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O Meu País

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Máquinas (e Actos) de Peregrinar

Peregrinar.jpg

Peregrinação, numa definição convencional, é um acto (normalmente uma viagem) realizado por uma pessoa (sem prejuízo de o ser em grupo) crente (ou com fé numa determinada religião), até a um local considerado sagrado (para a respectiva crença).

Peregrinação, é o título da obra em que Fernão Mendes Pinto relata as suas aventuras quando percorreu o Oriente (século XVI), numa época em que este era “interdito” aos ocidentais.

Peregrinação, foi, também, a designação atribuída aos desfiles de fim de tarde realizados pelas avenidas da Expo98, cujas máquinas de peregrinar deliciaram o imaginário de cada um de nós, não só pela ousadia do seu desenho e construção, como também pela fantasia que sabiam (souberam) transmitir.

Peregrinação, num conceito analógico ou mesmo alegórico, pode ser um acto ou uma viagem virtual pelo mundo dos sonhos, tendo como ponto de partida a fantasia  e como ponto de chegada a imaginação; ou o inverso, tanto se viaja fantasiando como se peregrina imaginando.

Numa outra perspectiva, podemos considerar que a peregrinação implica, ou a utilização de meios próprios de locomoção (pernas, pés e afins) ou de máquinas de peregrinar: objectos mecânicos que nos transportam com menos esforço até ao local pretendido. Mesmo não tendo fé nem sendo crente (nem a tal sendo obrigado).

“Modernamente nos tempos actuais”, alguns políticos, principalmente aqueles que fingem actos de fé (ou que os deturpam) orando a um deus que nas alturas estava (ainda estará?) teoricamente mais perto dos pobres desgraçados que dos ricos refastelados, chamaram Geringonça à máquina governativa que nos ajuda a peregrinar pelas ousadias de uma vida que, para muitos, há alguns anos o deixou de ser, sendo apenas meta inatingível em peregrinação sem chegada, sem vontade e sem força. Sem nada!

“Bem-aventurados os que sofrem, porque serão consolados” e “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”, são duas das sete bem-aventuranças anunciadas pelo Filho do Deus. O Deus que os fingidores da fé tanto apreciam, mas que tanto, ao mesmo tempo, contrariam pelos actos praticados, numa peregrinação em que a máquina de peregrinar nem sequer é uma geringonça mas sim uma aleivosia travestida de amor ao próximo, sendo este não o que dele se aproxima mas o seu interesse material pretendido.

“À esquerda do pai”, a perdição; à direita, a perfeição. É este o pensamento da “casta superior” de uma sociedade decadente, estruturada em conceitos de quimérica religiosidade, que brinca com os sentimentos “dos humildes” fazendo de cada um e de cada qual, não os simples de coração das bem-aventuranças mas os mansos inertes de uma sociedade agrilhoada a tradições de “panos e de cajados”, sem que os aguilhões do boieiro façam estremecer o animal.

Peregrinar? sim. E porque não? Desde que essa peregrinação nos leve por caminhos de aventura com prazer, de combate com satisfação, de conquista com luta, de lágrimas com sorrisos, podemos peregrinar pela vida, pelos caminhos e pelos sonhos. Não nos cortem o pensamento – “não há machado que corte a raiz ao pensamento" – deixem-nos, pois, viajar pelas ameias da vida sem que as catapultas de lapela nos esmaguem as nossas máquinas de peregrinar.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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