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O Meu País

O Meu País

Crónica dos "Apóstolos" Dementes

demencia_.jpgO Apóstolo Pedro (também chamado Simão) foi (reza a lenda) o primeiro Bispo de Roma e, consequentemente, o primeiro Papa. Consta-se que por trinta e sete anos exerceu tal cargo.

O ministro Pedro (presidente do conselho) foi (facto histórico) o primeiro chefe do governo a entregar ao seu sucessor o País mais pobre do que quando o recebeu. Sabe-se que exerceu o cargo ao longo de quatro anos e meio. Sabe-se que esteve envolvido em várias situações polémicas e duvidosas como a Tecnoforma e a falta de pagamentos à Segurança Social.

Mas a Comunicação Social não sabe!

O Apóstolo Pedro negou por três vezes estar com Jesus (e conhecê-lo) quando este foi preso em função do beijo de Judas. Quanto o galo cantou, Pedro deixando de negar, chorou arrependido.

O ministro Pedro negou as vezes que foram necessárias que prometeu o que não cumpriu e cumpriu o que não anunciou em função, não do beijo (vamos lá, o homem é mauzinho mas não tem ar disso…), mas do compadrio que o pressionou a alimentar-se de outro modo – é famoso e conhecido o mandamento, “Pedro está na hora de ir ao pote”.

Mas a Comunicação Social não sabe!

Quando o galo cantar (ainda só cantarolou ligeiramente) e o povo acordar porque são horas e o sol nasceu), Pedro deverá chorar, não de arrependimento, mas de medo que o cargo que já não tem o obrigue a lembrar-se daquilo que também negou e que diz ter-se esquecido ou não se lembrar muito bem (uma espécie de Alzheimer social).

O Apóstolo Paulo (também chamado Saulo) foi um perseguidor de Cristãos que se arrependeu a tempo e, deixando de exercer o privilégio de cidadania romana em Jerusalém, passou a ser “bonzinho graças a Deus”, não sem antes ter sido necessário cegá-lo durante três dias para  que pudesse, assim,  ver melhor o mundo dos homens.

O ministro Paulo (vice-rei da irrevogabilidade) foi um perseguidor de políticos que se arrependeu algures no tempo, quando viu chegada a sua hora de “ir ao pote” e, deixando de exercer o relato jornalístico, passou a ser “mauzinho graças a Deus” (o Deus dos maus, entenda-se), não sem antes ter sido necessário “trair” Dom Marcelo I, O Sabe Tudo beijoqueiro Afectuoso, na comum vontade de fazer ressuscitar, nos idos de Março dos anos noventa, a famosa AD dos anos oitenta.

O Apóstolo Paulo foi um dos mais influentes líderes do Cristianismo antigo, sendo-lhe atribuídas treze epístolas, das quais sete são contestadas por especialistas na matéria quanto à sua autoria.

O ministro Paulo foi um dos mais influentes "chefes" da direita portuguesa, sendo-lhe atribuídas muito mais que as treze epístolas do apóstolo, quer quanto à sua sagacidade e esperteza, quer quanto à sua navegabilidade em mares profundos, linhas vermelhas inultrapassáveis, irrevogabilidade revogável e outras cadeiras afins, todas com nota máxima nesta e noutras licenciaturas que fizeram dele especialista em caminhar sobre as águas sem ser necessário usar o caminho das pedras que Jesus (que ainda não sonhava transformar-se em Cristo) teve de revelar a Simão Pedro, o primeiro Papa (por dúvidas de interpretação quanto ao “aborto” ortográfico, não é Papá, é mesmo “Pápa”).

Desde o século I, acreditar nos feitos de Pedro e Paulo (os apóstolos), é um acto de fé que, não aplaudindo nem repugnando, não contesto.

Desde a mesma data (ou não, conforme der mais jeito), acreditar em Pedro e Paulo (os ministros grandes) ou em Miguéis de Loureiros Silvas (os ministros menos grandes) e afins, é  um acto de autoflagelação que, não aplaudindo mas contestando, repugna-me.

Mas a Comunicação Social não sabe nada disto, apenas manda tocar os arautos pelos desmandos do “inimigo”.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País.

 

 

 

Madrugada de Um País

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 A História é sábia e não perdoa. Ainda que não nos agrade e nos vergue a passados que não gostamos de lembrar e que nos envergonham...

O Golpe de Estado do Vinte e Cinco de Abril de Mil Novecentos e Setenta e Quatro, transformado no mesmo dia pelo povo em Revolução, acontecido há quarenta e quatro anos no País fundado por Dom Afonso Henriques, marcou um dos acontecimentos mais influenciadores da história do século vinte Português, protagonizada por uma das suas mais ricas gerações de militares. Muitos deles injustiçados, marginalizados, esquecidos, estigmatizados, emprateleirados e embrulhados na poeira inerte das coisas estagnadas.

A par da Revolução de Abril, a implantação da República marcou o fim de um ciclo e o início de outro: os dois acontecimentos com consequências diferentes, mas ambos com objectivos comuns: Instaurar a democracia. O processo que se seguiu a cada destes actos (considerando os insucessos verificados) não desvirtua nenhum dos dois.

Se na implantação da república, a turbulência que sempre marca as tempestades de um povo não habituado a pensar e a agir em grupo tendo por base pensamentos maioritários, acabou numa ditadura disciplinadora de finanças mas castradora de pensamentos, na Revolução de Abril a turbulência foi vencida em pouco mais de dois anos de finca-pé e de “euforia” à toa, dando lugar, lentamente e passo-a-passo, ao estado que somos hoje; “ao estado a que chegámos” por iniciativa dos homens que na altura com trinta anos fizeram aquilo que alguém, algum dia, teria de fazer. Hoje têm mais de setenta anos – alguns, porque outros ficaram pelo caminho: lembre-se Melo Antunes e, sobretudo, Salgueiro Maia. E se os homens deste País não fizerem justiça aos seus heróis (é conhecido costume da injustiça da Pátria), a história o fará um dia: implacável, indiferente e verdadeira.

Encontrei pelo caminho – pessoal e profissional – alguns dos homens que aos dezasseis anos marcaram a minha vida num dia em que as aulas deram lugar aos cantares, aos comunicados e à estupefacção geral por, também em Portugal, acontecerem coisas que só noutros países tinham lugar. Memorizei alguns dos nomes e, há uma dezena de anos atrás, um amigo comum – também ele Capitão de Abril – perguntou-me, apontando para o homem que tinha ao seu lado “Conhece”? “Conheço o nome, mas…”, disse eu, emendando de seguida, “Espere, é o … do Conselho da Revolução".

“Ainda há memória viva” e sorriu, desencantado pela ingratidão da Pátria, mas reconhecido pela memória do povo.

Estes Homens cumpriram aquilo a que se propuseram: terminaram e começaram, começaram e terminaram. O tudo por fazer e o tudo feito. Acabaram com “o estado a que chegámos” entregando o País à sociedade civil.

A partir daqui a História é outra e não é culpa dos Capitães, mas talvez seja da Pátria que continua a fazer o que costuma…

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Confissões de Um Antirreligioso

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Sou nascido, criado (ainda não abatido), crescido e amadurecido em território continental português, onde “é de lei” domingar com roupa lavada e ir à missa antes ou depois de almoço.

Sou filho de pais casados pela igreja (não vi mas acredito), baptizado em pia baptismal (sim, guardaram-me aquela coisa branca com que me vestiram) e já fui muitas vezes à missa.

Durante a instrução primária, tinha de inventar pecados para contar ao padre Abreu naqueles dias em que ele se deslocava à escola para confessar as criancinhas (as criancinhas não têm pecados, mas nós tínhamos).

Participei, em anos que já lá vão (alguém algum dia teve apenas vinte anos?), em muitos encontros e iniciativas paroquianas, sobretudo porque o padre da paróquia (João Avelino) sabia “dar a volta” à juventude da aldeia (naqueles dias eu era jovem e vivia numa aldeia, juro!).

Fui a Fátima (mais que muitas vezes), não propriamente para rezar mas acompanhar familiares que rezavam. Dessas muitas vezes, duas foram a pé e fiquei com dores nas pernas e nos pés e nos braços, mas a alma tranquilizou-se na paz do dever cumprido.

Estudei num colégio interno, numa comunidade da ordem de São João Baptista de La Salle onde era obrigatório ir à missa ao domingo de manhã (pois, ficava lá ao fim de semana a expiar as culpas do corpo) e engolir sem mastigar a hóstia sagrada que sobrava da parte que o grupo  de intrusos não conseguia consumir durante o assalto à sacristia (a rapaziada dizia que sabia bem, mas nunca provei. Provei o vinho e era bom, os padres são bons enófilos - não tem nada a ver com os padres “dófilos”).

Casei pela igreja (padre João Avelino, tinha de ser) e os meus filhos foram pabtizados também em pia baptismal (para me vingar, guardei-lhes também aquela coisa branca com que foram vestidos).

Continuei a ir à missa mas num processo de alzheimerização acelerado que me foi fazendo esquecer que algum dia me havia lembrado do que significava aquele acto (até que deixei de ir, pronto).

Gosto de entrar em igrejas, basílicas, catedrais e afins, sobretudo para apreciar a arte, o estilo, a frescura e o silêncio (quando está pouca gente, claro) que se respira entre aquelas paredes.

Fui e sou amigo de alguns padres (muito poucos, mas sou), pela sua parte humana, completamente dissociada da componente religiosa.

Não matei ninguém (não matarás), nem roubei (só outros ladrões), nem menti (aquelas mentiras pequeninas e piedosas não contam) nem isto nem aquilo excepto comer muito quando gosto e tenho fome (Gula). Quanto aos outros pecados mortais, faço-me esquecido da lista (a tal conveniente alzheimerização em estado galopante).

Julgo, portanto, reunir todas as condições para ser um bom cristão católico, apostólico e romano.

Mas não sou. Se calhar nunca fui. Talvez nunca tivesse querido ser.

Já não vou à missa (já tinha dito isto?), já não consigo ouvir a lengalenga dos padres (excepto aqueles dois de quem sou amigo e que são generosos a pagar uns copos), nem ver as reportagens do centro comercial de Fátima (agora nem de avião lá me apanham), nem a conversa da treta do cardeal patriarca nem os fingidores da generosidade nem os vendedores de milagres a dez por cento dos rendimentos, nem os fundamentalistas do islão nem os “arábicos”, os hindús, os jihadistas, os istos e os aquilos que tenham a ver com religião. (Ponto).

A religião tem sido, desde que o homem e a mulher começaram a reproduzir-se, a maior fonte de discórdia e de conflitos, de guerras, de mortes, de perseguições, de condenações e de martírios.

Talvez acredite em Deus (num Deus).

Mas não acredito na religião (em nenhuma delas).

Não sei como seria (ou teria sido) se não houvesse religião. Há quem diga que, não temendo o poder divino, o homem (e a mulher, claro) teria ainda um comportamento mais agressivo e destruidor. Não conseguimos fazer esta comparação porque sempre vivemos debaixo deste temor e medo do poder divino e do seu consequente castigo (ou prémio).

Mas é tempo de tentar.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Saudade do Tempo

imagem-texto-linha-do-tempo1.pngÉ um animal sem alma, uma qualquer coisa que nos envolve, que nos transporta para não sei onde e que nos retarda a ausência do sempre eterno.

Ao sentir saudade, apelamos à intervenção do tempo ido, à neblina amargada, ao vento esguio, às recordações choradas, à nostalgia desditosa, ao passado inerte, ao que já foi sem nunca ter sido, ao que não é e não será nunca. Ao que foi sem acontecer.
Tenho nostalgia de ti, ouvi um dia alguém dizer. Carreguei a frase, meditei no dito, embrulhei o conceito, olhei para mim que era o ti, procurei os “tis” da nostalgia e senti-me sozinho, com saudade, sem vontade. Com idade.
Vontade de navegar pelos dias, pelas agonias, pelas noites frias, sem tempo nem alento nem talento. É como olhar o rio, o escuro, o frio, o arrepio, as águas revoltas, envoltas, revoadas, tardias, fechadas, quebradas, marcadas, sofridas. Mentidas: olham-se as margens e vê-se a corrente e a areia, mas muitas vezes sem água nem rio.
Tempo, idade, saudade. Paramos no caminho, avistamos o horizonte, com a mão na fronte, o olhar no bolso, o brilho sem vida, a lágrima caída; esmorecida, amolecida, entristecida, chorada, magoada, ensanguentada.
Continuamos por aí: subindo outeiros, descobrindo encostas, resvalando em colinas, acreditando em sorrisos, decalcando crenças, coleccionando lembranças, escutando gritos, fingindo murmúrios, saboreando choros, ensaiando arrependimentos E alheando atitudes Embriagadas em mares temperados de oceanos e vendavais de arrepios e desfiladeiros de sonhos e escarpados de ilusões e páginas de multidões e gaivotas desnorteadas e rochas partidas em ondas desfeitas e desaguadas em praias intensas de só negro ver.
Brumando os que partiram, pelo tempo ido, pelo amor sofrido, pelo calor perdido, pelas mãos, pelas palavras, pelo carinho: desencontrado do caminho, carreiro vadio de giestas sombrias, apagado em moitas dispersas, secas e frias.
À espera: de um sol queimado de cinzento, de uma colmeia de cores ardida em verde fel, de um falso azul ofuscado em frágil céu, de um céu diluído em baço olhar, de um olhar afogueado em multidão. De uma multidão isolada em nada e só.
O pó na estrada: o dia apagado, a noite nascida, as estrelas esbatidas, o luar de Julho embaciado, os anos de tão longe, a saudade de nunca mais, as vozes de não falar, os sons de não ouvir, a raiva de não saber, o fracasso de não conseguir, a vontade de emudecer. A distância de continuar.
Hoje, amanhã, um dia, qualquer dia: qualquer tempo inquieto, qualquer hora tardia, qualquer momento fugaz, qualquer sopro de paixão num momento de ilusão, em tempo de não. Anoitecido em solidão.
Tenho nostalgia de ti: ao fim do dia, a meio da vida, no crepúsculo da viagem junto ao Tejo, longe do sonho, colado às rugas, pisando a margem, nublando o delírio. À beira da fonte, caído na estrada.
Tempo a mais, entardecido, saudoso da madrugada.

António J. Branco, In, Pensamentos e Desesperos.

 

O Homem do Leme

homem_do_leme.png“…E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”

O cortejo fúnebre de Zé Pedro – guitarrista fundador dos Xutos e Pontapés – saiu do Museu dos Coches ao som do Homem do Leme, um tema imortal que desapaga uma vida!
O Mostrengo é um poema “fortíssimo” de Fernando Pessoa que, em menos de trinta versos, simboliza a força de vontade e a alma de um povo na sua saga pela conquista dos mares a mando de Príncipe Perfeito (El-Rei Dom João Segundo) – provavelmente um dos melhores Estadistas de sempre da Nação portuguesa, independentemente da existência monárquica ou republicana!
Este poema faz emergir a determinação do Homem do Leme, alguém que, para além da sua força de vontade, tem associada a vontade de um povo, com a experiência de um comandante e a capacidade de motivação de Líder – É a partir destas três valências que nascem, vivem, crescem e não morrem eternamente, os Grandes Homens – Como Dom Afonso Henriques, Dom Dinis e Dom João Segundo (no regime monárquico) e, indubitavelmente, o General Ramalho Eanes no regime que poderemos considerar como a terceira república.
O Líder de um povo, aquele que, “movendo montanhas”, consegue aproximar os vales mantendo as suas distâncias e características, não é (nem tem de ser) o executor de “sentenças políticas” nascidas e inventadas (muitas vezes à pressa) para satisfação e gáudio de estratos sociais da “família” que lhe dá suporte sem que o Homem do Leme – aquele que ata as mãos ao dever sem olhar para as cores do arco-íris – consiga (ou queira) distinguir o Essencial do Acessório, a Estratégia da Tática, o Brio da Vaidade, a Arrogância da Humildade ou até, o Ego do Grupo.
Em cerca de oitocentos anos de Monarquia tivemos alguns reis que foram verdadeiros estadistas – visam combinada entre o presente vivido e o futuro para viver – mas, “de entre os portugueses, alguns traidores houve algumas vezes”. Por outro lado, em menos de quarenta anos de República em democracia (a 3ª República?) poucos foram os que se distinguiram pelos seus actos de ética, competência, hombridade e dignidade, arredando-se na maior parte das vezes engalfinhados em visões de um ganancioso narcisismo, promovendo apenas os frutos da árvore do seu quintal – um país de quintas e de quintinhas?!
O General Ramalho Eanes foi (repito) a Welwitschia Mirabilis do nosso Deserto de Moçâmedes, a água límpida da fonte de um povo que só de há pouco tempo a esta parte o começou a reconhecer como o melhor Presidente da República depois da Revolução de Abril.
Portugal precisa de um líder, não precisa de um comentador;
Portugal precisa de um Comandante, não precisa de um apontador de tarefas;
Portugal precisa de ética, brio, hombridade e dignidade, não precisa de flores narcisas nem de umbigos de amor-perfeito!
Precisamos de outro Dom João Segundo, de outro Homem do Leme, de outro Eanes, de outro Zé Pedro, de Gente Ousada que nos faça tremer de emoção, quer na chegada quer na partida – chegar e partir não é apenas aparecer e desaparecer – Aqueles que partiram não são apenas os que não ficaram!
A emoção que senti ao ouvir o Homem do Leme na hora da partida do músico Zé Pedro, fez-me desejar desviver assim: sem choros pela partida, mas com palmas por um dia ter chegado.

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

O Último Jantar

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Há cerca de dois mil anos, dizem-nos os escritos (que alguém escreveu), Jesus (que na altura ainda não era Cristo) promoveu uma reunião com os seus mais diretos seguidores (os Apóstolos) a que chamou a Última Ceia. Este encontro, para além de ter servido a sua função primeira (saciar a fome) parece ter servido também como forma de despedida física deste mundo uma vez que O Mestre (Jesus) iria ser entregue aos Romanos a troco de um pagamento de trinta dinheiros pela denúncia – Não consigo, por desconhecimento do câmbio de então, calcular a importância em termos de moeda actual, mas acredito que não deve ter sido uma importância muito significativa porque sendo Jesus, à época, uma figura pública, a dificuldade de identificação pelos seus inimigos não seria assim tão grande para que fosse prometida (e paga) uma quantia por aí além…

A Última Ceia foi, portanto, um momento muito importante (sagrado?) e significativo na despedida do Mestre na qual, para além de ter havido reunião, houve também alimentação e anúncio de traição.


Mais recentemente – na verdade apenas há alguns dias – um grupo de Websummits (etnia de nível económico superior) promoveu uma reunião ajantarada (a que chamaram mesmo jantar) para confraternização e troca de ideias luminosas entre todos os iluminados. A reunião (sentido formal) ou jantar (sentido informal) decorreu na Igreja de Santa Engrácia, também conhecida por Panteão Nacional – espaço museológico onde um País sepulta os seus heróis (pessoas que se distinguiram na defesa e divulgação dos bens pátrios).


O culto dos (e o respeito pelos) mortos é uma tradição desde que o homem é homem, mesmo quando ainda era macaco (ou pelo menos metade macaco). Na verdade, os lugares de sepultamento são vestígios arqueológicos (ruínas) disseminados por todo o país, provando que, quem por cá andou noutros tempos, independentemente da era, já respeitava quem morria, atribuindo ao acto (inumação ou sepultamento) um alto teor de dignidade. E isto não tem nada a ver com religião, crenças e afins, apenas dignidade e respeito por quem já não sendo vivo, pode continuar presente na memória dos que (ainda) o são – Aqueles que partiram não são apenas os que não ficaram!


É verdade que no Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia (um dos três que temos em Portugal) não é unânime que estejam apenas sepultados heróis ou portugueses que se distinguiram pela divulgação e engrandecimento do país – se um futebolista e uma fadista são de concordância duvidosa um Sidónio Pais é, com certeza, ainda mais! A questão é, portanto, de respeito e dignidade por aqueles que não tendo pedido para ali repousarem, ali repousam por vontade dos que eram (ou são) vivos à data da sua morte – e isto também não tem nada a ver com religião, inferno, céu ou purgatório, só e tão-só, dignidade.


Jantar num Cemitério, num Jazigo, numa Anta, num Dólmen ou num Panteão, aparte a sua envolvência física, arquitectónica ou fundação, não é apenas de mau gosto, macabro ou mórbido, é desrespeitador da dignidade daqueles que já não podem queixar-se – a Dignidade é praticada pelos vivos!


Culpar os Websummits, o legislador, o ministro, o secretário de estado, o director-geral (tanto os que são como os que já foram) é o que de mais fácil podemos fazer para tranquilizar a consciência colectiva mas, aquilo que verdadeiramente interessa e importa levar à prática é que à semelhança da Última Ceia declarada por Jesus, prestes a ser vendido por trinta dinheiros, este tenha sido o Último Jantar, ainda que vendido por cem vezes mais!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

A Cor Negra do Verde

Pinhal.jpgEsmeralda acordou triste, não porque o novo dia em cada dia que nasce não fosse propício ao sorrir do sol de Outono numa carícia terna de afago leve e sentido dos nossos Heróis do Mar!

Não porque à sua volta o céu ainda azul, tingido em andorinhas de partida, não a deixasse contemplar naquela hora dourada, o esconder de um sol que (dizem) nasce para todos, todos os dias deste milenar Nobre Povo!
Acordou triste, com um sorriso amargo, com amargura na voz, porque tinha névoa no olhar, desalinho de cabelos, entrelaço de dedos, arrepio de pele e, pior, muito pior que tudo isso, com a alma fria, desalentada, desesperançada, desalinhada das coisas boas que a vida ainda tinha (diziam) para lhe dar naquela que fora em tempos a sua Nação Valente!
Confrontada com o baço olhar e sorriso sem néctar, sem timbre na voz, com medos esguios em pele de inverno de arrepio colorido de cinza negra E Imortal!
Esmeralda desenhou no espelho as únicas palavras que, naquele momento, conseguiu lembrar-se: “O Verde-Ousado” da alma que, “Ó povo castigado”, Levantai Hoje de Novo!
Em tempos este jardim plantado, coberto de céu azul e de areias de sol dourado, por água-mar de espuma branca e amêndoa doce salgada era agora a reminiscência d’O Esplendor de Portugal!
Em tempos, este campo de cravos vermelhos, cujas cores de esperançar eram capas de medo escuro, cobertas de silêncio entre as Brumas da Memória!
Em tempos, neste prado de esguios pinhais, os marinheiros de então eram agora madeireiros em ensaio de lenhadores de Ó Pátria Sente-se a Voz!
Em tempos, fora partida de navios destemidos e de naus aventureiras e de caravelas bolinadas, cujas velas arreadas são agora o desnorte de um sul estridente, sem qualquer Ursa Maior nem sequer Estrela Polar Dos Teus Egrégios Avós!
Era apenas a saudade daquele “Verde-Ousado” onde os vadios da desesperança e os parasitas dos sentimentos e os profetas do restelo eram velhos desdentados em sorrisos embruxados de maldições disfarçadas por rigores suspeitados em tridentes luciféricos Que Hão-de Guiar-te à Vitória?
Era tão-só a lembrança do “Verde-Ousado”, onde as Primaveras de Marcela se esfumavam em sorrisos de beijos engalanados e abraços de entreter em gritos de choro Às Armas!
Uma planície de cores mortas em vozes de embrutecer nas lágrimas da desesperança da tragédia experimentada na desalma do poder Pela Terra e Pelo Mar!
Esmeralda suspirou pela impotência que sentiu no reflexo de sonhar Às Armas!
Esse suspiro de ansiedade num lamento de socorro, foi então um grito incómodo, um renascer desaparecido, um sentimento de frustração e um murro dado no vento da desventurada anunciação de Pela Pátria Lutar!
Esmeralda enfrentou o espelho e viu…
Viu apenas a cor brilhante naquele negro sem vida.
Queria ter visto o verde-alga, o verde-pinho, o verde-erva, o verde-verde, o verde-esperança e talvez o Verde-Esmeralda que a fizessem em correria, Contra os Canhões Marchar, Marchar!…
Mas só viu o “Verde-Ousado” de um tempo desesperançado em madrugada desmanhecida!

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Andam Lobos Por Aí

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Cientificamente o cão descende do lobo; melhor, o cão evoluiu geneticamente a partir do lobo - e da loba, claro - numa multiplicidade de raças que dápara satisfazer todos os gostos do homem (e da mulher), conforme o feitio de cada um e a personalidade de cada qual.

Andam lobos à  solta!

Por outro lado, o homem, dizem os livros, descende do macaco; não tendo sido criado geneticamente, mas evoluído a partir dele, ficando com as costas mais direitas, menos cabeludo e cada vez mais alto.

Andam lobos na Campo!

Vivendo o lobo em alcateia e caçando em conjunto por razões de sobrevivência, os seus derivados genéticos, embora mantendo o mesmo instinto na sua essência, cedo se habituaram ao estilo de vida dos humanos, preferindo a comodidade e conforto da sua companhia à  insegurança alimentar e instabilidade fÍsica daqueles que lhes deram origem: uma coisa É ser lobo a outra É vestir-lhe a pele.

Andam lobos no Rebanho!

Vivendo os homens em sociedade (imaginada?), cedo tamém se habituaram à  dedicação e fidelidade dos cães, tanto de miniaturas em forma de brinquedo como de gigantes em forma de lobos à  moda antiga: uma coisa é ser homem a outra é perceber a sua essência.

Andam lobos na cidade!

Quanto aos macacos, gorilas, chimpanzés e similares, continuam a viver na selva, como castigo por não terem sabido evoluir ou, no mí­nimo, como penitência pela curvatura da coluna vertebral que teimaram em manter. Não querendo misturas nem com os lobos nem com os cães, aproximam-se por vezes dos homens numa atitude de complacência pelo estado a que estes chegaram quando decidiram separar-se da genética e comum origem: uma coisa é ser macaco a outra é fazer macaquices.

Andam lobos pelas serras!

Tanto os lobos como os cães marcam e delimitam o seu território através de fluidos corporais  -  urinam no chão ou sobre objectos que demarcam os seus domínios. Já quanto aos macacos estas fronteiras (as dos macacos, não as dos lobos) são definidas através de gritos fortes, estridentes e dominadores; e nisto parecem-se um bocadinho com aqueles que se desviaram a raça original.

Andam lobos na polí­tica!

Os humanos, para se distinguirem e diferenciarem o seu território, fizeram tudo de maneira diferente: pregaram marcos no chão, desenharam riscos nos mapas, construí­ram muros, dividiram rios, seccionaram ilhas e até inventaram deuses para lhes servir de patronos. Tudo ao contrário dos outros animais: sem mijar e sem gritar, mas com muita hipocrisia à  mistura.

Andam lobos nas igrejas!

Olhando para trás mesmo sem ver a origem, fácil é, pois, a conclusão: Os lobos continuam tal como sempre foram, os macacos tal e qual e os cães conforme o trato e o meio em que vivem. Quanto aos humanos, os tais que desalinharam dos sÍmios por evolução (?!), continuam, condescendentes, a deixar...

...Que Andem Lobos Por Aí­!

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Cartas de Guerra - Emoções Entardecidas!

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Foi com emoção que assisti à  abertura do espólio de guerra cedido por uma Mãe, à  Liga dos Amigos do Arquivo Histórico Militar. O espólio  - "acervo históico" - pertence ao filho, alferes miliciano, caído em combate na célebre operação Nó Górdio, levada a cabo em 1 de Julho de 1970, por oito mil homens do Exército, Força Aérea e Marinha (além de Grupos Especiais), contra as bases do planalto dos Macondes, em Moçambique, onde se encontravam disseminados cerca de 2500 guerrilheiros, sob o comando de Samora Machel.

Êxito para uns, principalmente para o seu mentor (General Kaúlza de Arriaga), e total fracasso para outros, porque, passado pouco tempo, a Frelimo voltaria a recuperar o domí­nio sobre grande parte do territóio, esta operação ficou para a história e memória de todos aqueles que, de algum modo, dramaticamente ajudaram a compor  o "Cancioneiro do Niassa" (De quantos sacrifÍ­cios senhores que em mim mandam, é feita  a vida de um soldado).

Espólio composto por um quadro com fotografia a preto e branco do Alferes C. e crachá da especialidade Comandos - 1ª Companhia de Comandos "Escorpiões" -  e respectivos galões; um álbum de fotografis; vários  troféus conquistados na prática da actividade desportiva (Vela) e, sobretudo, o conjunto das cartas (envelopes) por abrir, enviadas e recebidas pela mãe, com o carimbo "Destinatário falecido", no verso, constituem a memória temporal de alguém que, palavras suas, "Dentro de pouco tempo vou morrer e  este é o melhor destino para as coisas do meu filho".

Dói!

Dói  pensar,  ver e  sentir, sobretudo olhar para as cartas por abrir, remetidas à  Mãe - devido ao desfasamento no tempo e ao facto terem sido escritas  várias cartas mesmo sem obtenção de resposta das anteriores (o motivo já o sabemos).

"Nó Górdio" pode ser lido e apreciado na sua versão literária como  "Nó Cego",  de Carlos Vale Ferraz e consultado como ensaio histórico na obra "Moçambique, 1970. Operação Nó Górdio", de Carlos Matos Gomes (o mesmo autor sem pseudónimo).

A Guerra Colonial, para além de um pesado passado, é uma amarga lembrança impossível de esquecer e uma espessa sombra que pairará no sempre eterno da nossa história e da nossa memória colectiva. Não há "branqueamento" possí­vel que explique as acções de um Estado Novo, que nunca percebeu que estava a cair de velho.

A Recolha de espóliso de guerra é um projecto aliciante, que visa reunir situações vividas e emoções sentidas, daqueles que partiam e se despediam no Cais da Rocha Conde de Óbitos, ficando separados por um mar que muitas vezes não os haveria de voltar a juntar. É um projecto de  recolha documental, oriundo de quem, com maior proximidade, viveu e sentiu o amargo sabor das lágrimas derramadas, das saudades amargadas, dos sonhos desesperançado e das cartas por (re)abrir - Como Olinda, a mãe do Alferes C.

A história não se faz só com o empenho de alguns e com a interpretaçãoo dos "Sábios", a História faz-se com o contributo de todos e com o estudo dos pedaços que ainda faltam (e sempre faltarão).

O Espólio do Alferes C. está em boas mãos, irá ser tratado e guardado de acordo com a dignidade e importância que merece. As cartas, passados mais de trinta anos, irão um dia  ser abertas: São Cartas de Guerra!

Mas causa dor de alma e calafrios.

E dói, continua a doer, mas faz parte da Nossa História.

 

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

Memorial a José Afonso

Zeca.jpg

Saudades pelo adeus precoce.
Do Homem – Músico, cantor e poeta – que mandou vir mais cinco;
Que mandou trazer outro amigo;
Que tinha um menino de oiro, de oiro fino;
Que para além de sonhar com a liberdade ao Mundo a vontade.
Saudades da triste partida.
Daquele que cantava as baladas, que pegava na guitarra e entoava as palavras;
Que encantaram gerações e fizeram tremer os mentores de um regime apodrecido
de indecência e de injustiça e de dignidade subtraída:
Um Rouxinol do Choupal, que deixou nascidas, sementes de sempre eterno!
Admiração pelo olhar ao longe.
No horizonte do céu cinzento (sob o astro mudo), com acordes repetidos
Em memórias plenas de história…
…E em história repleta de memórias.
Como franjas rendadas da inquieta perseverança que semeou
Na frieza da verdade inquieta,
Percorrida no país que ajudou a renascer,
Passeando a esperança acontecida daqueles que, desesperançados,
Morreram de desalento perdido numa Terra sem arco-íris:
Numa terra de silêncio, lavrada e cultivada do medo que venceu.
Trinados de saudade.
Por Aquele que se escondeu na simplicidade de ser gente;
Na hombridade dos que não se deixaram tombar vencidos nem jazer em fossos de noite abafada…
…Apesar dos que comeram tudo não deixaram nada.
Mesmo tendo vivido apenas treze anos rodeado de cravos vermelhos.
Anos de febre a arder.
No confronto de ideias não cimentadas e cremadas:
Em branqueamentos de inverdades que os movimentos cíclicos da história impõem.
Em que os homens de má vontade nos querem fazer crer…
…Que as memórias das guitarras são Grândolas sem terra de fraternidade!
Emoção de voz tremida.
No receio e na saudade dos que subindo pelas veredas,
Das nuvens avermelhadas de pôr-do-sol, se tiveram que esgueirar
Por entre os raios de fogo que, mergulhados em águas azuis do mar salgado, um dia se fez português.
Daqueles que - como tu, - por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando!
Uivos de vento assobiando as palavras,
Que cantaste em tempo de escuridão por entre os vampiros da noite calada;
Por entre os mandadores de um povo adormecido à sombra do que não foi,
De um povo adormecido sobre as glórias do passado...
Foi tão perto o adeus precoce.
Para a terra D’Além deixando na memória das gerações multiplicadas,
Um legado de rimas e de palavras, entoadas entre os salgueiros dos riachos
Que nos enchem a vida de trinados sinuosos,
Erguidos ao céu por cantares de rouxinóis e de toutinegras reais, porque…
…Aqueles que partiram, nem sempre são os que não ficaram.

António J. Branco, In, Heróis do Meu País

 

 

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