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O Meu País

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O Boi Falante

Durante os anos lectivos de 1970 a 1974 (sim, sou do século XX), estudei num colégio interno pertencente à irmandade de São João Baptista (na altura ainda era mesmo Bapetista) de La Salle, também conhecido como Salesianos.

Ao contrário da maioria dos frades irmãos (eram frades que vestiam batina preta com colarinho branco rachado ao meio mas chamavam-se irmãos) que eram também professores, o irmão (deles e de nós, os alunos) director não dava aulas. Ou se dava, não me lembro, e faça de conta que não dava mesmo.

Mas falava…

…Falava que se fartava!

E quanto mais falava mais nós (e alguns irmãos, dele e nossos) bocejávamos e rezávamos (pois é, naqueles dias éramos obrigados a rezar) para que a conversa (uma quase homilia em jeito de sermão de Santo António aos peixes) terminasse de uma vez opor todas porque, invariavelmente quase sempre, o irmão director decidia falar ou antes do almoço ou um bocadinho antes do fim das aulas: escolhia uma sala e pronto, lá entrava sorrateiro, curvado para frente em estilo de pregador andante e o irmão que estava a dar aulas calava-se, cedia-lhe a secretária e a cadeira (os irmãos naqueles dias eram muito fraternos) e lá vinha discurso sobre a arte de bem estudar e aprender em qualquer livro.

Falava um misto de castelhano com português mas nunca perguntava se a gente percebia tudo o que ele dizia, até porque se perguntasse, nós, para além das rezas, tínhamos de ir de seguida à confissão. Se não percebíamos o que irmão dizia, não era porque ele falasse mal e despercebidamente mas simplesmente porque a conversa não interessava: O irmão director só era amigo quando passava no corredor e dizia “Bom-dia”, se dissesse mais qualquer coisa estava tudo estragado e, ou havia correctivo posterior do tribunal constitucional da comunidade – o irmão director de turma – ou chegávamos atrasados às aulas e lá vinha cruz a vermelho no livro do professor que também era irmão mas não perdoava faltas – naqueles dias marcavam-se faltas aos alunos que faltavam; coisa esquisita, não é?

Nunca percebi para que é que servia um irmão director que só falava quando devia estar calado, pelo menos aquele (depois vieram outros que sabiam falar às multidões) que, não dando aulas (combinámos que não dava mesmo, certo?) cada vez que falava, enterrava-se no pântano afundando-se nas areias movediças da apreciação moral dos confrades (os confrades eram os alunos).

Já naqueles dias, os confrades esperavam do director palavras sábias sem serem desensaibidas, fosse lá em que língua fosse. A um director (ou chefe, ou presidente) exige-se-lhe, não que saiba falar muitas línguas, mas que conheça a língua que nós falamos.

Aquele não conhecia!

Chamávamos-lhe o Boi Falante…não sei se ele sabia!

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