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O Meu País

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Um Formador em Construção

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Comecei a gatinhar pelas técnicas e métodos pedagógicos há cerca de vinte anos: Numa primeira fase entre os espaços encaixilhados do meio militar – chamava-se (e chama-se) instrução militar –, mais tarde, numa segunda fase, já em ambiente civil, na modalidade de formação profissional e, numa terceira fase, libertado das amarras que me “atavam ao leme”, em regime de ensino e educação, a jovens que pretendiam obter a habilitação académica equivalente ao nono e décimo segundo ano.
Deste percurso com mais de vinte anos, percorrido entre o marcar passo na parada, o interior das quatro paredes de uma sala de formação e o mesmo espaço em regime de ensino – curiosa esta distinção entre formação e ensino e/ou, entre aluno e formando – cicatrizaram-se-me marcas que, nem amargamente nem docemente pretendo ou quero apagar.
Fui aprendendo a ensinar afastado das teorias das Ciências da Educação (hoje já conheço algumas), não porque as menosprezasse mas, simplesmente, porque as não conhecia, socorrendo-me da minha experiência de viva, não só das vivências do meu próprio percurso académico – é verdade, também eu, um dia, estive sentado nos bancos da escola a fazer bonequinhos enquanto os professores debitavam sabedoria – como também dos professores que aprendi a respeitar pela competência com que exerciam “a sua cruz”. Lembro-me dos que, ao tempo, considerava maus mas, com muito mais facilidade e satisfação, me lembro daqueles cujo carisma e perfil, punham “em sentido” uma turma inteira, transmitindo a sua mensagem com a leveza de quem, pisando algodão ou flocos de neve, avança no seu caminho sem que as marcas fiquem vincadas: para se caminhar com segurança, não é preciso bater com os pés no chão.
Foi assim que me tornei num “stôr”: eu, que nunca verdadeiramente fui bom aluno, ainda transpirando os salpicos da disciplina militar, encontrei-me frente a frente com um “novo inimigo”, os jovens de cabelos multicolores, com pírcingues em todo o lado e mais algum, de calças descaídas pelas nádegas e linguajando um dialecto que só ao fim de algum tempo consegui assimilar com êxito. E foi tão fácil trabalhar com esta gente, foi tão fácil “tê-los na mão” – há sempre excepções de casos “perdidos” que querem mesmo perder-se – afinal, para os cachopos, putos, miúdos, chavalos ou como se prefira designar este universo, apenas basta ser humano e tratá-los como tal.
Mais tarde, por razões que conheço mas que não importa aqui “rezar”, “perdi” os jovens e fiquei, quase em exclusividade, com os adultos da Formação Pedagógica Inicial de Formadores: um Formador que “veio do mato”, estava (estou) agora, a ensinar os outros a aprenderem a ensinar.
Mas neste patamar as coisas complicam-se, o sistema nervoso baralha-se, o cérebro (já um bocadinho lento) preguiça, as ideias nem sempre saem fluidas e escorreitas, entortando e ziguezagueando o discurso para áreas mais escorregadias que a as areias movediças dos filmes de terror de grau menos três. E nem sempre as coisas correm bem…
Pensei em desistir desta área de formação? Sim, pensei…
…Mas ao fim de cinco minutos, “despensei” e dispensei o que antes tinha pensado e voltei de novo ao “local do crime”: uma, duas, três vezes e outras tantas mais umas quantas.
Formar pessoas, qualquer que seja o escalão etário em que se incluam, é, ao mesmo tempo, um risco e um privilégio: o primeiro, pelo inesperado de cada situação que não conseguimos prever, o segundo, pelo sorriso de satisfação com que muitas vezes somos brindados.
A actividade do Formador é, afinal, viajar pelo espaço da pedagogia, tendo como ponto de partida a sua experiência e como ponto de chegada a transmissão e receptividade do seu conhecimento.
O resto é, apenas, Um Formador em Construção!

António J. Branco, In, Toque de Campaínha

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