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O Meu País

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Os Pais da Democracia

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De entre as várias fontes disponíveis para ler e interpretar a história, há uma que é inquestionavelmente superior e vantajosa relativamente às restantes: trata-se da história de memória viva – aquela que é contada pelos que nela tomaram parte, quer do lado dos que fizeram acontecer, quer do lado dos que assistiram aos acontecimentos.
Das outras fontes – textos, achados arqueológicos, crónicas, relatos, monumentos, gravuras, pinturas, esculturas – sabemo-lo, cada historiador faz a sua leitura segundo aquilo que lhe parece ter sido, adaptado às suas convicções: ou porque os autores não foram suficientemente explícitos nas suas narrativas ou porque, tendo-o sido, há sempre alguém ou alguma coisa que o contraria de modo a podermos (o historiador poder) atribuir-lhe a nossa (do historiador) interpretação.
Quanto à história de memória viva, aquela que é contada e vivida por quem nela tomou parte, as leituras e interpretações só diferem se, em vez de história sem memória, se fizer uso da memória sem história. Simplificando (ou tentando simplificar), a história e a memória são indissociáveis (inseparáveis) e têm de coexistir em permanência: não podemos recordar-nos apenas do que nos convém nem esquecer o que nos desagrada.
Concretizando o escrito:
Há cerca de quarenta e três anos, deu-se um Golpe de Estado (forças do estado que se voltam contra ele) em Portugal, que o povo transformou em Revolução (adesão maciça da população, acompanhada de transformações profundas) no próprio dia dos acontecimentos. Conhecido oficialmente como Movimento das Forças Armadas (MFA), ficou para a História como a Revolução dos Cravos, mas percebemos perfeitamente uma ou outra designação. Este golpe de estado (ou Revolução), terminou (fez terminar) com quarenta e oito anos de vivência em regime ditatorial – o núcleo político manda, os outros obedecem e o povo não tem voz. Pacífico entender isto, julgo!
Quem fez o Golpe de Estado foram os militares (os detentores da força), não foram os políticos (refugiados ou não) nem os simpatizantes da democracia, nem os descontentes com a “Primavera Marcelista” (que nunca passou de Inverno disfarçado de Outono) nem as alas liberais da ANP (Ação Nacional Popular, “partido” único) e, muito menos, os “cronistas do reino”.
A luta dos políticos – Mário Soares, em concreto – foi importante? Foi, e muito! Mas, mesmo tendo em conta a justeza e reconhecimento desta luta: o que sofreram, as condenações a que foram sujeitos, a perseguição, a supressão da liberdade, o roubar da esperança, isso não chega (porque não é factual) para reconhecer a um ou outro o título de “Pai da Democracia”, como recentemente “ouvimos” chamar ao Dr. Mário Soares nos dias em que decorreu a sua homenagem (justa) e cerimónias fúnebres (merecidas).
Claro que, também não é de justiça (é, aliás, uma tremenda injustiça) o tipo de acusações levianas, absurdas e mentecaptas (a maior parte das vezes em modalidade de “copiar e colar”) que, principalmente nas redes sociais (o reino dos “heróis” escondidos) foram feitas ao Dr. Mário Soares. Mas, por este caminho nem me meto mais, tal a alarvidade das inverdades que, sem memória, se enterram em lodaçais sem História. Hoje, é tão fácil falar em liberdade…
O Dr. Mário Soares “marchou contra os canhões”? Sim! Mas quem os ergueu para devolver a esperança e liberdade de pensamento ao povo, entregando-lhe aquilo que é seu por direito intrínseco, foram os militares. E a partir de mil novecentos e oitenta e dois, muitos deles (quiçá a maioria) caiu no esquecimento enfrentando não a merecida glória pelos feitos que fizeram e pelo que arriscaram, mas a perseguição silenciosa da instituição militar que nunca lhes perdoou a ousadia de um dia terem ousado.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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