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O Meu País

O Meu País

A Diamantino Gertrudes da Silva: Obrigado meu Coronel.

Prefácio (Toque de Silêncio)

 

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Primeiro, o toque de alvorada, que é aí que começa mais um dia; depois, toque para a 1ª refeição e outro logo a seguir para formar; toque para alto aos trabalhos da manhã e fecho de portas e portões; toque para a 2ª refeição e depois para voltar a formar; toque de ordem que parece que leva uma vida inteira para chegar; toque para a 3ª refeição e umas horas depois para o recolher, com mais uns tantos toques de permeio como o do render da guarda e o da entrada do reforço. Até parece uma vertigem, mas não é. È mais toques que outra coisa. Pelo meio, é bom de ver, metem-se uns trabalhos que nunca têm pressa de acabar, uns papéis que a seu tempo se hão-de ler, outros que se hão-de minutar e escrever para levar a despacho e fazer seguir ou arquivar. Há as rotinas de manutenção e reparação de armamentos, equipamentos e instalações. Há actividades de instrução, quando há, e, por vezes, treino operacional.

A meio da manhã e a meio da tarde há escapadelas ao bar, cada um ao da classe a que pertence, que também ainda não chegámos à Madeira e para bagunça já chegou a do Verão Quente. Há o jogo de cartas ou dos dados que por aqui se chamam cacos entre o almoço e a formatura geral do início da tarde. Há conversas, valha-nos isso, muitas conversas para reatar e continuar. Há fios e malhas de amizade e de camaradagem, também, que aqui se vão tecendo. Há golpes de rins, ódios e invejas de estimação. Há mostras de nobreza de carácter a ombrear com jogos de intrigas e safadezas que nunca mais se esquecerão. E há marcas, umas boas outras más, que ficarão para toda a vida. Há conflitos de gerações por causa da participação ou não na Guerra Colonial ou no 25 de Abril e também as devidas às novas tecnologias de processamento da informação com um biombo pouco transparente entre os que continuam obstinadamente a descarregar pauzinhos no Registo Geral e os outros que ali ao lado, com tiques de altivez, manipulam com aparente à-vontade o rato e o teclado do computador.

“O Exército é o espelho da Nação”.

E há, por fim, o “Toque de Silêncio”, momento mágico, esse sim, donde então emerge, como no Casablanca da tela, o nosso “Autor Escritor” com as suas “histórias de inventar”, a montar neste cenário de rotinas uma interessantíssima ficção que como tal passará, e muito bem, para quem não lhe conheça os traços fundamentais da sua vida real: a história de um miúdo que se faz rapaz, que de rapaz se fez sargento da tropa, e que daqui dá o salto para a rampa que o havia de levar ao oficialato, onde passa a usar o nome de Espírito Imaginário, e a gente até entende porquê.

Com ele emerge também um exótico elenco de personagens de que se faz acompanhar, umas reais outras de fantasia, as primeiras todas com nomes bem sugestivos e abrangendo as diferentes classes e categorias de uma normal unidade militar, a começar logo por um coronel comandante que se chama Mórbido, um tenente-coronel Calado, um tal major Criativo e outro que é Alegre, um capitão que é Convencido, outro que é simplesmente Curioso, outro que por qualquer razão ficou Ignóbil, ao lado de um outro que é Comum; capitães não faltam, e ainda vem aí um que foi Ultrapassado, logo seguido do alferes Imaginário que já sabemos que ainda há-de ser major. Depois vem um sargento-chefe Servil, afinal, como um sargento-chefe deve ser, que é o que também se poderá dizer do sargento-mor Obediente e um 1ºsargento que por enquanto dá pelo nome de Virtual. A fechar o cortejo, e assim é que está certo, vem o cabo Chico e o cabo Temporário e, por fim, sem qualquer disfarces ou nomes inventados, o soldado Salvaterra, um nome na tropa perfeitamente normal se, como parece ser o caso, for aquela a sua terra natal. Com as outras nem me meto, por pudor e respeito ao sagrado recanto do imaginário do “Autor Escritor”.

E, se calhar, esta coisa dos nomes deveria ser sempre assim: só serem postos depois de se saber qual a inclinação que a pessoa vai tomar. De outro modo ficamos como nos deixa José Saramago quando de um tal “Livro das Evidências” faz a seguinte citação: «Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens».

Haverá diligências, incumbências e outras ocorrências fora dos muros do quartel, o que não invalida o facto de o “Toque de Silêncio” ser, antes de mais e no essencial, uma crónica do quotidiano, um quotidiano muito peculiar, numa unidade militar em tempo de paz, de entendimento perfeito só ao alcance, portanto, de quem o pôde viver ou teve de suportar. E foi dessa vivência, e ainda bem, que o nosso “Autor Escritor” soube tirar o melhor partido, dando alento ao bichinho que dentro dele não parava de lhe pedir para escrever, oferecendo-nos aqui o resultado de um olhar extremamente atento, perspicaz e inteligente sobre a instituição militar, um olhar privilegiado de quem teve de subir todas as escadinhas que o levaram até ao ponto onde chegou. Extraordinário este olhar, se tivermos em conta que o autor não passou pela Guerra Colonial e era um rapazito no 25 de Abril. Extraordinário, ainda, porque a tropa que o autor conheceu e viveu é, afinal, tal e qual, quase sem tirar nem pôr, igual à que era antes daqueles magnos factos da nossa história contemporânea, o que parece vir acrescentar razões à tese subjacente do livro “A Psicologia da Incompetência dos Militares” (o título português não é feliz), segundo a qual esta instituição como, se formos a ver, outras similares têm no seu código genético gravados os específicos mecanismos e processos de conservação, manutenção e reprodução.

Mas o “Toque de Silêncio” tem um problema. Ou melhor, dois problemas de algum vulto: o cenário militar em que se desenvolve a narrativa, e que por razões já apontadas cria logo sérias dificuldades a um considerável universo de eventuais leitores que não tiveram de transpor a fronteira psicológica de uma porta de armas; e o outro que deriva de o autor ter de recorrer por vezes à linguagem necessariamente técnica da sua especialidade militar. Nada, mesmo assim, que não seja eficazmente ultrapassado pela escrita inteligente do autor, que sabe escrever para pessoas inteligentes, e que perante o pormenor, se for o caso, sabem seguir em frente sem perder a noção de que se o pormenor lá está é porque alguma importância há-de ter.

Nós, em contrapartida, não teremos qualquer dificuldade em ler este livro que aqui está. Ao fazê-lo, até sentiremos uma espécie de enlevo. Porque a matéria de que aqui se trata nos interessa de uma forma muito especial a nós, os militares, capitães de Abril ou não, enformados que fomos de “valores”, nem sempre bons, mas todos a convergir para aquele que é a matriz primordial de quem abraçou ou se deixou enlaçar pela instituição militar – o espírito de missão, sempre presente no livro do princípio ao fim.

Perante as dificuldades apontadas poderíamos ser levados a concluir, erradamente, que este livro e a sua temática de reflexão não irão interessar às novas gerações, não por serem melhores ou piores que nós, mas porque não tiveram a oportunidade de pisar os limites que separam a vida da morte, de sentir a pele em fogo com os salgados ardores do capim nas escaldantes terras tropicais, dos tremores de frio, no corpo e na alma, de uma emboscada montada de noite na bolanha. E a prova de que assim não será, aí está na pessoa do autor de “Toque de Silêncio” que sem pisar terras do ultramar se fez um militar de corpo inteiro e que não tendo podido participar na Revolução dos Cravos, se fez, por filiação, um genuíno Capitão de Abril.

E, chegado aqui, verifico que pouco ou nada disse sobre a valia literária deste livro. Não por chegar aos extremos do discurso de George Steiner quando afirma que «A invocação da teoria (…) na avaliação da literatura ou das artes (lhe) parece fraudulenta», mas porque o código normativo da literatura é um domínio que não domino, e isso é muito verdadeiro. Em boa verdade, e para pena minha, nem este nem o de outra qualquer forma de expressão artística. E, no entanto, não percebendo eu quase nada de música, isso não impede que por vezes, ao ouvir uma melodia, me deixe enrolar, levar e emocionar, se calhar, só porque tenho sentimentos que alguém teve o condão de despertar. Pois foi isso que me aconteceu ao ler o “Toque de Silêncio”, uma espécie de sinfonia com um tema central onde se inscrevem os sonhos, as angústias, as exaltações e alucinações de um “autor escritor” a perpassarem na tessitura de múltiplas variações, com momentos, muito frequentes, em que nos surpreendemos a dizer, sem ninguém ali por perto: «que bonito!», «que interessante!», «que forma tão linda de contar!...»

                                                         

Março, 2009

Diamantino Gertrudes da Silva

Estilo Manuelino Versus Estilo Marcelino

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No último quartel do século XV, foi aclamado como Rei de Portugal Dom Manuel I, O Venturoso, também conhecido pelo Afortunado e O Bem-Aventurado. Em poucas palavras: Dom Manuel I teve muita sorte (Ventura e/ou Fortuna) e soube trabalhar muito bem.

No primeiro quartel do século XXI, foi eleito Presidente da República o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que não tem cognome porque aos presidentes não se lhes atribui tal “apêndice”. Em poucas palavras: o Professor Marcelo fez pela vida (e pela sorte) e soube trabalhar muito bem.

Regista-se um empate.

Por má sorte (ou má fortuna) Dom João II, O Príncipe Perfeito, não teve descendência que garantisse a sucessão do Reino de Portugal.

Cerca de Quinhentos anos mais tarde, o Professor Marcelo não teve, verdadeiramente, candidatos “com força suficiente e bastante” para lhe fazerem frente numa eleição ganha antes de começar: Estava garantida ou, como se diz na gíria popular, estava “no papo”.

Outro empate.

El-Rei Dom João II – um verdadeiro estadista, quiçá o melhor até hoje – ao querer limitar o poder da nobreza teve de agir com astúcia, coragem e valentia no interior da sua própria corte, na qual, ele mesmo deu fim à vida do Duque de Viseu, seu cunhado (irmão de Dom Manuel I) que contra si conspirava. Após a morte (aos dezoito anos e de contornos esbatidos) do Infante Afonso, seu sucessor, Dom João II tentou que o reino fosse entregue ao filho bastardo (Jorge de Lencastre) sem que para tal tivesse tido sucesso. Diz-se que nesta desventura o seu cunhado Manuel (o que viria a ser O Venturoso) manobrou na sombra (bastidores) os bastantes (todos e suficientes) cordelinhos e pauzinhos da sua

Ventura. Dom João II sabia da astúcia do cunhado (e primo) mas como este nunca o afrontou nem menosprezou, acabou por, já moribundo (ou quase) e contrariado, entregar-lhe o poder.

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Quinhentos anos mais tarde, contrariando a vontade (não a explícita, mas a implícita) do presidente do seu partido, o Professor Marcelo candidatou-se à eleição para a Presidência da República, um trabalho iniciado cerca de dez anos antes, como “comentador do reino” na arte de bem dizer aquilo que os outros faziam (ou deixavam por fazer). Político ágil, astuto, inteligente, simpático e batalhador, não desistiu dos seus intentos ainda que tivesse sido apelidado de cata-vento de opiniões pelo presidente do seu partido (aquele que o aceitou não o querendo para tal).

Outro empate com Dom Manuel I: Ambos, na sua perseverança e agilidade astuciosamente paciente, souberam, passo a passo, construir o caminho da Ventura: um em direcção à Coroa de El-Rei, o outro em direcção à cadeira de Belém.

Dom Manuel I, ainda que tendo sido aclamado rei pela via indirecta, reinou vinte e seis anos e foi um bom Rei. Para além da sabedoria com que geriu os descobrimentos, deixou-nos o conhecidíssimo estilo Manuelino. Fica na história do lado dos bons, daqueles que Fizeram.

O Professor Marcelo (ao contrário de Dom Manuel) foi eleito pela via directa e, se a história se cumprir, presidirá por dez anos. Ao contrário do seu antecessor, esperemos que não fique na história do lado dos maus (mas ficará, certamente, ao lado dos “nadadores”).

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Sangue na Arena e Sangue na Estrada

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Portugal é um País de tradições, de boas e de más. Tal como os outros países, onde muitas coisas boas e más vão se tradicionalmente mantendo. Não conhecendo a realidade profunda dos outros países conheço, contudo, a do meu. Já vivi tempo suficiente para isso e já li que baste para tal, sem que este “isso” e “tal”, tenha pretensões de rigor absoluto ou de verdade inquestionável. Apenas de opinião própria, a qual me julgo, como cidadão e português, ter direito a emitir, mesmo sem ser perguntado.

As tradições, por muito que queiram preservar-se, têm de obedecer a critérios de rigor e de bom senso, sendo apenas de manter aquelas que não colidem com interesses alheios, sejam de pessoas ou de bichos. Todos os povos, em toda a parte do mundo conhecido, terminaram com tradições - não se vê na praça pública, defensores da educação espartana, nem de sacrifícios humanos. Recorde-se história bíblica de Abraão que quis sacrificar o próprio filho e os espetáculos romanos de circo, envolvendo  humanos e bichos. E também sangue, muito sangue! Onde estão (agora) os defensores destas tradições?

Seja que bicho for, ainda que boi com cornos, nascido e criado para ser touro, com quem os humanos se divertem nas arenas, espetando ferros ou correndo pelas ruas, à frente e atrás, nas largadas ou em touradas verdadeiramente ditas e pronunciadas.

A tourada tem origens que remontam à antiguidade, época em que o touro participava em ritos religiosos e em combates de circo, quer com humanos quer com outras feras. Em Portugal, podem distinguir-se dois tipos de manifestações taurinas desta tradição: A corrida popular, de cariz lúdico, efetuada a pé e por ocasião de festas, normalmente chamada, “Largada de touros”, e a corrida de tradição aristocrática, centrada no toureio equestre, cujos traços fundamentais do espetáculo se fixaram nos séculos XVII e XVIII, e da qual deriva directamente a tourada tal como a conhecemos hoje.

Em jeito de resenha histórica, pode dizer-se, também, que já D. Duarte, na sua “Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela”, descreveu as regras para montear, pelejar e tourear a cavalo. Depois dele, D. Sebastião, Rei, (mas por pouco tempo) também se manifestou pela sua perícia no toureio a cavalo tendo participado numa tourada em Évora antes da sua partida para Alcácer Quibir, que veio a ser uma tourada maior que a de Évora, e onde os seus dotes de toureio não lhe valeram para dominar o animal que quis enfrentar. Um erro histórico de estratégia (e de táctica), tal como a tourada, um erro histórico de tradição.

A tradição manda ainda que haja ferros compridos e ferros curtos: os compridos para castigar o touro, que é grande, feio, forte, mau e tem cornos, e os curtos para permitir a criatividade do toureiro, que é garboso, elegante, de boas famílias, bem vestido, inteligente e perspicaz. E monta cavalos inteligentes e bem treinados!

Depois vêm os forcados, os rapazes que se abraçam ao touro já cansado e o tentam dominar pela sua força, não bruta como a do touro, mas de artimanha como a dos humanos. E a tradição, é bom de ver, manda que a inteligência domine a bruteza.

Há ainda a chamada “corrida à antiga portuguesa”, espectáculo de opulência e luxo, onde os cavaleiros se apresentam em coches dos séculos XVII-XVIII, perante os peões e os forcados, e em cima de montadas luxuosamente arreadas, evoluem na arena saudando o público de frente, tal como de frente enfrentam o touro, o animal que tem a ousadia de usar o seu tamanho e força contra a inteligência do homem e a agilidade do cavalo.

D. Pedro II, para proteger os homens, ordenou que ao touro para lide fossem cortadas as hastes, que é como quem diz em linguagem popular, – não de rei – os cornos. Cornos estes (os dos touros, bem entendido) que passaram ainda a ser embolados (encapuçados) por couro, pele tirada e curtida de um qualquer animal da espécie! D. Miguel, outro apreciador de touradas, toureava e pegava. Foi ele o autor do decreto que proíbe a morte do touro na arena. Proibição que ainda hoje se mantém. Mas não para todos!

Com ou sem touros de morte, o sangue fica na arena, na areia e na rua, misturado com sangue de humanos “corajosos” que quiseram bater recordes desprezando a “morte das andorinhas” que não fizeram morrer a primavera.

Este sangue derramado inutilmente, é a prova do combate injusto e desleal, de que o homem – Português – que por esse mundo navegou enfrentando monstros e lendas, mantém, não a tradição de continuar a marear e a engrandecer o País com Barcas e Caravelas e Naus e Galeões, mas com ferros que mostram ao bicho que quem manda é o homem e que, de entre “Sangue, Suor e Lágrimas”, interessa muito mais o primeiro que os outros.

Não chega o Sangue na Estrada, provocado pelos animais condutores?

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Crónica dos "Apóstolos" Dementes

demencia_.jpgO Apóstolo Pedro (também chamado Simão) foi (reza a lenda) o primeiro Bispo de Roma e, consequentemente, o primeiro Papa. Consta-se que por trinta e sete anos exerceu tal cargo.

O ministro Pedro (presidente do conselho) foi (facto histórico) o primeiro chefe do governo a entregar ao seu sucessor o País mais pobre do que quando o recebeu. Sabe-se que exerceu o cargo ao longo de quatro anos e meio. Sabe-se que esteve envolvido em várias situações polémicas e duvidosas como a Tecnoforma e a falta de pagamentos à Segurança Social.

Mas a Comunicação Social não sabe!

O Apóstolo Pedro negou por três vezes estar com Jesus (e conhecê-lo) quando este foi preso em função do beijo de Judas. Quanto o galo cantou, Pedro deixando de negar, chorou arrependido.

O ministro Pedro negou as vezes que foram necessárias que prometeu o que não cumpriu e cumpriu o que não anunciou em função, não do beijo (vamos lá, o homem é mauzinho mas não tem ar disso…), mas do compadrio que o pressionou a alimentar-se de outro modo – é famoso e conhecido o mandamento, “Pedro está na hora de ir ao pote”.

Mas a Comunicação Social não sabe!

Quando o galo cantar (ainda só cantarolou ligeiramente) e o povo acordar porque são horas e o sol nasceu), Pedro deverá chorar, não de arrependimento, mas de medo que o cargo que já não tem o obrigue a lembrar-se daquilo que também negou e que diz ter-se esquecido ou não se lembrar muito bem (uma espécie de Alzheimer social).

O Apóstolo Paulo (também chamado Saulo) foi um perseguidor de Cristãos que se arrependeu a tempo e, deixando de exercer o privilégio de cidadania romana em Jerusalém, passou a ser “bonzinho graças a Deus”, não sem antes ter sido necessário cegá-lo durante três dias para  que pudesse, assim,  ver melhor o mundo dos homens.

O ministro Paulo (vice-rei da irrevogabilidade) foi um perseguidor de políticos que se arrependeu algures no tempo, quando viu chegada a sua hora de “ir ao pote” e, deixando de exercer o relato jornalístico, passou a ser “mauzinho graças a Deus” (o Deus dos maus, entenda-se), não sem antes ter sido necessário “trair” Dom Marcelo I, O Sabe Tudo beijoqueiro Afectuoso, na comum vontade de fazer ressuscitar, nos idos de Março dos anos noventa, a famosa AD dos anos oitenta.

O Apóstolo Paulo foi um dos mais influentes líderes do Cristianismo antigo, sendo-lhe atribuídas treze epístolas, das quais sete são contestadas por especialistas na matéria quanto à sua autoria.

O ministro Paulo foi um dos mais influentes "chefes" da direita portuguesa, sendo-lhe atribuídas muito mais que as treze epístolas do apóstolo, quer quanto à sua sagacidade e esperteza, quer quanto à sua navegabilidade em mares profundos, linhas vermelhas inultrapassáveis, irrevogabilidade revogável e outras cadeiras afins, todas com nota máxima nesta e noutras licenciaturas que fizeram dele especialista em caminhar sobre as águas sem ser necessário usar o caminho das pedras que Jesus (que ainda não sonhava transformar-se em Cristo) teve de revelar a Simão Pedro, o primeiro Papa (por dúvidas de interpretação quanto ao “aborto” ortográfico, não é Papá, é mesmo “Pápa”).

Desde o século I, acreditar nos feitos de Pedro e Paulo (os apóstolos), é um acto de fé que, não aplaudindo nem repugnando, não contesto.

Desde a mesma data (ou não, conforme der mais jeito), acreditar em Pedro e Paulo (os ministros grandes) ou em Miguéis de Loureiros Silvas (os ministros menos grandes) e afins, é  um acto de autoflagelação que, não aplaudindo mas contestando, repugna-me.

Mas a Comunicação Social não sabe nada disto, apenas manda tocar os arautos pelos desmandos do “inimigo”.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País.

 

 

 

Madrugada de Um País

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 A História é sábia e não perdoa. Ainda que não nos agrade e nos vergue a passados que não gostamos de lembrar e que nos envergonham...

O Golpe de Estado do Vinte e Cinco de Abril de Mil Novecentos e Setenta e Quatro, transformado no mesmo dia pelo povo em Revolução, acontecido há quarenta e quatro anos no País fundado por Dom Afonso Henriques, marcou um dos acontecimentos mais influenciadores da história do século vinte Português, protagonizada por uma das suas mais ricas gerações de militares. Muitos deles injustiçados, marginalizados, esquecidos, estigmatizados, emprateleirados e embrulhados na poeira inerte das coisas estagnadas.

A par da Revolução de Abril, a implantação da República marcou o fim de um ciclo e o início de outro: os dois acontecimentos com consequências diferentes, mas ambos com objectivos comuns: Instaurar a democracia. O processo que se seguiu a cada destes actos (considerando os insucessos verificados) não desvirtua nenhum dos dois.

Se na implantação da república, a turbulência que sempre marca as tempestades de um povo não habituado a pensar e a agir em grupo tendo por base pensamentos maioritários, acabou numa ditadura disciplinadora de finanças mas castradora de pensamentos, na Revolução de Abril a turbulência foi vencida em pouco mais de dois anos de finca-pé e de “euforia” à toa, dando lugar, lentamente e passo-a-passo, ao estado que somos hoje; “ao estado a que chegámos” por iniciativa dos homens que na altura com trinta anos fizeram aquilo que alguém, algum dia, teria de fazer. Hoje têm mais de setenta anos – alguns, porque outros ficaram pelo caminho: lembre-se Melo Antunes e, sobretudo, Salgueiro Maia. E se os homens deste País não fizerem justiça aos seus heróis (é conhecido costume da injustiça da Pátria), a história o fará um dia: implacável, indiferente e verdadeira.

Encontrei pelo caminho – pessoal e profissional – alguns dos homens que aos dezasseis anos marcaram a minha vida num dia em que as aulas deram lugar aos cantares, aos comunicados e à estupefacção geral por, também em Portugal, acontecerem coisas que só noutros países tinham lugar. Memorizei alguns dos nomes e, há uma dezena de anos atrás, um amigo comum – também ele Capitão de Abril – perguntou-me, apontando para o homem que tinha ao seu lado “Conhece”? “Conheço o nome, mas…”, disse eu, emendando de seguida, “Espere, é o … do Conselho da Revolução".

“Ainda há memória viva” e sorriu, desencantado pela ingratidão da Pátria, mas reconhecido pela memória do povo.

Estes Homens cumpriram aquilo a que se propuseram: terminaram e começaram, começaram e terminaram. O tudo por fazer e o tudo feito. Acabaram com “o estado a que chegámos” entregando o País à sociedade civil.

A partir daqui a História é outra e não é culpa dos Capitães, mas talvez seja da Pátria que continua a fazer o que costuma…

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Confissões de Um Antirreligioso

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Sou nascido, criado (ainda não abatido), crescido e amadurecido em território continental português, onde “é de lei” domingar com roupa lavada e ir à missa antes ou depois de almoço.

Sou filho de pais casados pela igreja (não vi mas acredito), baptizado em pia baptismal (sim, guardaram-me aquela coisa branca com que me vestiram) e já fui muitas vezes à missa.

Durante a instrução primária, tinha de inventar pecados para contar ao padre Abreu naqueles dias em que ele se deslocava à escola para confessar as criancinhas (as criancinhas não têm pecados, mas nós tínhamos).

Participei, em anos que já lá vão (alguém algum dia teve apenas vinte anos?), em muitos encontros e iniciativas paroquianas, sobretudo porque o padre da paróquia (João Avelino) sabia “dar a volta” à juventude da aldeia (naqueles dias eu era jovem e vivia numa aldeia, juro!).

Fui a Fátima (mais que muitas vezes), não propriamente para rezar mas acompanhar familiares que rezavam. Dessas muitas vezes, duas foram a pé e fiquei com dores nas pernas e nos pés e nos braços, mas a alma tranquilizou-se na paz do dever cumprido.

Estudei num colégio interno, numa comunidade da ordem de São João Baptista de La Salle onde era obrigatório ir à missa ao domingo de manhã (pois, ficava lá ao fim de semana a expiar as culpas do corpo) e engolir sem mastigar a hóstia sagrada que sobrava da parte que o grupo  de intrusos não conseguia consumir durante o assalto à sacristia (a rapaziada dizia que sabia bem, mas nunca provei. Provei o vinho e era bom, os padres são bons enófilos - não tem nada a ver com os padres “dófilos”).

Casei pela igreja (padre João Avelino, tinha de ser) e os meus filhos foram pabtizados também em pia baptismal (para me vingar, guardei-lhes também aquela coisa branca com que foram vestidos).

Continuei a ir à missa mas num processo de alzheimerização acelerado que me foi fazendo esquecer que algum dia me havia lembrado do que significava aquele acto (até que deixei de ir, pronto).

Gosto de entrar em igrejas, basílicas, catedrais e afins, sobretudo para apreciar a arte, o estilo, a frescura e o silêncio (quando está pouca gente, claro) que se respira entre aquelas paredes.

Fui e sou amigo de alguns padres (muito poucos, mas sou), pela sua parte humana, completamente dissociada da componente religiosa.

Não matei ninguém (não matarás), nem roubei (só outros ladrões), nem menti (aquelas mentiras pequeninas e piedosas não contam) nem isto nem aquilo excepto comer muito quando gosto e tenho fome (Gula). Quanto aos outros pecados mortais, faço-me esquecido da lista (a tal conveniente alzheimerização em estado galopante).

Julgo, portanto, reunir todas as condições para ser um bom cristão católico, apostólico e romano.

Mas não sou. Se calhar nunca fui. Talvez nunca tivesse querido ser.

Já não vou à missa (já tinha dito isto?), já não consigo ouvir a lengalenga dos padres (excepto aqueles dois de quem sou amigo e que são generosos a pagar uns copos), nem ver as reportagens do centro comercial de Fátima (agora nem de avião lá me apanham), nem a conversa da treta do cardeal patriarca nem os fingidores da generosidade nem os vendedores de milagres a dez por cento dos rendimentos, nem os fundamentalistas do islão nem os “arábicos”, os hindús, os jihadistas, os istos e os aquilos que tenham a ver com religião. (Ponto).

A religião tem sido, desde que o homem e a mulher começaram a reproduzir-se, a maior fonte de discórdia e de conflitos, de guerras, de mortes, de perseguições, de condenações e de martírios.

Talvez acredite em Deus (num Deus).

Mas não acredito na religião (em nenhuma delas).

Não sei como seria (ou teria sido) se não houvesse religião. Há quem diga que, não temendo o poder divino, o homem (e a mulher, claro) teria ainda um comportamento mais agressivo e destruidor. Não conseguimos fazer esta comparação porque sempre vivemos debaixo deste temor e medo do poder divino e do seu consequente castigo (ou prémio).

Mas é tempo de tentar.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Saudade do Tempo

imagem-texto-linha-do-tempo1.pngÉ um animal sem alma, uma qualquer coisa que nos envolve, que nos transporta para não sei onde e que nos retarda a ausência do sempre eterno.

Ao sentir saudade, apelamos à intervenção do tempo ido, à neblina amargada, ao vento esguio, às recordações choradas, à nostalgia desditosa, ao passado inerte, ao que já foi sem nunca ter sido, ao que não é e não será nunca. Ao que foi sem acontecer.
Tenho nostalgia de ti, ouvi um dia alguém dizer. Carreguei a frase, meditei no dito, embrulhei o conceito, olhei para mim que era o ti, procurei os “tis” da nostalgia e senti-me sozinho, com saudade, sem vontade. Com idade.
Vontade de navegar pelos dias, pelas agonias, pelas noites frias, sem tempo nem alento nem talento. É como olhar o rio, o escuro, o frio, o arrepio, as águas revoltas, envoltas, revoadas, tardias, fechadas, quebradas, marcadas, sofridas. Mentidas: olham-se as margens e vê-se a corrente e a areia, mas muitas vezes sem água nem rio.
Tempo, idade, saudade. Paramos no caminho, avistamos o horizonte, com a mão na fronte, o olhar no bolso, o brilho sem vida, a lágrima caída; esmorecida, amolecida, entristecida, chorada, magoada, ensanguentada.
Continuamos por aí: subindo outeiros, descobrindo encostas, resvalando em colinas, acreditando em sorrisos, decalcando crenças, coleccionando lembranças, escutando gritos, fingindo murmúrios, saboreando choros, ensaiando arrependimentos E alheando atitudes Embriagadas em mares temperados de oceanos e vendavais de arrepios e desfiladeiros de sonhos e escarpados de ilusões e páginas de multidões e gaivotas desnorteadas e rochas partidas em ondas desfeitas e desaguadas em praias intensas de só negro ver.
Brumando os que partiram, pelo tempo ido, pelo amor sofrido, pelo calor perdido, pelas mãos, pelas palavras, pelo carinho: desencontrado do caminho, carreiro vadio de giestas sombrias, apagado em moitas dispersas, secas e frias.
À espera: de um sol queimado de cinzento, de uma colmeia de cores ardida em verde fel, de um falso azul ofuscado em frágil céu, de um céu diluído em baço olhar, de um olhar afogueado em multidão. De uma multidão isolada em nada e só.
O pó na estrada: o dia apagado, a noite nascida, as estrelas esbatidas, o luar de Julho embaciado, os anos de tão longe, a saudade de nunca mais, as vozes de não falar, os sons de não ouvir, a raiva de não saber, o fracasso de não conseguir, a vontade de emudecer. A distância de continuar.
Hoje, amanhã, um dia, qualquer dia: qualquer tempo inquieto, qualquer hora tardia, qualquer momento fugaz, qualquer sopro de paixão num momento de ilusão, em tempo de não. Anoitecido em solidão.
Tenho nostalgia de ti: ao fim do dia, a meio da vida, no crepúsculo da viagem junto ao Tejo, longe do sonho, colado às rugas, pisando a margem, nublando o delírio. À beira da fonte, caído na estrada.
Tempo a mais, entardecido, saudoso da madrugada.

António J. Branco, In, Pensamentos e Desesperos.

 

O Homem do Leme

homem_do_leme.png“…E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”

O cortejo fúnebre de Zé Pedro – guitarrista fundador dos Xutos e Pontapés – saiu do Museu dos Coches ao som do Homem do Leme, um tema imortal que desapaga uma vida!
O Mostrengo é um poema “fortíssimo” de Fernando Pessoa que, em menos de trinta versos, simboliza a força de vontade e a alma de um povo na sua saga pela conquista dos mares a mando de Príncipe Perfeito (El-Rei Dom João Segundo) – provavelmente um dos melhores Estadistas de sempre da Nação portuguesa, independentemente da existência monárquica ou republicana!
Este poema faz emergir a determinação do Homem do Leme, alguém que, para além da sua força de vontade, tem associada a vontade de um povo, com a experiência de um comandante e a capacidade de motivação de Líder – É a partir destas três valências que nascem, vivem, crescem e não morrem eternamente, os Grandes Homens – Como Dom Afonso Henriques, Dom Dinis e Dom João Segundo (no regime monárquico) e, indubitavelmente, o General Ramalho Eanes no regime que poderemos considerar como a terceira república.
O Líder de um povo, aquele que, “movendo montanhas”, consegue aproximar os vales mantendo as suas distâncias e características, não é (nem tem de ser) o executor de “sentenças políticas” nascidas e inventadas (muitas vezes à pressa) para satisfação e gáudio de estratos sociais da “família” que lhe dá suporte sem que o Homem do Leme – aquele que ata as mãos ao dever sem olhar para as cores do arco-íris – consiga (ou queira) distinguir o Essencial do Acessório, a Estratégia da Tática, o Brio da Vaidade, a Arrogância da Humildade ou até, o Ego do Grupo.
Em cerca de oitocentos anos de Monarquia tivemos alguns reis que foram verdadeiros estadistas – visam combinada entre o presente vivido e o futuro para viver – mas, “de entre os portugueses, alguns traidores houve algumas vezes”. Por outro lado, em menos de quarenta anos de República em democracia (a 3ª República?) poucos foram os que se distinguiram pelos seus actos de ética, competência, hombridade e dignidade, arredando-se na maior parte das vezes engalfinhados em visões de um ganancioso narcisismo, promovendo apenas os frutos da árvore do seu quintal – um país de quintas e de quintinhas?!
O General Ramalho Eanes foi (repito) a Welwitschia Mirabilis do nosso Deserto de Moçâmedes, a água límpida da fonte de um povo que só de há pouco tempo a esta parte o começou a reconhecer como o melhor Presidente da República depois da Revolução de Abril.
Portugal precisa de um líder, não precisa de um comentador;
Portugal precisa de um Comandante, não precisa de um apontador de tarefas;
Portugal precisa de ética, brio, hombridade e dignidade, não precisa de flores narcisas nem de umbigos de amor-perfeito!
Precisamos de outro Dom João Segundo, de outro Homem do Leme, de outro Eanes, de outro Zé Pedro, de Gente Ousada que nos faça tremer de emoção, quer na chegada quer na partida – chegar e partir não é apenas aparecer e desaparecer – Aqueles que partiram não são apenas os que não ficaram!
A emoção que senti ao ouvir o Homem do Leme na hora da partida do músico Zé Pedro, fez-me desejar desviver assim: sem choros pela partida, mas com palmas por um dia ter chegado.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

O Último Jantar

jantar.jpg

Há cerca de dois mil anos, dizem-nos os escritos (que alguém escreveu), Jesus (que na altura ainda não era Cristo) promoveu uma reunião com os seus mais diretos seguidores (os Apóstolos) a que chamou a Última Ceia. Este encontro, para além de ter servido a sua função primeira (saciar a fome) parece ter servido também como forma de despedida física deste mundo uma vez que O Mestre (Jesus) iria ser entregue aos Romanos a troco de um pagamento de trinta dinheiros pela denúncia – Não consigo, por desconhecimento do câmbio de então, calcular a importância em termos de moeda actual, mas acredito que não deve ter sido uma importância muito significativa porque sendo Jesus, à época, uma figura pública, a dificuldade de identificação pelos seus inimigos não seria assim tão grande para que fosse prometida (e paga) uma quantia por aí além…

A Última Ceia foi, portanto, um momento muito importante (sagrado?) e significativo na despedida do Mestre na qual, para além de ter havido reunião, houve também alimentação e anúncio de traição.


Mais recentemente – na verdade apenas há alguns dias – um grupo de Websummits (etnia de nível económico superior) promoveu uma reunião ajantarada (a que chamaram mesmo jantar) para confraternização e troca de ideias luminosas entre todos os iluminados. A reunião (sentido formal) ou jantar (sentido informal) decorreu na Igreja de Santa Engrácia, também conhecida por Panteão Nacional – espaço museológico onde um País sepulta os seus heróis (pessoas que se distinguiram na defesa e divulgação dos bens pátrios).


O culto dos (e o respeito pelos) mortos é uma tradição desde que o homem é homem, mesmo quando ainda era macaco (ou pelo menos metade macaco). Na verdade, os lugares de sepultamento são vestígios arqueológicos (ruínas) disseminados por todo o país, provando que, quem por cá andou noutros tempos, independentemente da era, já respeitava quem morria, atribuindo ao acto (inumação ou sepultamento) um alto teor de dignidade. E isto não tem nada a ver com religião, crenças e afins, apenas dignidade e respeito por quem já não sendo vivo, pode continuar presente na memória dos que (ainda) o são – Aqueles que partiram não são apenas os que não ficaram!


É verdade que no Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia (um dos três que temos em Portugal) não é unânime que estejam apenas sepultados heróis ou portugueses que se distinguiram pela divulgação e engrandecimento do país – se um futebolista e uma fadista são de concordância duvidosa um Sidónio Pais é, com certeza, ainda mais! A questão é, portanto, de respeito e dignidade por aqueles que não tendo pedido para ali repousarem, ali repousam por vontade dos que eram (ou são) vivos à data da sua morte – e isto também não tem nada a ver com religião, inferno, céu ou purgatório, só e tão-só, dignidade.


Jantar num Cemitério, num Jazigo, numa Anta, num Dólmen ou num Panteão, aparte a sua envolvência física, arquitectónica ou fundação, não é apenas de mau gosto, macabro ou mórbido, é desrespeitador da dignidade daqueles que já não podem queixar-se – a Dignidade é praticada pelos vivos!


Culpar os Websummits, o legislador, o ministro, o secretário de estado, o director-geral (tanto os que são como os que já foram) é o que de mais fácil podemos fazer para tranquilizar a consciência colectiva mas, aquilo que verdadeiramente interessa e importa levar à prática é que à semelhança da Última Ceia declarada por Jesus, prestes a ser vendido por trinta dinheiros, este tenha sido o Último Jantar, ainda que vendido por cem vezes mais!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

A Cor Negra do Verde

Pinhal.jpgEsmeralda acordou triste, não porque o novo dia em cada dia que nasce não fosse propício ao sorrir do sol de Outono numa carícia terna de afago leve e sentido dos nossos Heróis do Mar!

Não porque à sua volta o céu ainda azul, tingido em andorinhas de partida, não a deixasse contemplar naquela hora dourada, o esconder de um sol que (dizem) nasce para todos, todos os dias deste milenar Nobre Povo!
Acordou triste, com um sorriso amargo, com amargura na voz, porque tinha névoa no olhar, desalinho de cabelos, entrelaço de dedos, arrepio de pele e, pior, muito pior que tudo isso, com a alma fria, desalentada, desesperançada, desalinhada das coisas boas que a vida ainda tinha (diziam) para lhe dar naquela que fora em tempos a sua Nação Valente!
Confrontada com o baço olhar e sorriso sem néctar, sem timbre na voz, com medos esguios em pele de inverno de arrepio colorido de cinza negra E Imortal!
Esmeralda desenhou no espelho as únicas palavras que, naquele momento, conseguiu lembrar-se: “O Verde-Ousado” da alma que, “Ó povo castigado”, Levantai Hoje de Novo!
Em tempos este jardim plantado, coberto de céu azul e de areias de sol dourado, por água-mar de espuma branca e amêndoa doce salgada era agora a reminiscência d’O Esplendor de Portugal!
Em tempos, este campo de cravos vermelhos, cujas cores de esperançar eram capas de medo escuro, cobertas de silêncio entre as Brumas da Memória!
Em tempos, neste prado de esguios pinhais, os marinheiros de então eram agora madeireiros em ensaio de lenhadores de Ó Pátria Sente-se a Voz!
Em tempos, fora partida de navios destemidos e de naus aventureiras e de caravelas bolinadas, cujas velas arreadas são agora o desnorte de um sul estridente, sem qualquer Ursa Maior nem sequer Estrela Polar Dos Teus Egrégios Avós!
Era apenas a saudade daquele “Verde-Ousado” onde os vadios da desesperança e os parasitas dos sentimentos e os profetas do restelo eram velhos desdentados em sorrisos embruxados de maldições disfarçadas por rigores suspeitados em tridentes luciféricos Que Hão-de Guiar-te à Vitória?
Era tão-só a lembrança do “Verde-Ousado”, onde as Primaveras de Marcela se esfumavam em sorrisos de beijos engalanados e abraços de entreter em gritos de choro Às Armas!
Uma planície de cores mortas em vozes de embrutecer nas lágrimas da desesperança da tragédia experimentada na desalma do poder Pela Terra e Pelo Mar!
Esmeralda suspirou pela impotência que sentiu no reflexo de sonhar Às Armas!
Esse suspiro de ansiedade num lamento de socorro, foi então um grito incómodo, um renascer desaparecido, um sentimento de frustração e um murro dado no vento da desventurada anunciação de Pela Pátria Lutar!
Esmeralda enfrentou o espelho e viu…
Viu apenas a cor brilhante naquele negro sem vida.
Queria ter visto o verde-alga, o verde-pinho, o verde-erva, o verde-verde, o verde-esperança e talvez o Verde-Esmeralda que a fizessem em correria, Contra os Canhões Marchar, Marchar!…
Mas só viu o “Verde-Ousado” de um tempo desesperançado em madrugada desmanhecida!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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