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O Meu País

O Meu País

Esta (Não) é a Ditosa Pátria Minha Amada

Um professor de história que tive há cerca de vinte anos – Major Pereira de Carvalho – apresentou aquela que considero, até hoje, a melhor definição de Pátria: Terra de Antepassados. E é. E não há melhor definição, pelo menos no meu entendimento ou pelo menos por enquanto (também no meu entendimento).

Terra de Antepassados, embora sendo expressão curta constitui um universo composto por pessoas, feitos, ideias e ideais. Tudo o que foram, tudo o que fizeram e tudo o que deixaram por fazer. Que ficou registado, que ficou na história; na história das pessoas do país e nas pessoas de um país com história.

Desde Afonso Henriques que assim é. Todos os que por aqui passaram estão nos livros da História: os bons, os maus, os menos bons e os muito maus. Todos contribuíram para aquilo que hoje somos, todos fazem parte da nossa Terra de Antepassados, da Pátria cantada e enaltecida por poetas como Camões ou “enegrecida e amaldiçoada” por Jorge de Sena. Os dois mostrando sentimento e cada um cantando a sua verdade.

É uma Pátria estranha, esta que herdámos de Dom Afonso. Pelo menos esta que hoje assim se nos apresenta. Pelo menos esta que deixou de moldar os homens em torno de ideais e o passou a fazer, ou a deixá-lo fazer, apenas orientado por ideias: pequenas acções de momento, destinadas ao imediato à vista sem terem em conta a abrangência futura, o horizonte lá longe para o qual é preciso levantar os olhos do chão, “desagrafando-os” do umbigo de cada um.

É uma Pátria injusta, esta que se rege por nivelamentos negativos – se um tem e outro não tem, não se dá ao que não tem; tira-se ao que tem. Esta que quer impor igualdades mantendo diferenças, esta que não sabendo honrar os seus heróis, se entretém a produzir mitos de plástico em noites e dias nublados sem nevoeiro; como se Sebastião voltasse ou como se valesse a pena voltar.

É uma Pátria anónima, esta que coloca nas ruas – toponímia – placas de identificação sem dizer quem foram, quando nasceram, quando morreram e o que fizeram para que figurem ali, despertados e entardecidos, mas imortalizados pelo tempo. Não estão todas as ruas e avenidas assim identificadas, mas são muitas, são demais.

É uma Pátria hipócrita, esta que se ocupa em discussões abortadas, misturando direitos com deveres; consciência individual com liberdade de decisão, realidade com ficção, dicotomias com simbioses, vida com morte, nascença com vivença.

É uma Pátria inculta e ignorante, esta que vive da memória de impérios desencontrados e de glórias perdidas e passadas, ignorando a história ou esquecendo a memória: Uma história sem memória nunca poderá ser a memória da história.

É uma Pátria afogueada, triste e amargurada, esta que tão bem sabe fingir, que tão bem sabe olhar para o lado, que assobia descontraída, que se estende ao sol de Agosto, que está (sempre) de consciência tranquila, que se “almofada encadeirada” à secretária, que ensurdece e enrouquece ao telemóvel, que conduz nas estradas melhor que todos e melhor que ninguém, eremitando-se e anoitecendo-se em abismos e falésias de praias nuas, diluídas no voar aleatório de gaivotas desnorteadas, perdidas e desencontradas.

É uma Pátria opaca, esta que se verga à violência conjugal de senhores feudais e, quando pode libertar-se, se curva ainda mais para que as vergastadas não deixem desiludidos os usurpadores de sonhos.

“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, fizestes o que devíeis, ela o que costuma” (Padre António Vieira) . É uma verdade muito ingrata, não é?! É como a Pátria!

Talvez esta (já) não seja, “a ditosa pátria minha amada” (Luis Vaz de Camões) nem o “torpe dejecto de romano império” (Jorge de Sena), talvez esta (já) não seja a Pátria que eu mereço ou que me merece.

Mas é esta a minha Pátria, é esta a minha Terra de Antepassados.

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

 

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