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O Meu País

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A Diamantino Gertrudes da Silva: Obrigado meu Coronel.

Prefácio (Toque de Silêncio)

 

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Primeiro, o toque de alvorada, que é aí que começa mais um dia; depois, toque para a 1ª refeição e outro logo a seguir para formar; toque para alto aos trabalhos da manhã e fecho de portas e portões; toque para a 2ª refeição e depois para voltar a formar; toque de ordem que parece que leva uma vida inteira para chegar; toque para a 3ª refeição e umas horas depois para o recolher, com mais uns tantos toques de permeio como o do render da guarda e o da entrada do reforço. Até parece uma vertigem, mas não é. È mais toques que outra coisa. Pelo meio, é bom de ver, metem-se uns trabalhos que nunca têm pressa de acabar, uns papéis que a seu tempo se hão-de ler, outros que se hão-de minutar e escrever para levar a despacho e fazer seguir ou arquivar. Há as rotinas de manutenção e reparação de armamentos, equipamentos e instalações. Há actividades de instrução, quando há, e, por vezes, treino operacional.

A meio da manhã e a meio da tarde há escapadelas ao bar, cada um ao da classe a que pertence, que também ainda não chegámos à Madeira e para bagunça já chegou a do Verão Quente. Há o jogo de cartas ou dos dados que por aqui se chamam cacos entre o almoço e a formatura geral do início da tarde. Há conversas, valha-nos isso, muitas conversas para reatar e continuar. Há fios e malhas de amizade e de camaradagem, também, que aqui se vão tecendo. Há golpes de rins, ódios e invejas de estimação. Há mostras de nobreza de carácter a ombrear com jogos de intrigas e safadezas que nunca mais se esquecerão. E há marcas, umas boas outras más, que ficarão para toda a vida. Há conflitos de gerações por causa da participação ou não na Guerra Colonial ou no 25 de Abril e também as devidas às novas tecnologias de processamento da informação com um biombo pouco transparente entre os que continuam obstinadamente a descarregar pauzinhos no Registo Geral e os outros que ali ao lado, com tiques de altivez, manipulam com aparente à-vontade o rato e o teclado do computador.

“O Exército é o espelho da Nação”.

E há, por fim, o “Toque de Silêncio”, momento mágico, esse sim, donde então emerge, como no Casablanca da tela, o nosso “Autor Escritor” com as suas “histórias de inventar”, a montar neste cenário de rotinas uma interessantíssima ficção que como tal passará, e muito bem, para quem não lhe conheça os traços fundamentais da sua vida real: a história de um miúdo que se faz rapaz, que de rapaz se fez sargento da tropa, e que daqui dá o salto para a rampa que o havia de levar ao oficialato, onde passa a usar o nome de Espírito Imaginário, e a gente até entende porquê.

Com ele emerge também um exótico elenco de personagens de que se faz acompanhar, umas reais outras de fantasia, as primeiras todas com nomes bem sugestivos e abrangendo as diferentes classes e categorias de uma normal unidade militar, a começar logo por um coronel comandante que se chama Mórbido, um tenente-coronel Calado, um tal major Criativo e outro que é Alegre, um capitão que é Convencido, outro que é simplesmente Curioso, outro que por qualquer razão ficou Ignóbil, ao lado de um outro que é Comum; capitães não faltam, e ainda vem aí um que foi Ultrapassado, logo seguido do alferes Imaginário que já sabemos que ainda há-de ser major. Depois vem um sargento-chefe Servil, afinal, como um sargento-chefe deve ser, que é o que também se poderá dizer do sargento-mor Obediente e um 1ºsargento que por enquanto dá pelo nome de Virtual. A fechar o cortejo, e assim é que está certo, vem o cabo Chico e o cabo Temporário e, por fim, sem qualquer disfarces ou nomes inventados, o soldado Salvaterra, um nome na tropa perfeitamente normal se, como parece ser o caso, for aquela a sua terra natal. Com as outras nem me meto, por pudor e respeito ao sagrado recanto do imaginário do “Autor Escritor”.

E, se calhar, esta coisa dos nomes deveria ser sempre assim: só serem postos depois de se saber qual a inclinação que a pessoa vai tomar. De outro modo ficamos como nos deixa José Saramago quando de um tal “Livro das Evidências” faz a seguinte citação: «Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens».

Haverá diligências, incumbências e outras ocorrências fora dos muros do quartel, o que não invalida o facto de o “Toque de Silêncio” ser, antes de mais e no essencial, uma crónica do quotidiano, um quotidiano muito peculiar, numa unidade militar em tempo de paz, de entendimento perfeito só ao alcance, portanto, de quem o pôde viver ou teve de suportar. E foi dessa vivência, e ainda bem, que o nosso “Autor Escritor” soube tirar o melhor partido, dando alento ao bichinho que dentro dele não parava de lhe pedir para escrever, oferecendo-nos aqui o resultado de um olhar extremamente atento, perspicaz e inteligente sobre a instituição militar, um olhar privilegiado de quem teve de subir todas as escadinhas que o levaram até ao ponto onde chegou. Extraordinário este olhar, se tivermos em conta que o autor não passou pela Guerra Colonial e era um rapazito no 25 de Abril. Extraordinário, ainda, porque a tropa que o autor conheceu e viveu é, afinal, tal e qual, quase sem tirar nem pôr, igual à que era antes daqueles magnos factos da nossa história contemporânea, o que parece vir acrescentar razões à tese subjacente do livro “A Psicologia da Incompetência dos Militares” (o título português não é feliz), segundo a qual esta instituição como, se formos a ver, outras similares têm no seu código genético gravados os específicos mecanismos e processos de conservação, manutenção e reprodução.

Mas o “Toque de Silêncio” tem um problema. Ou melhor, dois problemas de algum vulto: o cenário militar em que se desenvolve a narrativa, e que por razões já apontadas cria logo sérias dificuldades a um considerável universo de eventuais leitores que não tiveram de transpor a fronteira psicológica de uma porta de armas; e o outro que deriva de o autor ter de recorrer por vezes à linguagem necessariamente técnica da sua especialidade militar. Nada, mesmo assim, que não seja eficazmente ultrapassado pela escrita inteligente do autor, que sabe escrever para pessoas inteligentes, e que perante o pormenor, se for o caso, sabem seguir em frente sem perder a noção de que se o pormenor lá está é porque alguma importância há-de ter.

Nós, em contrapartida, não teremos qualquer dificuldade em ler este livro que aqui está. Ao fazê-lo, até sentiremos uma espécie de enlevo. Porque a matéria de que aqui se trata nos interessa de uma forma muito especial a nós, os militares, capitães de Abril ou não, enformados que fomos de “valores”, nem sempre bons, mas todos a convergir para aquele que é a matriz primordial de quem abraçou ou se deixou enlaçar pela instituição militar – o espírito de missão, sempre presente no livro do princípio ao fim.

Perante as dificuldades apontadas poderíamos ser levados a concluir, erradamente, que este livro e a sua temática de reflexão não irão interessar às novas gerações, não por serem melhores ou piores que nós, mas porque não tiveram a oportunidade de pisar os limites que separam a vida da morte, de sentir a pele em fogo com os salgados ardores do capim nas escaldantes terras tropicais, dos tremores de frio, no corpo e na alma, de uma emboscada montada de noite na bolanha. E a prova de que assim não será, aí está na pessoa do autor de “Toque de Silêncio” que sem pisar terras do ultramar se fez um militar de corpo inteiro e que não tendo podido participar na Revolução dos Cravos, se fez, por filiação, um genuíno Capitão de Abril.

E, chegado aqui, verifico que pouco ou nada disse sobre a valia literária deste livro. Não por chegar aos extremos do discurso de George Steiner quando afirma que «A invocação da teoria (…) na avaliação da literatura ou das artes (lhe) parece fraudulenta», mas porque o código normativo da literatura é um domínio que não domino, e isso é muito verdadeiro. Em boa verdade, e para pena minha, nem este nem o de outra qualquer forma de expressão artística. E, no entanto, não percebendo eu quase nada de música, isso não impede que por vezes, ao ouvir uma melodia, me deixe enrolar, levar e emocionar, se calhar, só porque tenho sentimentos que alguém teve o condão de despertar. Pois foi isso que me aconteceu ao ler o “Toque de Silêncio”, uma espécie de sinfonia com um tema central onde se inscrevem os sonhos, as angústias, as exaltações e alucinações de um “autor escritor” a perpassarem na tessitura de múltiplas variações, com momentos, muito frequentes, em que nos surpreendemos a dizer, sem ninguém ali por perto: «que bonito!», «que interessante!», «que forma tão linda de contar!...»

                                                         

Março, 2009

Diamantino Gertrudes da Silva

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