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O Meu País

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Ciclo da Vida

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Diferente da maioria dos outros animais, que quando nascem, levantam-se e andam, o homem (e a mulher também), ao nascer, apenas sabe chorar e mamar. Vai crescendo, chorando e mamando; umas vezes chora menos e mama mais, e noutras, mama menos e chora mais. É tão-só uma questão de mama que se quer que não seque e outra de choro fingido para dar nas vistas. Claro que há exceções, mas essas, diz a lenda, só confirmam a regra.
O animal (homem) vai crescendo, aprende a andar sem cair, a falar sem chorar e a comer sem mamar. Ainda não sabe (nem quer) trabalhar nem o tempo verbal em que tal verbo de deve conjugar, mas sabe e sente que o corpo vai mudando e que a mama se vai reduzindo a tão pouca quantidade que não há choro que faça jorrar mais leite.
Mas vai aprendendo (o homem aprende quando quer) a tornar-se autónomo, a andar sozinho, a afastar-se da berma da estrada (da valeta) sem caminhar em direção ao eixo da via. De vez em quando cai, mas, com ajuda ou com esforço próprio levanta-se e ei-lo de novo, sorridente, irado, desgostoso, pessimista ou optimista, a subir (e a descer) pela escada da vida. E continua a aprender, a ter de aprender sempre coisas novas para conseguir ultrapassar problemas velhos: quem lhe pegava ao colo para que não chorasse já não pode com ele (ou não quer aturar-lhe as manhas) e quem lhe enchia o estômago de leite ultrapasteurizado e homogeneizado, por uma razão ou por outra, encontrou outra utilidade para a nascente, muito mais divertida do que ser chupada e mordida ao mesmo tempo.
Nem bebé chorão (e mamão), nem criança imberbe, nem adolescente gaseificado com borbulhas, o animal é agora quase grande (por enquanto só fisicamente), mas quer continuar a crescer (mentalmente) e a afirmar-se perante os outros animais como ele: ser integrado um clã, viver numa gruta e ter um mundo próprio…
Nasceu, chorou, mamou e cresceu: quase sempre por esta ordem mas não em absoluto porque há animais que mamam antes de chorar, choram antes de nascer e nascem (renascem) depois de crescer. Estes últimos são os “eleitos”, aqueles que têm as capacidades inatas de se auto reorganizar, de se reprogramar qualquer que seja o “sistema operativo” e de se reinventar, caso tenha sido desenvolvido com defeito físico – um Bug, dirão alguns!
Mais tarde, já em decrescimento físico, dobrado, marreco, coxo ou com nariz junto ao chão, sente-se cada vez mais sábio e cada vez menos útil, incapaz de produzir, porque ninguém quer saber de teóricos que não fazem trabalhos práticos: o que aprendeu ao longo da vida, só serve para o seu próprio mundo, quase sempre povoado de recordações e de memórias vadias que se esgueiram por entre as veredas da sua própria penumbra.
Morre (morreu?) e todo o seu conhecimento viajou com ele: ou para o céu do Deus pai, ou para o céu dos anjinhos ou ainda (quem sabe?) para o céu dos passarinhos, caso tenha aprendido a voar e a pousar de galho em galho.
Recomeça o ciclo (é dinâmico, como sabemos). Nasce outro animal: chora, mama, cresce e aprende, algumas vezes à sua custa, outras à custa dos outros. Não quer (não quis) saber do morto nem dos erros que este cometeu, nem das quedas que caiu (muito menos dos esforço que fez para se levantar) nem tão pouco dos sonhos que esqueceu enquanto viveu sobrevivendo.
E quer fazer tudo de novo, provando que é único e diferente (sem ajuda de ninguém), incluindo chorar e mamar!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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