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O Meu País

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Obviamente, Demito-me!

Bater com a porta.jpg

A demissão do General Carlos Jerónimo, face a desentendimentos com o Ministro da Defesa Nacional fez-me viajar pelo meu passado (e também algum presente) militar.

Quando em Mil Novecentos e Setenta e Sete, entrei na Escola Prática de Cavalaria para assentar praça (como voluntário), numa das primeiras palestras, o Comandante de Esquadrão (ou o Comandante de Pelotão, que se me perdoe a lacuna de memória) disse, claramente, algo como isto: “A política fica fora dos muros do quartel, aqui não há partidos políticos”. E toda a instrução decorreu sem sombra de política.

E uma parte da minha vida militar decorreu sem sombra de política…

…Uma parte porque, a partir do início da década de noventa, a política começou a dar entrada nos quartéis: não pela Porta de Armas, não pelo “portão norte” (ou o saudoso Portão Chaimite na EPC, em Santarém) e nem sequer pela “Porta do Cavalo”, aquela porta sem localização definida que serve para entrar e sair disfarçadamente (às escondidas) sem que ninguém se aperceba mas que todos sabem.

A política entrou pela Porta Grande (quiçá a maior de todas): pelos estados-maiores dos ramos.

Na verdade, a partir do momento em que os Chefes militares passaram a ser nomeados por opção política, deixaram de exercer (na prática) um cargo de exclusividade militar, para exercerem um cargo em part-time político de natureza militar. Ao tempo, chamou-se ao “mentor espiritual” de tal alteração legislativa, o Cabo Nogueira (era ministro da Defesa Nacional, Fernando Nogueira). Por esses dias, o General Loureiro dos Santos (Chefe do Estado-Maior do Exército) bateu com a porta, não estava para aturar um “cabo” que queria brincar com a tropa. Mas o “nosso cabo”, com a complacência e apoio (sinónimos?) do então Primeiro-ministro, Professor Aníbal Cavaco Silva (sim, aquele que foi elogiado pelo actual Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas no momento da despedida de PR), conseguiu o seu grande feito e meteu (como um qualquer João Soldado) a tropa dentro de um saco (João Soldado meteu o diabo). Mesmo com a discordância do então Presidente da República, Dr. Mário Soares, que não quis (ou não conseguiu) impor a sua vontade soberana enquanto comandante supremo das Forças Armadas.

E a partir daqui a história é conhecida (embora até aqui também fosse): Os Chefes militares sucedem-se em subserviência política sempre à espera que um termine para outro iniciar. Calados (caladinhos que nem ratos, como diz o povo) enquanto detentores do poder (pelo menos de algum poder), deixam que a família militar se degrade num contínuo movimento de “cada vez pior”, culpando aqueles (os políticos) perante quem se baixaram e curvaram até baterem com o nariz no chão. O afastamento gradual das carreiras de referência (Juízes e Professores), os cortes nos vencimentos, a aplicação da CES (Contribuição Extraordinária de Solidariedade) para os militares reformados (uma dupla penalização que não souberam ou não quiserem contrariar), a degradação do sistema de saúde, a ingerência no IASFA (Instituto de Acção Social das Forças Armadas) e, mais recentemente, a “proibição” pelo novo EMFAR (Estatuto dos Militares das Forças Armadas) do uso e porte de arma, são alguns exemplos. Chegaram até a ser acusados de actuarem com ilegalidade na aplicação do último sistema remuneratório. Algum (dos chefes militares) deu “um murro na mesa”? Não! Algum se demitiu perante tal acusação? Não!

Trocou-se a dignificação de carreira por promoções (para um efectivo de pouco mais de vinte mil militares temos o dobro ou o triplo dos generais que tínhamos durante a guerra colonial) e perdeu-se o respeito da sociedade civil.

Retomando o inico do escrito: Nada, absolutamente nada, coisa alguma, do que é dito pelo subdirector do Colégio Militar na sua entrevista, configura discriminação pela instituição relativamente à orientação sexual dos alunos. O que é dito (e até com muito cuidado), é que os alunos (os outros) se afastam daqueles que têm uma orientação sexual diferente (os homossexuais) e pronto. Mais nada. E isto é tão verdade como a água correr de montante para jusante. E não se altera por decreto nem com o politicamente correcto. Quem esteve mal foi o ministro que devia de imediato ter-se (ele sim) demitido. Mas…

…Mas a culpa não é dos ministros da defesa, nem do governo em funções, nem dos partidos políticos e nem sequer da Assembleia da República, a culpa é toda, inteirinha, completa, dos próprios militares, que tão servilmente se foram deixando enxovalhar.

A tropa (o Exército, pelo menos) tem neste momento a grande oportunidade de sair de dentro do saco em que foi metido, basta que para isso a recusa em tomar posse, por parte dos generais que vierem a ser convidados para tal pelo MDN, não seja apenas uma ideia peregrina!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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