazer, é uma tarefa só própria dos eleitos.

Não sou capaz - nem com palavras faladas nem em letras alinhadas - de prestar a merecida a homenagem ao mais puro dos Imortais da “Alvorada em Abril”.

Escrevo apenas como sei e mostro como sinto...

O resto... O resto é apenas constituído por recordações vadias e longínquas, penduradas em franjas frágeis de agulhas de pinheiros em pinheirais sombrios, que a memória do tempo sem alma se encarregará de apagar...

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Obviamente, Demito-me!

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A demissão do General Carlos Jerónimo, face a desentendimentos com o Ministro da Defesa Nacional fez-me viajar pelo meu passado (e também algum presente) militar.

Quando em Mil Novecentos e Setenta e Sete, entrei na Escola Prática de Cavalaria para assentar praça (como voluntário), numa das primeiras palestras, o Comandante de Esquadrão (ou o Comandante de Pelotão, que se me perdoe a lacuna de memória) disse, claramente, algo como isto: “A política fica fora dos muros do quartel, aqui não há partidos políticos”. E toda a instrução decorreu sem sombra de política.

E uma parte da minha vida militar decorreu sem sombra de política…

…Uma parte porque, a partir do início da década de noventa, a política começou a dar entrada nos quartéis: não pela Porta de Armas, não pelo “portão norte” (ou o saudoso Portão Chaimite na EPC, em Santarém) e nem sequer pela “Porta do Cavalo”, aquela porta sem localização definida que serve para entrar e sair disfarçadamente (às escondidas) sem que ninguém se aperceba mas que todos sabem.

A política entrou pela Porta Grande (quiçá a maior de todas): pelos estados-maiores dos ramos.

Na verdade, a partir do momento em que os Chefes militares passaram a ser nomeados por opção política, deixaram de exercer (na prática) um cargo de exclusividade militar, para exercerem um cargo em part-time político de natureza militar. Ao tempo, chamou-se ao “mentor espiritual” de tal alteração legislativa, o Cabo Nogueira (era ministro da Defesa Nacional, Fernando Nogueira). Por esses dias, o General Loureiro dos Santos (Chefe do Estado-Maior do Exército) bateu com a porta, não estava para aturar um “cabo” que queria brincar com a tropa. Mas o “nosso cabo”, com a complacência e apoio (sinónimos?) do então Primeiro-ministro, Professor Aníbal Cavaco Silva (sim, aquele que foi elogiado pelo actual Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas no momento da despedida de PR), conseguiu o seu grande feito e meteu (como um qualquer João Soldado) a tropa dentro de um saco (João Soldado meteu o diabo). Mesmo com a discordância do então Presidente da República, Dr. Mário Soares, que não quis (ou não conseguiu) impor a sua vontade soberana enquanto comandante supremo das Forças Armadas.

E a partir daqui a história é conhecida (embora até aqui também fosse): Os Chefes militares sucedem-se em subserviência política sempre à espera que um termine para outro iniciar. Calados (caladinhos que nem ratos, como diz o povo) enquanto detentores do poder (pelo menos de algum poder), deixam que a família militar se degrade num contínuo movimento de “cada vez pior”, culpando aqueles (os políticos) perante quem se baixaram e curvaram até baterem com o nariz no chão. O afastamento gradual das carreiras de referência (Juízes e Professores), os cortes nos vencimentos, a aplicação da CES (Contribuição Extraordinária de Solidariedade) para os militares reformados (uma dupla penalização que não souberam ou não quiserem contrariar), a degradação do sistema de saúde, a ingerência no IASFA (Instituto de Acção Social das Forças Armadas) e, mais recentemente, a “proibição” pelo novo EMFAR (Estatuto dos Militares das Forças Armadas) do uso e porte de arma, são alguns exemplos. Chegaram até a ser acusados de actuarem com ilegalidade na aplicação do último sistema remuneratório. Algum (dos chefes militares) deu “um murro na mesa”? Não! Algum se demitiu perante tal acusação? Não!

Trocou-se a dignificação de carreira por promoções (para um efectivo de pouco mais de vinte mil militares temos o dobro ou o triplo dos generais que tínhamos durante a guerra colonial) e perdeu-se o respeito da sociedade civil.

Retomando o inico do escrito: Nada, absolutamente nada, coisa alguma, do que é dito pelo subdirector do Colégio Militar na sua entrevista, configura discriminação pela instituição relativamente à orientação sexual dos alunos. O que é dito (e até com muito cuidado), é que os alunos (os outros) se afastam daqueles que têm uma orientação sexual diferente (os homossexuais) e pronto. Mais nada. E isto é tão verdade como a água correr de montante para jusante. E não se altera por decreto nem com o politicamente correcto. Quem esteve mal foi o ministro que devia de imediato ter-se (ele sim) demitido. Mas…

…Mas a culpa não é dos ministros da defesa, nem do governo em funções, nem dos partidos políticos e nem sequer da Assembleia da República, a culpa é toda, inteirinha, completa, dos próprios militares, que tão servilmente se foram deixando enxovalhar.

A tropa (o Exército, pelo menos) tem neste momento a grande oportunidade de sair de dentro do saco em que foi metido, basta que para isso a recusa em tomar posse, por parte dos generais que vierem a ser convidados para tal pelo MDN, não seja apenas uma ideia peregrina!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Máquina (Temperamental) de Fazer Gelo

Máquina de gelo.jpg

 

Campo Militar de Santa Margarida, Mil Novecentos e Setenta e Oito.

Verão quente (não o de Setenta e Cinco mas o deste mesmo ano), calor, muito calor!

A Messe de Oficiais de uma das unidades do Campo Militar tinha o privilégio de estar equipada com uma máquina de fazer gelo: uma “geringonça” na qual se despejava água e, ao fim de algumas horas, saíam de lá pedras de gelo. Para quê? Ora, para os oficiais utilizarem nas suas bebidas a fim de refrescarem as respectivas e empoeiradas gargantas, fruto das características de um campo que, para além de militar era mesmo isso, um campo! Mas a Messe de Oficiais em geral e a maquineta em particular, forneciam outros utentes de outras messes que, “pobrezinhas” em recursos, não dispunham de tais luxos.

A máquina, a dias tantos, resolveu deixar de cumprir o seu dever; recusou-se a desempenhar a sua função. Chegou o meio-dia e meia, hora a que, obrigatoriamente, os utentes tinham (acho que ainda têm mas isso é outra crónica) de se deslocar até à messe para cumprir o sempre doloroso dever de saborear o Martini (que às vezes se chamava Favaios ou Moscatel) com algumas pedras de gelo à mistura – a quantidade de pedras dependia da dieta do utente e não da mistura!

Não havia gelo, só havia aperitivo o qual, mesmo fresco e com casca de limão, não era a mesma coisa.

Chamado o gerente de messe e inteirado da situação, mandou este que alguém por seu mando mandasse chamar (há que respeitar a hierarquia que sempre foi coisa muito bonita) a assistência técnica que era prestada por uma empresa de Abrantes, a cerca de trinta quilómetros dali. Hoje já não conseguiam ir senhor tenente (gerente de messe), compreendia, enfim, mas amanhã com certeza que sim.

Entretanto, pouco depois do almoço, a máquina “despejou” pedras de gelo. Mandem cancelar a assistência à máquina de gelo, mandou o tenente. Com certeza meu tenente!

Mas no outro dia ao almoço (por volta das 12:30, como sabemos), a máquina voltou a não cumprir aquilo para que estava tecnológica e disciplinarmente obrigada. Telefone-se à assistência e que venham mesmo hoje. Pode ficar descansado meu tenente!

15:30H do mesmo dia e o técnico chega ao local “dos confrontos”. Vamos lá então ver o que se passa. Não se passava nada, a máquina despejava pedras de gelo como uma desalmada a gozar com o pagode. Mas, mas…Começou agora mesmo disse o barista da messe (na tropa os empregados de bar chamam-se barristas). Verifica aqui, verifica ali, tubos e mais tubos, parecia estar tudo bem, não é verdade? Parecia…

Oh barista, dois martinis com gelo, Não há gelo meu capitão…

E mandou-se chamar de novo o tenente (gerente de messe) que mandou chamar alguém que mandasse chamar a assistência técnica (enfim, o leitor já percebeu como é que estas coisas funcionam…). E que venham rápido, Vamos fazer os possíveis senhor tenente.

E por volta das 14:00 do mesmo dia o técnico da máquina de gelo chegou junto da dita-cuja. Olhou para ela, tinha tudo o que era preciso: electricidade, ligação de água e depósito para as pedras de gelo. Carregou no botão e a máquina despejou gelo.

Esta rotina repetiu-se durante a semana já com toda a gente a entrar em colapso por via da rotina alterada em tomar Martini sem gelo. E o tenente a ver a carreira a andar para trás porque o nosso capitão, a mando do nosso major, por ordem do nosso coronel, a mando do senhor brigadeiro, queria a máquina arranjada nem que fosse por “determino e mando publicar”.

E pela enésima (talvez a quarta ou quinta) vez, lá foi o técnico de novo. Oh barista (os civis também chamavam barista ao barista), vamos lá a ver uma coisa: Ao meio-dia e meia nunca há gelo? Nunca! E a partir das duas da tarde já há? É como vê! Hum… (técnico desconfiado). Posso dar aqui a uma volta (o aqui eram as instalações)? Esteja à vontade…

O técnico voltou a inspeccionar a máquina e o local e, não detectando nada de suspeito apenas perguntou para que servia uma cama na arrecadação ao lado da máquina, Para eu dormir, disse o barista, Mas você não dorme na caserna? Não, na caserna ninguém consegue dormir, aquilo é tudo gente doida! E você consegue dormir com o ruído da máquina (naqueles tempos as máquinas de fazer gelo, ao que parece, eram ruidosas), Claro, só a ligo a partir das dez horas quando fecho o bar da parte da manhã (voltava a abrir ao meio-dia)!
A máquina (além de barulhenta) era lenta na fabricação do gelo: só começava a produzir pedras cerca de três a quatro horas depois…
Estava tudo resolvido meu tenente!

António J. Branco, In, Figuras de Cera

 

 

Máquinas (e Actos) de Peregrinar

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Peregrinação, numa definição convencional, é um acto (normalmente uma viagem) realizado por uma pessoa (sem prejuízo de o ser em grupo) crente (ou com fé numa determinada religião), até a um local considerado sagrado (para a respectiva crença).

Peregrinação, é o título da obra em que Fernão Mendes Pinto relata as suas aventuras quando percorreu o Oriente (século XVI), numa época em que este era “interdito” aos ocidentais.

Peregrinação, foi, também, a designação atribuída aos desfiles de fim de tarde realizados pelas avenidas da Expo98, cujas máquinas de peregrinar deliciaram o imaginário de cada um de nós, não só pela ousadia do seu desenho e construção, como também pela fantasia que sabiam (souberam) transmitir.

Peregrinação, num conceito analógico ou mesmo alegórico, pode ser um acto ou uma viagem virtual pelo mundo dos sonhos, tendo como ponto de partida a fantasia  e como ponto de chegada a imaginação; ou o inverso, tanto se viaja fantasiando como se peregrina imaginando.

Numa outra perspectiva, podemos considerar que a peregrinação implica, ou a utilização de meios próprios de locomoção (pernas, pés e afins) ou de máquinas de peregrinar: objectos mecânicos que nos transportam com menos esforço até ao local pretendido. Mesmo não tendo fé nem sendo crente (nem a tal sendo obrigado).

“Modernamente nos tempos actuais”, alguns políticos, principalmente aqueles que fingem actos de fé (ou que os deturpam) orando a um deus que nas alturas estava (ainda estará?) teoricamente mais perto dos pobres desgraçados que dos ricos refastelados, chamaram Geringonça à máquina governativa que nos ajuda a peregrinar pelas ousadias de uma vida que, para muitos, há alguns anos o deixou de ser, sendo apenas meta inatingível em peregrinação sem chegada, sem vontade e sem força. Sem nada!

“Bem-aventurados os que sofrem, porque serão consolados” e “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”, são duas das sete bem-aventuranças anunciadas pelo Filho do Deus. O Deus que os fingidores da fé tanto apreciam, mas que tanto, ao mesmo tempo, contrariam pelos actos praticados, numa peregrinação em que a máquina de peregrinar nem sequer é uma geringonça mas sim uma aleivosia travestida de amor ao próximo, sendo este não o que dele se aproxima mas o seu interesse material pretendido.

“À esquerda do pai”, a perdição; à direita, a perfeição. É este o pensamento da “casta superior” de uma sociedade decadente, estruturada em conceitos de quimérica religiosidade, que brinca com os sentimentos “dos humildes” fazendo de cada um e de cada qual, não os simples de coração das bem-aventuranças mas os mansos inertes de uma sociedade agrilhoada a tradições de “panos e de cajados”, sem que os aguilhões do boieiro façam estremecer o animal.

Peregrinar? sim. E porque não? Desde que essa peregrinação nos leve por caminhos de aventura com prazer, de combate com satisfação, de conquista com luta, de lágrimas com sorrisos, podemos peregrinar pela vida, pelos caminhos e pelos sonhos. Não nos cortem o pensamento – “não há machado que corte a raiz ao pensamento" – deixem-nos, pois, viajar pelas ameias da vida sem que as catapultas de lapela nos esmaguem as nossas máquinas de peregrinar.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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