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O Meu País

O Meu País

A Justiça da História

A História é sábia e não perdoa. Ainda que não nos agradem os seus julgamentos e nos vergue a passados que não gostamos de lembrar e que nos envergonham...

A Revolução de Abril, acontecida há quarenta e um anos no País erguido pela espada de Dom Afonso Henriques, marcou um dos acontecimentos mais influenciadores da história do século vinte Português, protagonizada por uma geração de militares, em que alguns (muitos), permanecem injustiçados, marginalizados, esquecidos, estigmatizados, emprateleirados e embrulhados na poeira inerte das coisas estagnadas.

A par da Revolução de Abril, a implantação da República marcou o fim de um ciclo e o início de outro, produzindo estes dois acontecimentos, consequências diferentes no tempo e no lugar, mas ambos com objectivos comuns: instaurar a democracia!

Se na implantação da república, a turbulência que sempre marca as tempestades de um povo não habituado a pensar e a agir em grupo tendo por base pensamentos maioritários, acabou numa ditadura disciplinadora de finanças mas castradora de pensamentos, na Revolução de Abril a turbulência foi vencida em pouco mais de dois anos de “finca-pé” dando lugar, lentamente e passo-a-passo, ao estado que somos hoje, por iniciativa dos homens que na altura com trinta anos fizeram aquilo que alguém, algum dia, teria de fazer; ou de ajudar a fazer. Hoje têm setenta anos ou mais – alguns, porque outros ficaram pelo caminho; lembremo-nos de Melo Antunes e, sobretudo, do mais injustiçado de todos: Fernando Salgueiro Maia.

Se os homens do Meu País não fizerem justiça aos seus heróis, a história o fará: implacável e imparcial.

Encontrei um desses homens há alguns dias. Um dos responsáveis pelos destinos do estado quando eu tinha dezassete ou dezoito ano anos. Dele, ficou-me na lembrança a sonoridade do nome. Foi-me apresentado por um amigo comum, alguém que o conhecia muito bem – é da mesma geração – e que me perguntou, “Conhece”, “Conheço o nome”, disse eu, “Mas não o consigo identificar”, acrescentei, “O...”, continuou o meu amigo, mas não foi preciso continuar, “Já sei, era do Conselho da Revolução”, disse eu.

Estes homens cumpriram aquilo a que se propuseram. Terminaram e começaram, começaram e terminaram; o tudo por fazer e o tudo feito. Acabaram com “o estado a que chegámos” entregando a gestão do País à sociedade civil, tal como constava “nas escrituras”.

Não vivemos – ainda – num país socialmente justo (os políticos falharam), pelo contrário, deparamo-nos no dia-a-dia, com situações profundamente injustas, gritantes e escandalosas, castradoras de direitos e de liberdades e somos de novo, “o estado a que chegámos”.

Na verdade, não é pelo facto de ter sido instituída em vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, a liberdade de expressão do pensamento, que, por si só, aprendemos a pensar e a julgar com justiça, sobretudo com justiça social. Começámos tarde, muito tarde, e esse começo tardio far-se-á sentir por gerações inteiras.

Mas também não serve de desculpa o começo tardio, para nos deixarmos arrastar na onda do desânimo e do conformismo – “se os outros não reagem, porque hei-de reagir eu”!

Os homens nascem e morrem, e durante o espaço de tempo que decorre entre o princípio e o fim, os actos – de cada um – são registados na memória intemporal da história, imortalizando alguns que nunca morrerão eternamentem, ignorando outros que acabarão por cair no esquecimento e condenando os restantes pelo que fizeram ou deixaram por fazer

A história é sábia e não perdoa: Lenta nos julgamentos, mas justa nas sentenças.

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