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O Meu País

O Meu País

Memorial a José Afonso

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Saudades pelo adeus precoce.
Do Homem – Músico, cantor e poeta – que mandou vir mais cinco;
Que mandou trazer outro amigo;
Que tinha um menino de oiro, de oiro fino;
Que para além de sonhar com a liberdade ao Mundo a vontade.
Saudades da triste partida.
Daquele que cantava as baladas, que pegava na guitarra e entoava as palavras;
Que encantaram gerações e fizeram tremer os mentores de um regime apodrecido
de indecência e de injustiça e de dignidade subtraída:
Um Rouxinol do Choupal, que deixou nascidas, sementes de sempre eterno!
Admiração pelo olhar ao longe.
No horizonte do céu cinzento (sob o astro mudo), com acordes repetidos
Em memórias plenas de história…
…E em história repleta de memórias.
Como franjas rendadas da inquieta perseverança que semeou
Na frieza da verdade inquieta,
Percorrida no país que ajudou a renascer,
Passeando a esperança acontecida daqueles que, desesperançados,
Morreram de desalento perdido numa Terra sem arco-íris:
Numa terra de silêncio, lavrada e cultivada do medo que venceu.
Trinados de saudade.
Por Aquele que se escondeu na simplicidade de ser gente;
Na hombridade dos que não se deixaram tombar vencidos nem jazer em fossos de noite abafada…
…Apesar dos que comeram tudo não deixaram nada.
Mesmo tendo vivido apenas treze anos rodeado de cravos vermelhos.
Anos de febre a arder.
No confronto de ideias não cimentadas e cremadas:
Em branqueamentos de inverdades que os movimentos cíclicos da história impõem.
Em que os homens de má vontade nos querem fazer crer…
…Que as memórias das guitarras são Grândolas sem terra de fraternidade!
Emoção de voz tremida.
No receio e na saudade dos que subindo pelas veredas,
Das nuvens avermelhadas de pôr-do-sol, se tiveram que esgueirar
Por entre os raios de fogo que, mergulhados em águas azuis do mar salgado, um dia se fez português.
Daqueles que - como tu, - por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando!
Uivos de vento assobiando as palavras,
Que cantaste em tempo de escuridão por entre os vampiros da noite calada;
Por entre os mandadores de um povo adormecido à sombra do que não foi,
De um povo adormecido sobre as glórias do passado...
Foi tão perto o adeus precoce.
Para a terra D’Além deixando na memória das gerações multiplicadas,
Um legado de rimas e de palavras, entoadas entre os salgueiros dos riachos
Que nos enchem a vida de trinados sinuosos,
Erguidos ao céu por cantares de rouxinóis e de toutinegras reais, porque…
…Aqueles que partiram, nem sempre são os que não ficaram.

António J. Branco, In, Heróis do Meu País

 

 

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