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O Meu País

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Crimes de Lesa Pátria

MinhaPatriaLP.jpgO conceito de traição pode ser definido de diversas maneiras: rompimento de um acordo que beneficie uma terceira parte não envolvida directamente ou indirectamente, ruptura de uma decisão tomada de comum acordo, revelação de segredos entre pessoas ou entre organizações, por exemplo. Ou seja, a traição é simplesmente o acto de trair, de enganar deliberadamente, de estuprar ideias e/ou ideais, sem que seja necessária a definição do acto em termos científicos para que todos entendam o significado.

Já o conceito de Pátria parece-me de definição (e clareza) mais complexa. Sabemos o que é, mas é provável que nem todos o consigam definir em palavras de bom (e eficaz) entendimento. “Roubando” uma definição de um antigo professor, defino-a, simplesmente, como Terra de Antepassados. E estas duas palavras dizem tudo: a origem, a evolução, o comportamento, a história, a memória e a génese (ADN?) de um povo.

Mas, lembrando Camões – "Dizei-lhe que também dos Portugueses/Alguns traidores houve algumas vezes” – e embora o termo seja indelicado, rude, agreste, agressivo, violento e politicamente incorrecto, o conceito de traição pode e deve ser utilizado sempre que alguém, algum de nós, se sinta enganado por acordo estabelecido entre as partes, pela revelação de um segredo que “entregámos” por custódia ou, tão-só, porque no nosso íntimo fomos traídos. E este sentimento de desânimo e de desilusão não se explica, vive-se e sente-se, simplesmente.

Politicamente, a História (a nossa, que é a que mais nos interesse e diz respeito) está cheia (repleta mesmo) de traições: desde o assassinato de Viriato, até ao exemplo mais conhecido de Miguel de Vasconcelos (atirado pela janela na restauração da independência), passando pela traição colectiva de mandar um corpo de tropas (Corpo Expedicionário Português) para a Primeira Guerra Mundial, sem a devida preparação nem equipamento adequado.
Trai-se por acção e por omissão: por acção, fazendo; por omissão, deixando por fazer. Nenhuma das formas é mais ligeira ou mais desculpável do que a outra, sendo as duas condenáveis por igual.

D. Miguel traiu D. Pedro IV (acção), Dona Carlota Joaquina traiu Dom João VI (acção), O Cardeal Dom Henrique traiu Portugal ao não reconhecer o Prior do Crato como legítimo herdeiro da Coroa (omissão). El-Rei Dom Carlos foi assassinado à traição (acção). São quatro exemplos que dão razão a Camões: “Alguns traidores houve algumas vezes” sem que isso queira dizer que somos um povo de traidores (somos mais um povo de aduladores).

Diz-se, também (dizem os entendidos), que a Carta Constitucional legada por Dom Pedro IV, foi a melhor lei fundamental que Portugal já teve até hoje. Saudosismo, amor primeiro, ou reminiscências de um passado romântico que repousa há cerca de duzentos anos nos pergaminhos dos arquivos? E se Dom Pedro IV tivesse prometido uma constituição (ainda que na forma de carta) e não a tivesse outorgado? (traição por omissão). E se aqueles que juraram a Constituição da República não cumprirem o juramento? (traição por omissão). Para trair, portanto, não é preciso praticar o acto, basta nada fazer para que o acto seja praticado: o ladrão que fica à porta, é tão culpado como o que vai à horta!

Portugal tem pouco mais de cem anos de República e quase oitocentos anos de monarquia, mas não é uma questão de Monarquia ou de República, de esquerda ou de direita, do partido “A” ou do partido “B”, é uma questão de honra e de princípio, é uma questão de ética, de valores morais, de dignidade e de hombridade: a dignidade não se compra, um homem não se vende!

Falar em actuação pelo “superior interesse nacional”, praticando actos por omissão (como os que foram praticados), permitindo que a nossa “Magna Carta” (ou uma das suas sucessoras) não fosse mais do que um legado sem valor “de jure”, parece-me um acto de completa e vã gratuitidade: um acto que a só a inexistência da figura do Guardião pode tornar explicável.

O Guardião que não existiu nos últimos anos.

O Guardião que parece voltar a existir.

Um País sem Guardião é um castelo sem Castelão!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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