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O Meu País

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Major Felício (O Chuchas)

Para além dos dois professores já mencionados, mais a Besta que só conta como tal, impõe o rigor do bom contador de histórias que se fale também do Major Felício, algum tempo depois conhecido pelo Chuchas, professor que leccionava a disciplina de Transmissões e era um castiço, diziam todos. Inimitável nos gestos e na sabedoria, não que gesticulasse muito ou que fosse detentor de conhecimentos supremos, mas por ser uma pessoa bem-disposta, que sabia fazia rir. Um dos seus processos para fazer rir, embora de modo não voluntário, era fingir que sabia muito da matéria e de imediato os alunos fingiam que se interessavam, e “quando assim é”, como gostava de dizer e de repetir, está tudo em paz e sossego e ninguém é enganado. Até porque na correcção dos testes não era sovina e toda a gente, ou quase toda, tinha notas acima da média geral.

O Major Felício, assim chamado porque sim e porque enfim e porque se entende que não deve ser aqui transcrito o nome verdadeiro, dado que isso seria atentatório da moral, dos bons costumes e do respeito pelas pessoas, era essencialmente uma pessoa já ultrapassada no tempo e no espaço. No tempo porque já estava quase a atingir a idade da passagem à reforma, e no espaço porque continuava a defender e a tentar ensinar conceitos obsoletos.

- Major Felício: Uma vez na Guiné...

Para quem já leu livros de banda desenhada do Tio Patinhas, certamente se terá deparado com a lengalenga em que o dito recorda os seus tempos de mineiro, “Certa vez lá no Klondique...”. Facilmente se verifica, portanto, o quanto saudosista o senhor era e o quanto ultrapassado estava, no tempo e no espaço tal como se disse, porque estas realidades confundem-se e completam-se, não existindo uma sem a outra.

Os seus auxiliares de instrução, os tais acetatos ou transparentes de que dispunha para ilustrar a aula, eram em tudo idênticos aos de outros professores e nisso, valha-lhe Deus Nosso Senhor[1] nada há a culpá-lo, porque era o que havia, já que as modernices das apresentações gráficas em Power Point, tão em voga actualmente ainda não tinham sido inventadas ou se tinham não estavam divulgadas e se estavam, não eram ainda conhecidas, e mesmo que estivessem divulgadas e fossem conhecidas, não havia computadores para tal e volta tudo ao princípio. O facto é que os acetatos ou transparentes, colocados em cima do retroprojector, eram os mesmos desde há uma boa dúzia de anos[2]. Descobriu-se tal, porque o Major Felício um dia em jeito de desabafo, confessou que aquele material era herdado do antigo professor da cadeira, daí ter algumas dificuldades em ler as letras que lá estavam escritas, não só porque era de outro autor, como também porque muitas palavras já estavam esbatidas e apagadas pelo rapa, põe, tira e deixa, que constituía o ritual de tirar do caderno de argolas, colocar na máquina e voltar ao caderno e isto provoca desgaste como se sabe. Como dizia frequentemente que já estava no Instituto há mais de doze anos, primeiro como assistente da cadeira e depois como professor, e promoções para a aqui e promoções para ali[3] e fulano de tal já é Coronel e eu (ele), ainda sou major, isto enfim é só fazer contas aos anos que os acetatos tinham.

A primeira grande contestação aos seus ensinamentos surgiu um dia quando tentou explicar um dos meios de transmissão usados modernamente naquela altura e que era, dizia o Major, o fac-símile. Tinha a mania de lhe chamar aquele nome esquisito e confundia os alunos com tal aparelho, pois estes só conheciam o moderno Faxe (em finais da década de oitenta e princípios da década de noventa ainda era moderno), sem sequer saberem que este mais novo era filho do outro mais velho. Mas como Felício dizia fac-símile, é assim que o episódio tem de ser contado, até porque o compromisso do narrador é transmitir os textos tal como lhe foram contadas, e sendo o narrador homem de palavra, assim se cumprirá. A primeira questão foi logo levantada pelo Sargento aluno Gabriel, que quando ouviu aquela palavra esquisita, perguntou de chofre.

- Sargento aluno Gabriel: O que é isso, o fac-símile?

- Major Felício: Se você estiver calado e me deixar explicar, já vai saber o que é.

E deu início à explicação da máquina.

- Major Felício: Para transmitir, precisa de outra máquina igual ligada ponto a ponto, tem baixa velocidade de transmissão, não é segura e a qualidade é fraca. Ao ouvir esta prosa logo alguém disse:

- Alguém: Então mas isso é o como o Faxe, só que o Faxe transmite depressa e tem boa qualidade.

- Major Felício: Faxe, o que é isso?

- Alguém: Então, é a máquina que o senhor está a falar, mas com outras características mais evoluídas.

- Major Felício: Se você a conhece como Faxe o problema é seu, aqui está escrito fac-símile e é assim que eu dou a aula.

Mais ou menos nesta altura, já as filas de trás estavam na galhofa e no deboche, ninguém se entendia e, para aumentar a confusão, uns eram a favor do Major e outros eram do contra - é sabido que tal acontece sempre que as coisas se dizem a duas vozes -, e era nestas alturas que o Major fazia aquele gesto à boca, que o tornou suficientemente célebre para ganhar a alcunha de Chuchas. Sendo difícil de explicar sem desenho (limitações do narrador), imagine-se uma boca larga como a dele, a estender os lábios (dois, entenda-se), a toda a largura da boca, não em forma de assobio mas em bico de pato, e depois a enrolar o de cima sobre o de baixo, numa luta contínua em que nenhum podia perder e os dois queriam ganhar. Tal gesto nem tinha forma de chucha, mas foi com tal albarda que ficou conhecido. Sobre o fac-símile não se chegou a conclusão alguma, a não ser uma deixa do major.

- Major Felício: Vá com essas teorias para o teste, que depois logo se vê se é Faxe ou se é fac-símile!

E no dia do teste, para evitar erros de interpretação técnica, ninguém chamou Faxe ao objeto e fez-se a descrição por completo como constava nas escrituras.

Outra discussão surgida mais ou menos na mesma altura mas noutra aula, teve a ver com o satélite, suas características, vantagens e desvantagens e, bem entendido, os acetatos eram os mesmos, logo, lá vinha mais informação atrasada no tempo e no espaço, porque o homem antes de começar a debitar sabedoria sobre o satélite, contava primeiro as histórias da Guiné, onde como único meio de transmissão, só dispunham do Telex (o Fac-símile ainda não tinha sido inventado), e as mensagens eram todas de alto grau de precedência e mais isto e mais aquilo e depois o sistema entupia e às vezes até para requisitar ténis para um torneio de futebol se fizeram mensagens com grau de precedência Relâmpago[4]

- Major Felício: Devia ser para o pessoal não jogar descalço.

Depois ria e os alunos riam também, porque enquanto todos riam ninguém chorava e estava tudo bem-disposto.

- Sargento aluno Gabriel: Então e o satélite?

- Major Felício: Voltemos lá então ao satélite. Uma das grandes desvantagens do satélite é que precisa de redundância para funcionar.

- Alguém: Desculpe senhor Major, redundância é o quê?

-Major Felício: Redundância... bem, quer dizer, o satélite precisa de redundância, porque se não, não funciona, e um satélite não funcionando não serve para nada, nem faz falta nenhuma.

- Alguém: Está bem, mas o que é a redundância?

- Major Felício: Bem, vamos lá a ver, redundância é... quer dizer...enfim...o satélite precisa dela.

- Sargento aluno Gabriel: Assim como é que vamos perceber essa desvantagem?

- Major Felício: Ó meu amigo, sobre isso não há problema nem há dúvidas, ponha-me lá no teste que o satélite tem como desvantagem a necessidade de redundância e eu considero-lhe a resposta certa.

- Alguém: Está bem, mas já agora, gostava de ver isso esclarecido.

- Major Felício: Olhe e eu também, eu vou ver isso melhor e depois explico-lhe, mas é garantido que o satélite precisa de redundância para funcionar.

Sem mais discussão, todos ficaram convencidos, ninguém percebeu, mas toda a gente disse que sim.

 

[1] Não se devendo invocar Este nome em vão, que Deus em perdoe

[2] Talvez uma dúzia de quinze anos ou mais

[3] É sabido que os militares quando não têm nada que fazer falam de promoções!

[4] O mais alto grau de precedência na transmissão de mensagens

 

©  António J. Branco, In, Figuras de Cera

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