Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Meu País

O Meu País

O Major Murmansk

Um outro professor carismático que completava o Corpo Docente do Instituto, era o inconfundível Major Pereira, que também não escapou à sanha cruel das alcunhas a rigor, atribuídas pelos seus dedicados e afectivos alunos. Leccionava a cadeira de História e Geografia Militar e o seu método de ensino era bastante peculiar mas sentia-se que tinha conhecimento, que é como quem diz, sabia o que dizia e o que ensinava. Atribuíram-lhe a alcunha de Murmansk.

Contava-se, entre conversas de bar e de corredor, que tal “albarda” foi mandada publicar porque um dia, numa qualquer aula, se lembrou o Major Pereira de pendurar um mapa na parede e ter falado sobre Murmansk, que é como toda a gente sabe e se não sabe fica agora a saber o que o narrador transcreve de seguida:

- Major Pereira: Um Porto de mar no noroeste da Rússia, no mar de Barents, com uma população de cerca de quinhentos mil indivíduos. É a maior cidade no Árctico, o porto de pesca mais importante da Rússia e a base das unidades navais e dos quebra-gelos que mantêm a passagem do Noroeste aberta.

Foi mais ou menos isto que deve ter dito na altura, já que não há gravações da aula e esta informação, embora sendo de rigor, foi copiada na altura destes escritos de uma enciclopédia universal, que afinal é para isso mesmo que tais existem, e assim se fica a saber sem que dúvidas haja, o que é que tal Murmansk era.

Mas porque os alunos da altura nunca tinham ouvido falar de tal ou se tinham simularam ignorância, estranharam de tal maneira aquele porto de mar, aquele Murmansk, que logo decidiram atribuir o seu nome como alcunha do Major, em sua honra e assim lhe prestando homenagem.

E foi tão bem aplicado, “Em verdade vos digo”, porque ainda hoje o conserva.

A Cadeira de História e Geografia Militar não tinha livro, nem aconselhado nem determinado. Baseava-se apenas em apontamentos fornecidos pelo professor, que se resumiam a fotocópias dos seus meios auxiliares de instrução como se diz na tropa: simples  transparentes (acetatos) escritas à mão em linhas a tinta preta, grossas, enviesadas, tortas e sobrepostas. Mas era o que havia e tinha de ser aproveitado.

Ao fim das duas primeiras semanas, invariavelmente de Curso para Curso, fazia-se o primeiro teste de avaliação de conhecimentos. Nesta Cadeira, ao contrário das demais, não havia propriamente testes intercalares - as habituais frequências - e o exame final, em Julho, mas sim, mini testes de dez minutos no fim de cada aula, e sempre em resposta a uma questão sobre os ensinamentos que tinham sido debitados nessa aula. Mantinha-se, é bom de entender, a figura do exame final em Julho. A maior dificuldade em responder aos mini testes, nem sequer era à pergunta em si, mas sim, adivinhar para que lado é que o professor estava virado na altura da correcção, sendo frequente um aluno ter tido uma boa nota na pergunta da aula anterior e depois noutra do mesmo estilo, ter precisamente o contrário. Nada era linear, muito menos favas contadas ou notas garantidas. Mas todos os processos têm as suas falhas e mais tarde ou mais cedo, um aluno atento e de mediana perspicácia, aperceber-se-ia do truque necessário para fazer funcionar mais eficientemente a avaliação. Um dos processos mais eficazes consistia em transcrever uma ou outra frase dita pelo professor durante a aula e juntar-lhe em jeito de tempero, uma citação de pessoa importante ou gente famosa. Camões funcionava sempre e Salazar era por si só garantia de sucesso. Deste, para quem conhecesse e se lembrasse da frase, “Sei muito bem o que quero e para onde vou”, e a soubesse enquadrar no texto, tinha não só garantida uma boa nota como também o respeito do Major professor. Respondida a pergunta numa aula, esperava-se pela correcção na aula seguinte e, quando ainda inexperientes na matéria, era com ansiedade que se aguardavam os resultados para constatar se a mensagem tinha ou não sido entendida.

Quando na aula seguinte, as folhas da pergunta da primeira aula começaram a ser distribuídas, logo os primeiros sinais de desânimo se fizeram notar. Cinco e dez eram as notas mais populares, e se é sabido que a nota dez já chega, cinco é bem pouco. Mas recordemos um dos casos, aquele que melhor divulgação mereceu.

O Carlos H. e o Manuel F. Estavam na mesma fila de secretárias, um a seguir ao outro. Na altura da entrega das folhas do primeiro mini teste, riam-se como os outros, da desgraça alheia, quando os camaradas diziam cinco ou dez, conforme a nota de cada um. Ora, quando o Carlos H. Recebeu a folha da sua pergunta, vendo a nota inscrita e comparando-a com os valores que já tinha ouvido relativamente a outros, ficou eufórico, pleno de satisfação, e vendo tal alegria não contida, de imediato lhe perguntou o outro.

- Manuel F: Pá, quanto é que tiveste?

- Carlos H: Quinze, e tu?

- Manuel F: Trinta.

- Carlos H: TRINTA?! Porra, isso é impossível!

- Manuel F: É pá, é o que está aqui!

E dali para a frente foi todo um universo de notas estranhas, porque havia desde zero até sessenta, e o mistério só se desvendou no fim da aula quando o Major Murmansk disse:

- Major Pereira: Isso são notas em percentagem, meus senhores!

Os papéis que o Major Pereira entregava como apontamentos, disponibilizados em acetatos para os alunos fotocopiarem a cinco escudos cada um, tiveram essencialmente três fins bem diferentes, qual telenovela brasileira, campeã de audiências e olhos de água. Assim, depois do exame e no final do ano lectivo, cada aluno fazia a limpeza dos aposentos à sua maneira: ou vendia as fotocópias em bloco já organizado e encadernado aos alunos do novo primeiro ano, o que resolvia logo ali um problema importante de quem comprava porque ia precisar, e um problema importante de quem vendia porque se livrava da papelada - opção mais utilizada -; ou os despejava no lixo – opção menos comum. Insólito foi o caso de um aluno que, pacientemente, carregou o pacote de fotocópias até à Estação de Comboios de Santa Apolónia, em Lisboa, e o ofereceu de prenda ao homem das castanhas.

Em plena época de “Quentes e boas, sempre a assar”, a dois passos do Arquivo Histórico Militar, compravam-se castanhas à dúzia, embrulhadas em papel Murmansk, com brinde de história militar.

Consta-se, no entanto, que as vendia ao mesmo preço de outras embrulhadas em simples papel de jornal.

 

António J. Branco, In, Figuras de Cera

5 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D