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O Meu País

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Sangue na Arena e Sangue na Estrada

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Portugal é um País de tradições, de boas e de más. Tal como os outros países, onde muitas coisas boas e más vão se tradicionalmente mantendo. Não conhecendo a realidade profunda dos outros países conheço, contudo, a do meu. Já vivi tempo suficiente para isso e já li que baste para tal, sem que este “isso” e “tal”, tenha pretensões de rigor absoluto ou de verdade inquestionável. Apenas de opinião própria, a qual me julgo, como cidadão e português, ter direito a emitir, mesmo sem ser perguntado.

As tradições, por muito que queiram preservar-se, têm de obedecer a critérios de rigor e de bom senso, sendo apenas de manter aquelas que não colidem com interesses alheios, sejam de pessoas ou de bichos. Todos os povos, em toda a parte do mundo conhecido, terminaram com tradições - não se vê na praça pública, defensores da educação espartana, nem de sacrifícios humanos. Recorde-se história bíblica de Abraão que quis sacrificar o próprio filho e os espetáculos romanos de circo, envolvendo  humanos e bichos. E também sangue, muito sangue! Onde estão (agora) os defensores destas tradições?

Seja que bicho for, ainda que boi com cornos, nascido e criado para ser touro, com quem os humanos se divertem nas arenas, espetando ferros ou correndo pelas ruas, à frente e atrás, nas largadas ou em touradas verdadeiramente ditas e pronunciadas.

A tourada tem origens que remontam à antiguidade, época em que o touro participava em ritos religiosos e em combates de circo, quer com humanos quer com outras feras. Em Portugal, podem distinguir-se dois tipos de manifestações taurinas desta tradição: A corrida popular, de cariz lúdico, efetuada a pé e por ocasião de festas, normalmente chamada, “Largada de touros”, e a corrida de tradição aristocrática, centrada no toureio equestre, cujos traços fundamentais do espetáculo se fixaram nos séculos XVII e XVIII, e da qual deriva directamente a tourada tal como a conhecemos hoje.

Em jeito de resenha histórica, pode dizer-se, também, que já D. Duarte, na sua “Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela”, descreveu as regras para montear, pelejar e tourear a cavalo. Depois dele, D. Sebastião, Rei, (mas por pouco tempo) também se manifestou pela sua perícia no toureio a cavalo tendo participado numa tourada em Évora antes da sua partida para Alcácer Quibir, que veio a ser uma tourada maior que a de Évora, e onde os seus dotes de toureio não lhe valeram para dominar o animal que quis enfrentar. Um erro histórico de estratégia (e de táctica), tal como a tourada, um erro histórico de tradição.

A tradição manda ainda que haja ferros compridos e ferros curtos: os compridos para castigar o touro, que é grande, feio, forte, mau e tem cornos, e os curtos para permitir a criatividade do toureiro, que é garboso, elegante, de boas famílias, bem vestido, inteligente e perspicaz. E monta cavalos inteligentes e bem treinados!

Depois vêm os forcados, os rapazes que se abraçam ao touro já cansado e o tentam dominar pela sua força, não bruta como a do touro, mas de artimanha como a dos humanos. E a tradição, é bom de ver, manda que a inteligência domine a bruteza.

Há ainda a chamada “corrida à antiga portuguesa”, espectáculo de opulência e luxo, onde os cavaleiros se apresentam em coches dos séculos XVII-XVIII, perante os peões e os forcados, e em cima de montadas luxuosamente arreadas, evoluem na arena saudando o público de frente, tal como de frente enfrentam o touro, o animal que tem a ousadia de usar o seu tamanho e força contra a inteligência do homem e a agilidade do cavalo.

D. Pedro II, para proteger os homens, ordenou que ao touro para lide fossem cortadas as hastes, que é como quem diz em linguagem popular, – não de rei – os cornos. Cornos estes (os dos touros, bem entendido) que passaram ainda a ser embolados (encapuçados) por couro, pele tirada e curtida de um qualquer animal da espécie! D. Miguel, outro apreciador de touradas, toureava e pegava. Foi ele o autor do decreto que proíbe a morte do touro na arena. Proibição que ainda hoje se mantém. Mas não para todos!

Com ou sem touros de morte, o sangue fica na arena, na areia e na rua, misturado com sangue de humanos “corajosos” que quiseram bater recordes desprezando a “morte das andorinhas” que não fizeram morrer a primavera.

Este sangue derramado inutilmente, é a prova do combate injusto e desleal, de que o homem – Português – que por esse mundo navegou enfrentando monstros e lendas, mantém, não a tradição de continuar a marear e a engrandecer o País com Barcas e Caravelas e Naus e Galeões, mas com ferros que mostram ao bicho que quem manda é o homem e que, de entre “Sangue, Suor e Lágrimas”, interessa muito mais o primeiro que os outros.

Não chega o Sangue na Estrada, provocado pelos animais condutores?

António J. Branco, In, Crónicas do Meu País

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