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O Meu País

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O Cu do Comandante

rtm-1935.jpgEm Mil Novecentos e Noventa e Um, concluído o Curso de Oficiais, regressei ao mesmo quartel de onde havia partido, tendo-me sido atribuídas funções na mesma área técnica que tinha  (telecomunicações). Pensava (sem ninguém me ter mandado fazê-lo), que os chefes que mandavam mais do que eu que mandava menos (quase nada) me estimavam e admiravam muito reconhecendo-me competência naquilo que sabia fazer, mas afinal não foi bem assim. De qualquer maneira, isso é assunto para outra narrativa que agora não vem ao caso. Quem não ficou nada satisfeito com a atribuição de funções foi o camarada (na tropa somos camaradas) Jójó (diminutivo de Jorge, para os amigos), que sem mais nem menos se viu atirado para uma área administrativa onde as complicações eram mais do que muitas. Nas suas atribuições diárias, o Jójó tinha frequente necessidade de trabalhar em estreita ligação com um dos capitães mais antigos (mula velha), da velha guarda e chato como potassa, um sim senhor amém, que contava mais coisas ao comandante, que o guarda Proctor ao Capitão Harris (série de filmes Academia de Polícia, para quem não saiba). Por seu lado, o comandante mais depressa lhe dava ouvidos a ele, do que se predispunha sequer a dar o benefício da dúvida a um de nós acabados de formar, que era o meu caso, e que era o caso do Jójó. Muitas vezes os comandantes ouvem o que querem ouvir e não aquilo que precisam de ouvir.
A correspondência quando entra num quartel é directamente encaminhada para o sítio certo: a secretaria, onde o respectivo Chefe a abre ou manda abrir, e depois de visada pelo comandante, é reencaminhada às respectivas sub-unidades. Adivinhe o leitor (se o houver) quem era o chefe do sítio certo. Esse mesmo, aquele que, neste contexto, fazia de Guarda Proctor. No entanto o JóJó não gostava de fazer de alferes ultrapassado, melhor exemplificando, não gostava de receber a correspondência da sua área tal como todos os outros (sempre depois de), entendendo e muito bem, que havia determinada correspondência, principalmente a ligada à área de segurança e informações (a que chefiava), que devia ser levada por ele ao comandante e não pelo velho Proctor Augusto.
Um dia, Jójó descobriu na mesa do Proctor um desses papéis que lhe diziam directamente respeito e achou por bem fazer valer logo ali os seus direitos de Chefe das Operações Segurança e Informações, “Isto quem leva a despacho ao comandante, sou eu”, disse o Jójó, “Nem pense, quem faz o despacho da correspondência sou eu”. “Mas o senhor não vê que isto é assunto directamente relacionado com operações e segurança, não tem nada a ver com pessoal”, “Já lhe disse o que tinha a dizer”.
O Jójó saiu e foi circular escada acima e escada abaixo, não para queimar calorias mas tempo, sempre à espera de apanhar o Proctor desprevenido e, sem testemunhas, retirar o papel que lhe interessava para o levar a despacho ao comandante em vez do “mula” Augusto. Mas teve azar, quando voltou à secretaria já o capitão ia caminho do gabinete do comandante, e pela conversa escutada à entrada da porta, apercebeu-se que estavam a falar de si sem ele estar presente (nas suas costas subentenda-se), precisamente sobre o assunto que entendia dizer respeito apenas à sua secção. Deambulou pelo corredor a remoer vingança (de novo a queimar tempo) e pronto para atacar a “besta” quando ela saísse. Quando se apercebeu que a conversa estava a chegar ao fim, foi-se aproximando da porta e, assim que o Augusto pôs o nariz de fora, perguntou-lhe de chofre, “Então, já foi meter tudo no Cu do Comandante?”, “O que é que você quer dizer com isso”, “Quero dizer que você não perde uma para bufar, já lhe foi meter tudo no Cu, já?”, "Ó pá você é doido deixe-me em paz”.
O capitão Augusto afastou-se mas o comandante, dentro do gabinete, ouviu o alarido no corredor e assomando à porta disse, “Ó senhor alferes, o que é que se passa, a mim ninguém me mete nada no Cu”, “Ó meu comandante, não foi isso que eu quis dizer, eu queria dizer era que...”, “Você foi bem claro, mas fique a saber que a mim ninguém me mete nada no Cu”.
Que fique registado, portanto, que no Cu de um comandante, ninguém está autorizado a meter o que quer que seja!

António J. Branco, In, Figuras de Cera

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