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O Meu País

O Meu País

A Arte de Peregrinar

Passei por peregrinos na viagem. De cajado na mão (Moisés usou um bordão), de colete fosforescente vestido e de olhar pregado na berma do caminho, seguiam em grupos de dois ou três, rumo provavelmente a Fátima, encontro de multidões. Têm Fé.

Já tive alguma!

Agora tenho pouca, mesmo pouca, quase nada, sendo o quase nada tão pouco, que não chega a ser coisa alguma.

E no entanto compreendo-os, mesmo que desperdiçando toda a energia e força de trabalho, em prol de pagamentos em ouro, compra de velas a arder e depositação de notas nas ranhuras, tentando agradar a um deus que se deixa assim subornar pelos bens materiais que o seu filho condenou (um filho nem sempre tem de concordar com o pai).

No mesmo período em que os crentes peregrinavam a caminho do Centro Comercial de Fátima, duas grandes figuras (Manuel de Oliveira e Silva Lopes) de referência nacional deixaram o mundo dos vivos; morreram, talvez não eternamente, como Mestre Oliveira, mas certamente de corpo desaparecido (ambos) da multidão de faladores da mesma língua e habitantes do mesmo estado a que chegámos. Tiveram mérito!

Não sei se virei a ter.

Julgo que tenho algum, quase pouco, mas é um algum tão pouco, que chega a ser quase nada ou coisa alguma. Como a fé (a minha).

À última homenagem ao Mestre do Cinema Português, afluíram todos (ou quase) os senadores de uma república mais decadente que aquela que assassinou Júlio César, aos pés da estátua do seu maior rival (Pombeio Magno).

Como virgens coradas de vergonha que não têm (as da romaria ao Mestre), apressaram-se a dizer palavras sábias, tiradas de um qualquer catálogo da arte de bem dizer e de bem falar coisas importantes em momentos apropriados, como se os homens grandes como Oliveira alguma vez se tivessem preocupado em dar ouvidos a esta casta de aproveitadores das alheias circunstâncias da arte de bem falar no momento de peregrinar.

O homem grande é um Homem diferente, faz o que sente e diz o que sabe, sem nunca se preocupar (ou relevando para o último degrau da escala hierárquica da importância) com o que dele pensarão um dia os que ficarão na terra onde um dia não irá ficar.

E bastaria tão-só dizer (se verdadeiramente sábios fossem, estes sofistas arautos), “Este Homem fez a diferença e Portugal está-lhe grato”. (Ponto).

Peregrinando pela fé (que não move montanhas, coisa alguma), ainda entendo, ainda faço um esforço para entender.

Peregrinando pela ousadia de bem ficar fotografado pelos alheios méritos, já não entendo, nem faço qualquer esforço para entender.

Um lunático de lentes garrafais em noite de lua- cheia? Um rei-morto e rei-posto, recusador e ignorador de Saramago? Um pregador de colossais mentiras? Um jurista negociante?

É o “Estado a que chegámos”? É!

Valeu pena Fernando (Salgueiro Maia)? Valeu!

Os homens grandes não morrem nunca.

Aqueles que partiram nem sempre são os que não ficaram.

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