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O Meu País

O Meu País

Eu (Não Religioso) Me Confesso

Sou nascido, criado (ainda não abatido), crescido e amadurecido em território continental português, onde “é de lei” domingar com roupa lavada e ir à missa antes ou depois de almoço.


Sou filho de pais casados pela igreja (não vi mas acredito), baptizado em pia baptismal (sim, guardaram-me aquela coisa branca com que me vestiram) e já fui muitas vezes à missa.


Durante a instrução primária, tinha de inventar pecados para contar ao padre Abreu naqueles dias em que ele se deslocava à escola para confessar as criancinhas (as criancinhas não têm pecados, mas nós tínhamos).


Participei, em anos que já lá vão (alguém algum dia teve apenas dezoito anos?), em muitos encontros e iniciativas paroquianas, sobretudo porque o padre da paróquia (João Avelino) sabia “dar a volta” à juventude da aldeia (naqueles dias eu era jovem e vivia numa aldeia, juro!).


Fui a Fátima (mais que muitas vezes), não propriamente rezar mas acompanhar familiares que rezavam. Dessas muitas vezes, duas foram a pé e fiquei com dores nas pernas e nos pés e nos braços, mas a alma tranquilizou-se na paz do dever cumprido.


Estudei num colégio interno, numa comunidade da ordem de São João Baptista de La Salle onde era obrigatório ir à missa ao domingo de manhã (pois, ficava lá ao fim de semana a expiar as culpas do corpo) e engolir sem mastigar a hóstia sagrada que sobrava da caixa, que o grupo de assalto não conseguia comer durante a visita clandestina à sacristia (a rapaziada dizia que sabia bem mas nunca provei. Provei o vinho e era bom, os padres são bons enófilos - não tem nada a ver com os padres "dófilos").


Casei pela igreja (padre João Avelino, tinha de ser) e os meus filhos foram pabtizados também em pia baptismal (para me vingar, guardei-lhes também aquela coisa branca com que foram vestidos).


Continuei a ir à missa mas num processo de "alzheimerização" acelerado que me foi fazendo esquecer que algum dia me havia lembrado do que significava aquele acto (até que deixei de ir, pronto).


Gosto de entrar em igrejas, basílicas, catedrais e afins, sobretudo para apreciar a arte, o estilo, a frescura e o silêncio (quando está pouca gente, claro) que se respira entre aquelas paredes.

Fui e sou amigo de alguns padres (muito poucos, mas sou), pela sua parte humana, completamente dissociada da componente religiosa.

Não matei ninguém (não matarás), nem roubei (só outros ladrões), nem menti (aquelas mentiras pequeninas e piedosas não contam) nem isto nem aquilo excepto comer muito quando gosto e tenho fome (Gula). Quanto aos outros pecados mortais, faço-me esquecido da lista (a tal conveniente "alzheimerização" em estado galopante).


Julgo, portanto, reunir todas as condições para ser um bom cristão católico, apostólico e romano.


Mas não sou. Se calhar nunca fui. Talvez nunca tivesse querido ser.


Já não vou à missa (já tinha dito isto?), já não consigo ouvir a lenga-lenga dos padres (excepto aqueles dois de quem sou amigo e que são generosos a pagar uns copos), nem ver as reportagens do centro comercial de Fátima (agora nem de avião lá me apanham), nem a conversa da treta do cardeal patriarca nem os fingidores da generosidade nem os vendedores de milagres a dez por cento dos rendimentos, nem os fundamentalistas do islão nem os “arábicos”, os hindús, os jihadistas, os istos e os aquilos que tenham a ver com religião. (Ponto).


Gosto do Papa Francisco (ou pelo menos daquilo que ele representa relativamente à igreja católica tradicional).


A religião tem sido, desde que o homem e a mulher começaram a reproduzir-se, a maior fonte de discórdia e de conflitos, de guerras, de mortes, de perseguições, de condenações e de martírios.


Talvez acredite em Deus (num Deus).


Mas não acredito na religião (em nenhuma delas).


Não sei como seria (ou teria sido) se não houvesse religião. Há quem diga que, não temendo o poder divino, o homem (e a mulher, claro) teria ainda um comportamento mais agressivo e destruidor. Não conseguimos fazer esta comparação porque sempre vivemos debaixo deste temor e medo do poder divino e do seu consequente castigo (ou prémio).


Mas é tempo de tentar.

António J. Branco

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