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O Meu País

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O Cu do Comandante

Quando acabei o Curso de Oficiais, regressei à Base de onde tinha partido, tendo-me sido atribuído em funções a mesma área técnica de antes. Pensava (sem ninguém me ter mandado fazê-lo) que todos me estimavam e admiravam muito reconhecendo-me competência naquilo que sabia fazer, mas afinal não foi bem assim. De qualquer maneira, isso agora é outra conversa que não vem ao caso. Quem não ficou nada satisfeito com a atribuição de funções foi o camarada Jójó (diminutivo de Jorge, para os amigos), que sem mais nem menos se viu atirado para uma área onde as complicações eram mais do que muitas e os cavalos difíceis de domar - uma área administrativa, delicada e crítica. Nas suas atribuições diárias, o Jójó tinha frequente necessidade de trabalhar em estreita ligação com um dos oficais mais velhos, mula velha, da velha guarda e chato como potassa, um sim senhor amém, que contava mais coisas ao comandante que o Lulu do Capitão Picado contava ao dono. Por seu lado, o comandante mais depressa lhe dava ouvidos a ele, do que se predispunha sequer a dar o benefício da dúvida a um de nós acabados de formar, que era o meu caso, e que era o caso do Jójó.

Muitas vezes os comandantes ouvem o que querem ouvir e não aquilo que precisam de ouvir.

A correspondência quando entra numa Base é directamente encaminhada para o sítio certo: a secretaria, onde o respectivo Chefe a abre ou manda abrir, e depois de visada pelo comandante, é reencaminhada às respectivas secções. Adivinhe-se agora quem era o chefe da secretaria. Esse mesmo, aquele que desta vez fazia de Lulu. No entanto JóJó não gostava de fazer de alferes ultrapassado, melhor exemplificando, não gostava de receber a correspondência da sua área tal como todos os outros, sempre depois, entendendo e muito bem, que havia determinada correspondência, principalmente a ligada à área de segurança (a que chefiava), que devia ser levada por ele ao comandante e não pelo velho Lulu Teixeira.

Um dia, o Jójó descobriu na mesa do Lulu Teixeira, um desses papéis que lhe diziam directamente respeito, e achou por bem fazer valer logo ali os seus direitos de Chefe das Operações, Isto quem leva a despacho ao comandante sou eu, disse o Jójó, Nem pense, quem faz o despacho da correspondência sou eu. Mas o senhor não vê que isto é assunto directamente relacionado com operações e segurança, não tem nada a ver com pessoal, Já lhe disse o que tinha a dizer.

O Jójó foi circular para queimar tempo, sempre à espera de apanhar o Lulu desprevenido e, sem testemunhas que pudessem comprovar, retirar o papel que lhe interessava para o levar a despacho em vez do capitão mula velha. Mas teve azar, quando voltou à secretaria já o chefe tinha ido a caminho do gabinete do comandante, e pela conversa escutada à entrada da porta, apercebeu-se que estavam a falar de si sem ele estar presente (nas suas costas subentenda-se), precisamente sobre o assunto que entendia dizer respeito apenas à sua secção. Deambulou pelo corredor a remoer vingança e pronto para atacar a “besta” quando ela saísse.

Quando se apercebeu que a conversa estava a chegar ao fim, foi-se aproximando da porta e, assim que o Teixeira pôs o nariz de fora, perguntou de chofre, Então, já foi meter tudo no Cu do Comandante? O que é que você quer dizer com isso, Quero dizer que você não perde uma para bufar, já lhe foi meter tudo no Cu, já? Ó pá você é doido deixe-me em paz.

O Teixeira afastou-se mas o comandante, dentro do gabinete, ouviu o alarido no corredor e assomando à porta disse, Ó senhor alferes, o que é que se passa, a mim ninguém me mete nada no Cu, Ó meu comandante, não foi isso que eu quis dizer, eu queria dizer era que...Você foi bem claro, mas fique a saber que a mim ninguém me mete nada no Cu.

E que fique registado, que no Cu de um comandante, ninguém está autorizado a meter o que quer que seja!

António J. Branco, In, Figuras de Cera

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