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O Meu País

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E a Terra Pára Para Todos?

O Director de curso é sempre uma figura que fica na memória de qualquer um e este, pelo seu ar macambúzio, espessos óculos de lentes grossas e um corpo atarracado, aliado a uma maneira de falar muito peculiar, principalmente caracterizada por alguma timidez e gaguez, ficou obviamente na lembrança de toda a gente. Era frequente, para além dos alunos que se riam às escondidas dos seus tiques e das suas deixas nas aulas quando não sabia o que havia de dizer, “Um oscilador serve para oscilar” e “Uma resistência serve para resistir”, os outros professores também gostarem de mandar as suas piadinhas ao Capitão director de curso.

Numa das aulas de Física, ministradas por um professor civil que era engenheiro, discutiam-se os movimentos sismológicos da terra, como consequência ou causa dos seus movimentos de rotação e de translação. Era uma daquelas pausas que os alunos gostam muito porque não se dá matéria e se está na diversão, e o professor porque estava na diversão e não tinha que dar matéria. Tudo estava perfeitamente equilibrado, aliviando o pouco interesse dos alunos com a falta de vontade de trabalhar do engenheiro professor.

E se a terra parar no seu movimento de translação – perguntou o sábio da turma, aluno já conhecido de outras aventuras – Bem, o mais provável – respondeu o Engenheiro – é que seja atirada para o espaço e vá colidir com outro qualquer planeta ou asteróide ou sei lá, desintegrar-se. Eu acho que não – disse um dos outros – se a terra parar de girar em volta do sol, fica simplesmente parada e não acontece nada, a diferença é que fica noite permanentemente para uns e dia permanentemente para outros, Mais opiniões, pedia o Engenheiro a saltitar de contente com o rumo da discussão, esfregando as mãos e batendo as palmas, porque já sabia que naquele dia não ia dar aula. Eu acho que – dizia outro – o movimento de translação só pode parar se todo o Universo parar, já que o cosmos se rege pelas mesmas leis físicas, Não deixa de ter razão – concordava o Engenheiro – mas no contexto da nossa discussão interessava-nos mais saber apenas em relação à terra e não em relação ao universo em si, porque essa seria uma discussão de âmbito muito mais alargado.

Então e se parar no movimento de rotação? – voltava o sábio ao ataque – Bem, aí a coisa é completamente diferente, respondia a comunidade de alunos falando e gesticulando para estabelecer ainda mais a confusão e tentar impor a razão de cada qual. Uns defendiam a existência imediata de terramotos, de movimentos sismológicos intensos e completamente destruidores, outros partilhavam a teoria das ondas gigantes, dos maremotos e da absorção da terra pelo mar, do nivelamento da superfície, da extinção imediata de toda a espécie de vida por colisão total. Outros ainda, a pura e imediata autodestruição por desintegração. Não ia sobrar nada, nem sequer pó.

No meio da acalorada discussão entrou o director de curso e como não bateu à porta (nem tinha que bater), perguntou de chofre, O que é que se passa aqui, isto é que é uma aula de Física? Ainda bem que chegou senhor Capitão – disse de imediato o engenheiro – vai ajudar-nos a formular uma opinião para uma questão levantada onde ninguém está de acordo, Qual... qual é a questão? – perguntou hesitante e não convencido o Capitão, É o seguinte – esclareceu o engenheiro –, estamos a discutir as consequências para a toda a espécie de vida e matéria se a terra parar repentinamente no seu movimento de rotação. Toda a assembleia calou vozes em suspenso. O Capitão tirou os óculos de grossas lentes, mordeu nas hastes, primeiramente na esquerda e depois na direita, ajeitou a pasta debaixo do braço, voltou a pôr os óculos, tirou de novo, voltou a morder a haste direita, revirou as sobrancelhas, fez que tossiu e disse finalmente quase murmurando, O que é que acontece se a terra parar...O engenheiro ouviu e repetiu, Sim, se a terra parar, o que é que acontece, Bem... – recomeçou o Capitão – e...e...a terra pára para todos?

Gargalhada geral, acrescentando o engenheiro, Olhe senhor Capitão, dessa resposta ninguém se tinha lembrado, mas também deve ser levada em conta.

E o Capitão foi à sua vida sem dizer ao que tinha vindo.

 

António J. Branco, In, Figuras de Cera

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