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O Meu País

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A Sala de Operações

A localização típica do gabinete do Comandante é, por excelência, ao centro de um longo corredor, onde se anda para lá e para cá e de cá para lá, a queimar tempo que às vezes faz falta para outras coisas, e à espera que aqueles que chegaram primeiro, despachem as “toneladas” de papéis que levaram lá para isso mesmo, para que o Comandante visse, lê-se, e rubricasse o despacho da sua sapiência.

À entrada do gabinete fica o Ordenança, “modernamente agora” chamado secretária, pessoa, bem entendido, mas na altura dos factos era ainda à moda antiga, de botas pretas de meio cano com atacadores cruzados, calças verdes e camisa verde de manga comprida, com gravata, também verde. Contrariamente aos actuais modernismos, em que um qualquer aparelho telefónico da era digital sinaliza tudo e mais alguma coisa, quem telefona, de que rede vem, o número e hora da chamada, naqueles tempos, tinha o Soldado Ordenança de perguntar, “Quem fala”, ir em passo de corrida ver se o Comandante estava ou não, e depois voltar para transmitir a informação à pessoa que estava do outro lado do fio.

No que diz respeito á organização interna de qualuer unidade militar, à semelhança do corredor de comando, também não variava muito: uma Secção de Pessoal, uma Secção de Operações, uma Secção de Justiça, um Gabinete de Estudos, enfim, uma estrutura perfeitamente hermética e consistente, que justificava a designação interdisciplinar que era atribuída à Instituição.

Mas naquele dia o Comandante não estava e por mais que o Ordenança tentasse ser credível, quem estava do outro lado fazia que não acreditava e ia massacrando os tímpanos do soldado que já não sabia o que mais havia de dizer para ser deixado em paz e sossego. Mas tem a certeza que o senhor Comandante não está, Tenho sim senhor, É melhor verificar, porque o assunto é muito importante. Humilde, este ia cheio de boa vontade verificar de novo, ainda assim o Comandante não se tivesse escondido debaixo da secretária, dentro do armário, ou saltado pela janela, Não senhor, não está mesmo, repetia a medo, Então faça-me um favor, passe esta chamada para a Secção de Pessoal, Pois, mas aí também já não está ninguém, é que já são quase seis horas e as secções fecham às cinco e meia, Ouça lá, eu tenho de falar com alguém, isto é um assunto importantíssimo, passe para a secretaria. E o Ordenança, utilizou todo o seu saber para, sem perder a chamada do exterior, ligar para a secretaria-geral à procura de alguém à altura de atender quem telefonava, Na secretaria só está o Soldado da Ordem de Serviço, quer falar com ele, Quero é falar com o chefe da secretaria, tem de ser Oficial, ou pelo menos um Sargento, Mas não senhor, não está mais ninguém.

- Ó Homem - gritava já em desespero -, procure-me alguém do Gabinete de Estudos.

- O senhor desculpe, mas aqui neste quartel não há Gabinete de Estudos.

- É pá, alguém que mande, passe-me à Sala de Operações.

- Olhe que isso deve ser é engano, o senhor se calhar enganou-se na chamada.

- Não me enganei nada, não fala do Forte de São Gabriel?

- É sim senhor!

- Pois então é aí mesmo, vá, procure-me lá alguém da Sala de Operações.

- É que deve ser mesmo engano, nós aqui no Forte de São Gabriel não temos sala de operações, só temos um posto de socorros!

E o Soldado Ordenança ouviu um telefone a ser desligado com violência, ainda hoje sem saber porquê, ele que tão prestável tinha sido.

 

António J. Branco, In, Figuras de Cera

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