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O Meu País

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O Último Instruendo a Entrar na Caserna

Beliches.png

 Já tinha soado o Toque de Silêncio quando, na caserna onde dormíamos (não me lembro da capacidade mas devíamos ser cerca de trinta instruendos) em beliches, uns por cima e outros por baixo (como é usual dormir em beliches), mas cada um na sua cama, quando, abruptamente, a porta da caserna se abriu com estrondo, “Estou farto desta merda”, foi a voz que, sem pedir licença aos que dormiam ou desculpa aos que faziam massagens aos olhos para tal, se ouviu da mesma forma abrupta com que a porta deixou de estar fechada.

Luzes acesas (ao gritador de serviço não lhe bastou dizer o que pensava em voz grossa e tom zangado), passos pesados contra o chão de mosaicos e membros superiores em movimento acelerado em várias direcções (esbracejava, portanto), o soldado instruendo do Curso de Sargentos Milicianos  (idos de Março/Abril de Mil Novecentos e Setenta e Sete) que chegara mais tarde (quase tarde de mais, última abertura do portão) à caserna onde os camaradas chegaram mais cedo, teimava em divulgar a sua liberdade de pensamento. “Estou farto desta merda, isto é tudo uma merda, quero que se foda esta merda”, continuava o Instruendo do cume do seu corpo não muito alto e bigodinho traquinas de vinte anos (ou mais ou menos).

Acordados tanto os que dormiam, como os que ainda não tinham adormecido, começaram as reacções, umas a achar piada aos desabafos e outras nem por isso, porque numa caserna onde pernoitam cerca de trinta pessoas (ainda que sendo, na altura, apenas soldados instruendos), seria utopia pretender atingir o pleno da concordância quer quanto a uma, quer quanto a outra situação. Para que o gritador (que tinha bebido uns copos a mais) se calasse e deixasse de fazer barulho, cujas consequências poderiam sobrar para todos (é conhecida a forma como na tropa o colectivo paga pelo individual) alguns dos camaradas chamavam-no à atenção, “Pá, olha o sargento-de-dia, ainda lixas a malta toda”, “Quero que se foda o sargento-de-dia”, “Olha que o oficial-de-dia é o capitão xis” – xis é designação inventada pelo narrador – (ao que constava, o capitão “xis” não era “bom de assoar”), “Quero que se foda o oficial-de-dia, quero que se fodam todos, estou farto desta merda, vou-me embora, vou p’ra casa”, continuava sem dar ouvidos a quem (forçadamente) o ouvia.

Repentinamente, tal como tudo começara, fez-se silêncio da parte de todos os instruendos menos de um que continuava a debitar descontentamento, repetindo as mesmas frases que o narrador, por decência (não está com os copos), se coíbe de reproduzir por desnecessário ao entendimento dos eventos. À entrada da porta da caserna, estavam, um de mãos nos bolsos e outro de mãos na cintura, em posição de observação directa, o sargento-de-dia e o oficial-se-dia, que todos os instruendos viam menos um que não via, porque caminhava em sentido oposto, divulgando os seus desabafos. Talvez porque, mesmo com um copito a mais, tivesse estranhado o súbito silêncio, virou-se (até porque tinha chegado ao fundo da caserna) o camarada em sentido oposto e olhando-se frente a frente (ele e os dois graduados de serviço), enfrentaram-se durante alguns segundos. “Tem algum problema nosso instruendo”, perguntou o oficial-de-dia (se a pergunta não foi assim foi parecida), “Eeeeuuu?, nãããoooo, ia já apagar a luz para me deitar”.

Luzes apagadas, deitou-se o “criminoso” e retiraram-se os graduados de serviço tão silenciosamente como tinham surgido. A assembleia não se pronunciou mais quanto aos factos e dormiu-se até às sete da manhã, hora da alvorada.

O assunto, tal como tinha “nascido”, “morreu” ali, naquela noite: Há coisas, factos e consequências que só quem os vive, os consegue compreender, provando que o espírito de corpo ainda existe (ou existia).

O instruendo em causa seguiu a carreira militar e é hoje oficial.

António J. Branco, In, Figuras de Cera

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