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O Meu País

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Cartas de Guerra - Emoções Entardecidas!

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Foi com emoção que assisti à  abertura do espólio de guerra cedido por uma Mãe, à  Liga dos Amigos do Arquivo Histórico Militar. O espólio  - "acervo históico" - pertence ao filho, alferes miliciano, caído em combate na célebre operação Nó Górdio, levada a cabo em 1 de Julho de 1970, por oito mil homens do Exército, Força Aérea e Marinha (além de Grupos Especiais), contra as bases do planalto dos Macondes, em Moçambique, onde se encontravam disseminados cerca de 2500 guerrilheiros, sob o comando de Samora Machel.

Êxito para uns, principalmente para o seu mentor (General Kaúlza de Arriaga), e total fracasso para outros, porque, passado pouco tempo, a Frelimo voltaria a recuperar o domí­nio sobre grande parte do territóio, esta operação ficou para a história e memória de todos aqueles que, de algum modo, dramaticamente ajudaram a compor  o "Cancioneiro do Niassa" (De quantos sacrifÍ­cios senhores que em mim mandam, é feita  a vida de um soldado).

Espólio composto por um quadro com fotografia a preto e branco do Alferes C. e crachá da especialidade Comandos - 1ª Companhia de Comandos "Escorpiões" -  e respectivos galões; um álbum de fotografis; vários  troféus conquistados na prática da actividade desportiva (Vela) e, sobretudo, o conjunto das cartas (envelopes) por abrir, enviadas e recebidas pela mãe, com o carimbo "Destinatário falecido", no verso, constituem a memória temporal de alguém que, palavras suas, "Dentro de pouco tempo vou morrer e  este é o melhor destino para as coisas do meu filho".

Dói!

Dói  pensar,  ver e  sentir, sobretudo olhar para as cartas por abrir, remetidas à  Mãe - devido ao desfasamento no tempo e ao facto terem sido escritas  várias cartas mesmo sem obtenção de resposta das anteriores (o motivo já o sabemos).

"Nó Górdio" pode ser lido e apreciado na sua versão literária como  "Nó Cego",  de Carlos Vale Ferraz e consultado como ensaio histórico na obra "Moçambique, 1970. Operação Nó Górdio", de Carlos Matos Gomes (o mesmo autor sem pseudónimo).

A Guerra Colonial, para além de um pesado passado, é uma amarga lembrança impossível de esquecer e uma espessa sombra que pairará no sempre eterno da nossa história e da nossa memória colectiva. Não há "branqueamento" possí­vel que explique as acções de um Estado Novo, que nunca percebeu que estava a cair de velho.

A Recolha de espóliso de guerra é um projecto aliciante, que visa reunir situações vividas e emoções sentidas, daqueles que partiam e se despediam no Cais da Rocha Conde de Óbitos, ficando separados por um mar que muitas vezes não os haveria de voltar a juntar. É um projecto de  recolha documental, oriundo de quem, com maior proximidade, viveu e sentiu o amargo sabor das lágrimas derramadas, das saudades amargadas, dos sonhos desesperançado e das cartas por (re)abrir - Como Olinda, a mãe do Alferes C.

A história não se faz só com o empenho de alguns e com a interpretaçãoo dos "Sábios", a História faz-se com o contributo de todos e com o estudo dos pedaços que ainda faltam (e sempre faltarão).

O Espólio do Alferes C. está em boas mãos, irá ser tratado e guardado de acordo com a dignidade e importância que merece. As cartas, passados mais de trinta anos, irão um dia  ser abertas: São Cartas de Guerra!

Mas causa dor de alma e calafrios.

E dói, continua a doer, mas faz parte da Nossa História.

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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